O Hospital Universitário de Nara declarou que Shinzo Abe "já não tinha sinais vitais" quando chegou ao hospital. Os dois disparos que atingiram o ex-chefe de governo feriram o pescoço e o coração, sangrando de forma "abundante".

O comício desta sexta-feira ocorria antes das eleições para o Senado japonês, marcadas para domingo (10). Abe discursava para um pequeno grupo, em apoio a Kei Sato, um membro da câmara alta do Parlamento que concorre à reeleição como representante da cidade de Nara.

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Abe discursava para um pequeno grupo quando foi atingido pelos disparos

A polícia japonesa deteve um suspeito. Segundo a imprensa local, o atirador é um ex-militar da Marinha do Japão e teria usado uma arma de fabricação caseira para cometer o crime.

No país, a violência política é rara e as armas de fogo são fortemente reguladas. Os assassinatos eram comuns na política interna nos anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial, mas inexistentes ao longo das últimas seis décadas.

O último assassinato de uma figura política nacional ocorreu em 1960, quando um extremista esfaqueou e matou o então líder do Partido Socialista do Japão, Inejiro Asanuma.

A grande ambição de Shinzo Abe era a de rever a Constituição pacifista japonesa de 1947. Ele foi um membro de longa data da Nippon Kaigi, uma organização de 38.000 membros, incluindo 40 ministros atuais e antigos, que é dedicada à restauração da constituição imperial do Japão em tempos de guerra.

A necessidade geopolítica exigiu que as potências ocidentais encobrissem o fato de que Abe era um negador ultranacionalista do holocausto chinês.

Coincidentemente, o avô materno de Abe, Nobusuke Kishi, foi o mentor por trás da escravidão econômica de milhões de chineses para a militarização industrial da Manchúria. Mais tarde, Kishi assinou a declaração de guerra contra os Estados Unidos em 1941. Após a guerra Kishi, um criminoso de guerra da lista A, escapou da acusação e tornou-se um fundador do Liberal Democratic Party (LDP), servindo como primeiro-ministro de 1957 a 1960.

Tendo construído parte da sua reputação com base na posição dura sobre a Coreia do Norte, Shinzo Abe assumiu um Japão descomplexado com o passado. Em particular, recusou-se a carregar o fardo do arrependimento pelos abusos do exército japonês na China e na península coreana na primeira metade do século XX.

Não surpreende que, em 2013, Abe causou uma tempestade de protestos em toda a Ásia quando visitou o Santuário Yasakuni, onde os criminosos de guerra condenados do Japão estão enterrados. Mesmo no final de seu tempo no cargo, Abe não mudou suas atitudes para as atrocidades de guerra do Japão. Para Abe e a hierarquia do LDP, os soldados japoneses considerados culpados nos Tribunais de Crimes de Guerra de Tóquio eram heróis, não criminosos.

Leis aprovadas durante sua gestão, como o reforço da proteção dos segredos de Estado, a expansão das missões das Forças de Auto-Defesa e o reforço do combate ao terrorismo, causaram controvérsia no Japão, levando mesmo a grandes manifestações, raras no país.

Em 2020, quando se tornara impopular devido à gestão da pandemia, considerada desastrosa pela opinião pública, admitiu que sofria de uma doença inflamatória intestinal crônica, colite ulcerosa, e demitiu-se pouco tempo depois. Esta doença tinha já sido uma das razões para o fim abrupto do primeiro mandato em 2007.

O Presidente Jair Bolsonaro decretou luto oficial de três dias e lamentou a morte do líder japonês em rede social.

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