Em 2019, os valores de câmbio contratado do Banco Central revelam a maior fuga de capitais que já ocorreu no Brasil e o pior fluxo cambial de toda a série histórica.

Os números revelam também a brutal queda nas exportações brasileiras.

O Fluxo Cambial é composto por a) Fluxo Comercial, que mede o fechamento de câmbio para exportações e importações, e b) Fluxo Financeiro, que mede investimentos em empresas, empréstimos e transações no mercado financeiro. Fonte: Banco Central do Brasil (08.01.2020)
O Fluxo Cambial é composto por a) Fluxo Comercial, que mede o fechamento de câmbio para exportações e importações, e b) Fluxo Financeiro, que mede investimentos em empresas, empréstimos e transações no mercado financeiro. Fonte: Banco Central do Brasil (08.01.2020)

Apenas em dezembro, período sazonalmente marcado por saídas de capital, os últimos dados do BC (tabela abaixo) mostram déficit líquido no mês de US$ 19,9 bilhões na conta financeira, recorde negativo que supera qualquer fluxo, mensal ou anual, das quatro décadas do histórico mantido pela autoridade monetária.

Movimento de Câmbio Contratado. Valores em milhões de dólares. Fonte: Banco Central do Brasil (08.01.2020)
Movimento de Câmbio Contratado. Valores em milhões de dólares. Fonte: Banco Central do Brasil (08.01.2020). A saída recorde de dólares tem forçado o BC a prover liquidez ao mercado via leilões de moeda à vista, o que não era feito havia uma década.

Embora a saída líquida de capital da conta financeira tenha aumentado US$ 14 bilhões em relação a 2018, somando US$ 62 bilhões em 2019 [US$ 44,5 bilhões estavam aplicados na B3], o fluxo cambial (comercial+financeiro) negativo de US$ 44,8 bilhões é melhor explicado considerando-se a redução de US$ 30,5 bilhões no volume contratado de câmbio* em 2019 face a 2018, consequência da queda das exportações e da volatilidade do Real.

Valores em milhões de dólares. Fonte: Exportações (MDIC), Câmbio Contratado (BC)
Valores em milhões de dólares. Fonte: Exportações (MDIC), Câmbio Contratado (BC)

(*) O contrato de câmbio define as características da operação e as condições a serem registradas no BC. Ele pode ser firmado antes ou depois do embarque dos pedidos e o pagamento pode ser antecipado, à vista, à prazo ou por carta de crédito.

Dos US$ 196 bilhões contratados pelos exportadores em 2019, US$ 32 bilhões foram Adiantamento sobre Contrato de Câmbio (ACC) – financiamento pré-embarque ao exportador, e US$ 58 bilhões pagamentos antecipados (PA) – o importador remete previamente o valor da transação, após o que, o  exportador providencia a exportação da encomenda e o envio da  respectiva documentação.

Destaques das exportações de 2019

A taxa de câmbio pode ser fechada até 180 dias (antes ou depois) da data do embarque.. Fonte: Investing.com

As exportações apresentaram redução nas três categorias:

  • Manufaturados US$ 77,5 bilhões (-11%)
    Registraram quedas de vendas o suco de laranja não congelado (-72%), plataformas petroliferas (-51%), veículos de carga (-35%), automóveis de passageiros (-28%), laminados planos de ferro/aço (-24%), autopeças (-19%), aviões (-17%) e polímeros plásticos (-14%).
  • Semimanufaturados US$ 28,4 bilhões (-8%)
    As maiores quedas ocorreram nas vendas de óleo de soja em bruto (-37%), couros e peles (-21%), semimanufaturados de ferro/aço (-18%), açúcar em bruto (-17%),  celulose (-10%) e madeira serrada ou fendida (-10%).
  • Básicos US$ 118,2 bilhões (-2%)
    Houve diminuição da receita de soja em grãos (-21%), minério  de cobre (-16%), farelo de soja (-13%) e petróleo em bruto (-7%).

As vendas para o Mercosul caíram 30%. Para a Argentina, um dos principais parceiros comerciais do Brasil, a queda foi ainda maior, 36%, impactando a produção e a exportação brasileira de automóveis, veículos de carga, autopeças, tratores, minério de ferro, laminados planos de ferro/aço, soja em grãos e óleo combustível.

Os principais destinos em 2019 foram China (US$ 65 bilhões); Estados Unidos (US$ 30 bilhões); Países Baixos (US$ 10 bilhões); Argentina (US$ 10 bilhões); e Japão (US$ 5 bilhões).

2020

De acordo com o BC, o  fluxo cambial da semana passada (de 30 de dezembro a 3 de janeiro) ficou negativo em US$ 2,4 bilhões, com saída líquida da conta financeira de US$ 2,1 bilhões em apenas 3 dias úteis.

* Com dados do Banco Central do Brasil e do Ministério da Economia

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