Ao contrário de muitos de seus vizinhos europeus, que estão se afastando da energia nuclear, a França construirá seus primeiros novos reatores em décadas.

A Europa é especialmente dependente de produtores de gás e petróleo, mas a França é o país mais dependente de energia nuclear do continente.

A Alemanha respondeu ao desastre nuclear de Fukushima em 2011, no Japão, acelerando sua saída da geração de eletricidade usando essa fonte de energia.

Já o Governo François Hollande anunciou, em junho de 2014, que a capacidade nuclear da França seria limitada a 63,2 GWe e não excederia 50% do mix do país até 2025. Em maio de 2019, um projeto de lei estendeu este prazo para 2035.

Hoje, a França tem 56 reatores operacionais e cerca de 70% de sua eletricidade é gerada através do uso de energia nuclear, de acordo com a Associação Nuclear Mundial.

A Lei de Transição de Energia para o Crescimento Verde, adotada em agosto de 2015, não exige o desligamento de nenhum reator em operação, mas requer a desativação de reatores mais antigos para colocar novos em operação.

Em pronunciamento na televisão, na terça-feira (9), Macron reconheceu que a situação econômica do país ainda é frágil, "em um mundo onde as tensões sobre o abastecimento e os custos das matérias-primas e energia geram escassez e inflação”.

Ele disse que a população sofre as consequências da situação atual todos os dias, pagando mais para abastecer seus carros, bem como enfrentando o aumento dos preços do gás e da eletricidade.

"O que estamos vivenciando nas últimas semanas requer respostas urgentes. É também por isso que o governo fixou os preços do gás".

Macron disse que para manter os custos de energia em um nível "razoável" e reduzir a dependência das importações, a França deve continuar a economizar energia e investir na produção doméstica de energia livre de carbono.

“É por isso que, para garantir a independência energética da França, para garantir o abastecimento de energia elétrica do nosso país e atingir nossos objetivos, em particular a neutralidade de carbono em 2050, vamos, pela primeira vez em décadas, relançar a construção de reatores nucleares em nosso país e continuar a desenvolver energias renováveis", anunciou o presidente francês.

As eleições na França vão acontecer a 10 e 24 de abril de 2022 e Macron ainda não declarou se é ou não candidato à sua própria sucessão.

Anteriormente, o governo havia dito que não lançaria nenhum projeto de reator EPR de terceira geração até a conclusão da central nuclear da estatal EDF em Flamanville, que acumula uma década de atrasos e substanciais estouros de custo.

Mas em outubro a imprensa francesa relatou que o impacto da crise do gás na Europa sobre os preços da energia e o efeito indireto sobre o poder de compra das famílias aceleraram a decisão de Paris de se comprometer com a tecnologia EPR.

A energia nuclear está no centro do plano de reindustrialização França 2030 de Macron. O plano inclui um programa para demonstrar a tecnologia de pequenos reatores e a produção de hidrogênio. Apresentando o plano, ele disse que seria capaz de tomar sua decisão sobre a potencial construção de até seis grandes reatores "nas próximas semanas", antecipando a conclusão de um estudo do Primeiro-Ministro Jean Castex – a forma mais econômica da França zerar suas emissões líquidas até 2050 seria por meio da construção de 14 reatores EPR e um conjunto de pequenos reatores modulares (SMR, Small Modular Reactors).

A EDF, a grande empresa estatal de eletricidade da França, disse que estava "sinceramente satisfeita" com o anúncio de Macron. Anteriormente, a EDF já tinha declarado que gostaria de construir mais seis reatores EPR no país.

"A EDF trabalhou muito com a indústria nuclear para poder dizer que estamos prontos. Estamos prontos", disse seu CEO, Jean-Bernard Lévy, em uma audiência no senado francês nesta quarta-feira (10).

Origem da eletricidade comercializada aos consumidores finais da EDF em 2019. Fonte/Arte: © EDF
Origem da eletricidade comercializada aos consumidores finais da EDF em 2019. Fonte/Arte: © EDF

 * Com informações do World Nuclear News

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