A Ford diz que a planta de Taubaté, que fabrica motores e transmissões, está operando com um excedente de funcionários devido à queda nos volumes de produção e ao baixo desempenho da economia.

"A medida faz parte do acordo construído entre Ford e Sindicato, e aprovado pela ampla maioria dos empregados, para ajustar a força de trabalho às condições do mercado, a fim de suportar a competitividade e sustentabilidade da unidade", disse a montadora em nota.

Em assembleia na quarta-feira (19), os trabalhadores aprovaram um acordo que vinha sendo negociado, em quase 30 reuniões, desde novembro do ano passado entre a Ford e o Sindmetau (Sindicato do Metalúrgicos de Taubaté e Região).

Pelos termos pactuados, a montadora começará as demissões através de um plano de demissão voluntária (PDV), aberto até 3 de março, e prosseguirá até atingir a quota acordada com o sindicato, desligando 277 empregados para obter redução de 30% da atual força de trabalho do complexo industrial.

Aos empregados horistas que aderirem ao PDV, a Ford oferece 75% do salário por ano trabalhado, um carro de R$ 47 mil e R$ 9 mil de plano de saúde.

Aos mensalistas, a montadora pagará 41,5% do salário por ano trabalhado e mais dois salários integrais, além de R$ 9 mil de convênio médico.

Para os trabalhadores que permanecerem na Ford após os cortes, o sindicato obteve estabilidade de emprego até 31 de dezembro de 2021 com jornada de 40 horas; reposição de salários pelo INPC em 2020 e 2021, limitados ao teto mensal de R$ 11.560; e acréscimo de um bônus de R$ 1,4 mil na PLR (Participação de Lucros e Resultados), cujo valor-base em 2020 será o de 2019 (R$ 11,1 mil) mas será corrigido pelo INPC em 2021.

“Para nós, [277] ainda é um número extremamente alto, porque estamos falando de  pais e mães de família. Buscamos construir algo para minimizar esse momento difícil que os trabalhadores e trabalhadoras estão passando. Algo que não fosse uma demissão simples, apenas com as verbas rescisórias”, afirma Sinvaldo.

Prefeitura e Estado

O Sindmetau se reuniu com representantes da Ford na Prefeitura de Taubaté no último dia 11 de fevereiro.

“Utilizamos todas as alternativas para contribuir nesse processo. O futuro da fábrica em Taubaté precisa ser uma luta permanente. O poder público deve fazer parte dessa cobrança, já que a Ford recebeu benefícios como isenções de impostos ao longo dos anos”, cobrou o presidente do Sindmetau, Claudio Batista da Silva Junior.

Na reunião, Sindicato e Prefeitura se prontificaram em colaborar com a Ford para construir alternativas visando a sustentação dos empregos. O prefeito Ortiz Junior também se colocou à disposição da montadora para acionar o Governo do Estado em busca de soluções.

Mas a direção da Ford reafirmou a posição de reduzir a mão de obra na unidade, argumentando que a intervenção do Estado não teria efeito na decisão. A Ford insistiu que a redução do quadro é essencial para manter a fábrica competitiva no mercado, e afirmou que a multinacional não tem planos para fechar a unidade em Taubaté neste momento. A Ford passa por uma reestruturação global que levou ao fechamento da fábrica de São Bernardo do Campo.

Reprise

Em setembro de 2018, ano em que a Ford festejou os 50 anos do seu complexo industrial em Taubaté, com a instalação de robôs e outras tecnologias "4.0", a multinacional anunciou ter um 'excedente' de 350 trabalhadores na fábrica.

Em novembro de 2018, a montadora abriu um PDV, resultando em 128 empregados demitidos.

Em janeiro de 2019, os trabalhadores da unidade entraram em greve por três dias, em protesto por 12 funcionários terem sido demitidos após o PDV. Os integrantes do Comitê Sindical de Empresa negociavam outras medidas para administrar o 'excedente', quando foram surpreendidos pela demissão dos 12 trabalhadores.

Entre as alternativas para reduzir o excesso de mão de obra, alegado pela Ford, estavam a abertura de um novo PDV, a redução da jornada, e a Licença Remunerada (LR). Na época, segundo o Sindmetau, a Ford estaria empregando cerca de 1.300 funcionários na fábrica de Taubaté. Hoje, seriam 920, antes de serem demitidos mais 277 trabalhadores nos próximos dias, mas a suposta pretensão original da Ford em novembro de 2019 era despedir 350, informa o sindicato.  

A realidade da globalização é que para ser competitivo, fornecendo os mesmos itens fabricados em unidades da Ford em outros países, o complexo industrial de Taubaté precisaria investir em automação, o que eliminaria muitos postos de trabalho – situação que ficou evidente quando a fábrica foi modernizada.

Automação

O Complexo Industrial da Ford em Taubaté possui capacidade instalada para a produção anual de 500 mil motores 1.5 Ti-VCT Flex de três cilindros e Sigma, e de 440 mil transmissões dos modelos iB5 e MX65.  Conta também com uma fundição de alumínio, com capacidade de 220 mil cabeçotes por ano.

O Brasil foi o primeiro a lançar o novo motor global 1.5 Ti-VCT Flex, agora também produzido na China, México e Índia.

Na comemoração dos 50 anos da unidade de Taubaté, em 2018, a Ford destacou a modernização de sua linha de produção e a qualificação de funcionários. Entre outras tecnologias, foram instalados 30 robôs na linha de motores e 19 robôs na unidade de transmissões e adotado rastreamento QR Code na produção. Na época, o complexo empregava 2.300 pessoas, entre funcionários da Ford e fornecedores, e produzia anualmente 8 milhões de motores e 7 milhões de transmissões.

“A produção local do novo motor e da nova transmissão é mais uma prova do foco da Ford em servir os consumidores com produtos versáteis, que oferecem grande economia de combustível sem comprometer a performance e o prazer de dirigir”, disse Lyle Watters, presidente da  Ford América do Sul. “Para isso, fizemos significativos investimentos em  equipamentos, sistemas e melhoria de processos que estão totalmente alinhados com os conceitos da Indústria 4.0. E investimos também no nosso recurso mais valioso – as pessoas –, com um amplo programa de mais de 250 mil horas de treinamento.”

Além de flexibilidade para a produção de motores de três e quatro cilindros na mesma linha, a fábrica tem todos os equipamentos conectados em rede.

“Nós atualizamos 100% do nosso parque fabril em Taubaté, com automação das linhas de usinagem e montagem, e melhoramos o fluxo de  materiais, totalmente integrado ao conceito de manufatura enxuta, proporcionando eficiência nos processos e alta produtividade. Assim, estamos alinhados ao que existe de mais avançado na Ford no mundo, com o  mesmo padrão de qualidade de mercados como os Estados Unidos, Alemanha e China”, disse em 2018 Rogelio Golfarb, VP de Assuntos Governamentais, Comunicação e Estratégia da Ford América do Sul.

* Com dados e informações do Sindmetau (Sindicato do Metalúrgicos de Taubaté e Região) e Ford

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