O Exército de Libertação Popular (PLA) realizou na terça-feira (2) “rastreamento e vigilância completos” da aeronave de transporte C-40 da Força Aérea dos EUA que transportou a Presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, para Taiwan de Kuala Lumpur, forçando o avião a desviar o seu curso, de acordo com o major-general Meng Xiangqing, professor da Universidade de Defesa Nacional, a principal academia militar do PLA.

“Nossas tropas implantadas em vários locais se tornaram um impedimento para [o avião]”, afirmou Meng à estatal CCTV nesta sexta-feira (5), acrescentando que o PLA organizou forças navais e aéreas em áreas ao sul de Taiwan, incluindo o Canal Bashi.

Segundo os EUA, o desvio do voo de Pelosi foi para garantir segurança absoluta. No Mar do Sul da China, há três ilhotas artificiais armadas com mísseis e radares. O voo pelo vasto Mar das Filipinas foi protegido pelo grupo de ataque do porta-aviões USS Ronald Reagan, que já estava lá.

Viagem de sete horas, três a mais via a rota normal do Mar do Sul da China
Viagem de sete horas, três a mais via a rota normal do Mar do Sul da China.

Meng também disse que o anúncio do PLA de manobras militares na costa leste de Taiwan, utilizando munição real, forçou o porta-aviões a navegar centenas de quilômetros a leste da ilha. O navio partiu do Mar das Filipinas até sua base no Japão, assim que o PLA começou seu exercício militar.

Analistas militares de Taiwan disseram que a rota de voo escolhida pelos EUA mostrou que os Estados Unidos não estão mais no controle da cadeia de ilhas. Além disso, os EUA moveram bombardeiros B1 eF35B, submarinos nucleares e outras armas avançadas do Japão para Guam.

Os exercícios do PLA em Taiwan, sem precedentes em escala, foram lançados em retaliação à visita de Pelosi, que terminou na quarta-feira (3).

Quinta-feira foi o primeiro de quatro dias de exercícios militares de fogo vivo em seis áreas marítimas ao redor da ilha.

Poucas horas após a partida da política americana, o PLA lançou 11 mísseis balísticos Dongfeng e despachou mais de 100 caças e 13 navios de guerra. Os dois porta-aviões do PLA, o Liaoning e o Shandong, deixaram seus portos de origem, de acordo com relatos da imprensa chinesa.

Novas versões de mísseis também foram testadas contra alvos no Estreito de Taiwan, atingindo-os "com precisão", segundo autoridades da China.

As manobras forçaram vários navios mercantes a redirecionar suas viagens.

Na quinta-feira à noite, o Ministério da Defesa do Japão informou que de nove mísseis lançados pelo PLA das 13h56 às 15h08 (horário de Taiwan), cinco pousaram em águas na zona econômica exclusiva do Japão, e quatro dos cinco sobrevoaram Taiwan.

Meng também se referiu aos “primeiros exercícios de dissuasão do grupo de ataque do porta-aviões americano, com a participação de submarinos nucleares”.

Taiwan está agora em uma situação crítica, separada do resto do mundo e cercada por atores hostis com grande capacidade de fogo. Também enfrenta retaliações no campo econômico, com a suspensão pela China da compra de 2.000 itens alimentícios e da venda de areia – um componente na produção de chips.

A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Hua Chunying, defendeu a resposta da China como "justificada e necessária", acrescentando que o país está engajado em uma "luta contra a hegemonia, contra a interferência e contra a secessão".

O governo Biden insiste que sua posição sobre Taiwan permanece inalterada, embora Pequim tenha dito que a visita de Pelosi minou a política de uma só China que reconhece Taiwan como parte da China – uma demanda central da diplomacia chinesa.

A Casa Branca pediu aos Democratas do Senado que não avancem com uma legislação que nomearia Taiwan um “grande aliado não-Otan”.

O projeto de lei bipartidário americano forneceria US$ 4,5 bilhões em ajuda militar a Taiwan e apoiaria sua participação em organizações internacionais. A Comissão de Relações Exteriores do Senado dos EUA adiou o trabalho sobre a legislação até setembro.

“A Casa Branca tem preocupações significativas. Eu tenho preocupações significativas”, disse o Senador Democrata Chris Murphy, citado pela Bloomberg.

Diálogo suspenso

A China suspendeu nesta sexta-feira o diálogo militar com os Estados Unidos em várias áreas.

O governo chinês decidiu suspender a cooperação com os EUA na repatriação de imigrantes ilegais, na assistência legal em assuntos criminais e no combate ao narcotráfico. Além disso, as reuniões do Acordo Consultivo Marítimo Militar foram canceladas, assim como os diálogos de Coordenação de Política de Defesa.

A China anunciou também ter convocado os diplomatas europeus no país para protestar contra declarações emitidas pelo G7 e pela União Europeia (UE), de crítica aos exercícios militares chineses perto de Taiwan, o que considera ser "uma interferência devassa nos assuntos internos da China".

Mais cedo, a China anunciou que sanções individuais foram aplicadas contra Pelosi e seus familiares mais próximos. O Ministério das Relações Exteriores classificou a visita a Taiwan como “provocativa”.

“Apesar das sérias preocupações e firme oposição da China, Pelosi insistiu em visitar Taiwan, interferindo seriamente nos assuntos internos chineses, minando a soberania e a integridade territorial da China, atropelando a política de ‘Uma China’ e ameaçando a paz e a estabilidade do Estreito de Taiwan”, disse um porta-voz do ministério em comunicado.

Atualização 06/07/2022

O Comando do Teatro Oriental do Exército de Libertação Popular da China continuou neste sábado (6) exercícios conjuntos com munição real orientados para o combate no espaço marítimo e aéreo norte, sudoeste e leste da ilha de Taiwan como planejado, focando-se em ataques terrestres e marítimos sob apoio sistêmico, relatou o Global Times.

Atualização 08/08/2022

Nesta segunda-feira (8), o governo chinês disse que "o Exército de Libertação do Povo (PLA) continua realizando exercícios conjuntos práticos e treinos no mar e no espaço aéreo em redor da ilha de Taiwan".

A China iniciou as manobras com munição real em seis áreas ao redor de Taiwan na quinta-feira (4)
A China iniciou as manobras com munição real em seis áreas ao redor de Taiwan na quinta-feira (4)

Os exercícios, indicou o Comando Oriental chinês, estão "focados na organização de operações conjuntas antissubmarino e de assalto marítimo". Pequim também deve realizar exercícios de munição real nesta segunda-feira.

Taiwan manteve-se em alerta durante os exercícios de Pequim e informou que irá realizar manobras militares a partir de terça-feira, de acordo com o exército de Taipé. "Vamos praticar contra-ataques contra ataques inimigos simulados em Taiwan", disse à AFP Lou Woei-jye, porta-voz do Oitavo Corpo do Exército.

O líder de Taiwan, Su Tseng-chang, acusou a China de recorrer ao uso "brutal" da ação militar" para perturbar a paz na ilha.

A exibição de força mobilizou caças, navios de guerra e lançamentos de mísseis balísticos junto a Taiwan, o que analistas consideraram uma simulação de bloqueio e invasão da ilha.

As manobras permitiram testar "táticas de guerra de sistemas baseados em informações e aperfeiçoar e melhorar as capacidades de destruição de alvos insulares estratégicos com ataques de precisão", declarou o oficial da Força Aérea chinesa Zhang Zhi, citado pela agência estatal Xinhua.

Ao mesmo tempo, a China anunciou novas manobras no Mar Amarelo, localizado entre o continente e a península da Coreia, até 15 de agosto.

No domingo, a China realizou "exercícios práticos conjuntos no mar e no espaço aéreo ao redor da ilha de Taiwan, como estava previsto", informou o exército. Os exercícios tinham como objetivo "testar o poder de fogo conjunto em terra e as capacidades de ataque aéreo de longo alcance", acrescentou.

Para demonstrar como se aproximou da costa de Taiwan, o exército chinês divulgou um vídeo da costa e das montanhas da ilha filmado por um caça.

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