O fracking fez dos Estados Unidos o maior produtor de petróleo do mundo há alguns anos, mas o país ainda importa milhões de barris todos os dias de outras partes do mundo, incluindo a Rússia.

Cerca de 672.000 barris por dia (bpd) de petróleo e produtos refinados vieram da Rússia no ano passado, disse ao Wall Street Journal (WSJ) Andy Lipow, presidente da Lipow Oil Associates em Houston, representando 8% das importações dos EUA. O petróleo bruto, cerca de 200.000 bpd, representa 3% das compras americanas.

A Rússia produz 8 milhões de barris por dia de petróleo.

Em meados de 2021, as importações atingiram os níveis mais altos em cerca de uma década, e vinham aumentando nos últimos anos, mas o petróleo russo nunca foi significativo no sistema de fornecimento de petróleo dos EUA.

A América recebe a maioria de suas importações brutas do Canadá, México e Arábia Saudita. Países menores da América Latina e África Ocidental também normalmente enviam mais petróleo para os EUA do que a Rússia.

Os EUA compram petróleo russo em parte para alimentar refinarias que precisam de diferentes graus de petróleo com maior teor de enxofre. As refinarias dos EUA foram projetadas décadas atrás para usar graus mais pesados de petróleo, muitas vezes com níveis mais altos de enxofre, quando os suprimentos domésticos eram mais baixos.

Nos últimos anos, o petróleo russo preencheu parte da lacuna criada pelas sanções à Venezuela e ao Irã, que prejudicaram o fluxo de tipos similares de petróleo desses países para refinarias na Costa do Golfo e de outras regiões americanas, disse Lipow ao WSJ.

A Lei Jones, aprovada há um século, limitou o tamanho dos navios que são autorizados a transportar mercadorias entre os portos dos EUA. Isso deixou compradores das costas Oeste e Leste incapazes de obter petróleo enviado para fora da Costa do Golfo, devido ao custo proibitivo do transporte por pequenas embarcações, levando as refinarias sem conexões a oleodutos a importar petróleo do exterior.

Cerca de metade do petróleo que os EUA importam da Rússia vai para a Costa Oeste, onde as refinarias recebem entregas do exterior em grande parte porque não estão conectadas por oleodutos à Permian Basin, a maior bacia petrolífera dos EUA. Refinarias da Costa Oeste recebem o petróleo despachado do terminal portuário russo de Kozmino, próximo da fronteira com a China e a Coreia do Norte, na costa do Mar do Japão.

Outro quarto desse petróleo, cerca de 50.000 barris por dia, vai para a Costa Leste, onde as refinarias também não estão conectadas por oleoduto às atuais fontes de produção de petróleo dos EUA. O quarto restante geralmente termina na Costa do Golfo, onde o grau de petróleo da Rússia, que tem um nível mais alto de enxofre do que a maioria do petróleo produzido nos EUA, é considerado lucrativo para uso em refinarias projetadas para processar o chamado petróleo azedo (sour).

Movimentos para dificultar o fluxo de petróleo russo poderão ser interpretados pelo mercado como mais um impacto em estoques globais já escassos, o que poderá elevar ainda mais os custos para os consumidores. O petróleo dos EUA estava sendo negociado acima de US$ 106 o barril nesta terça-feira (1º), aumentando a especulação de que os embarques poderão ser interrompidos por sanções às exportações russas de energia.

A Rússia ainda não impôs suas medidas de resposta às medidas ocidentais, mas as pessoas no Ocidente já percebem o que as sanções anti-russas de seus países estão implicando, disse a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, nesta terça-feira, relatou a TASS.

"Elas sabem por que têm esses preços em fontes de energia. Eles sabem o que está acontecendo em vários setores de suas economias e entendem que seus líderes, que optaram por essa escolha, desencadearam processos correspondentes em seus próprios países e devem entender isso", disse em entrevista ao canal de televisão Rossiya-24.

"Gostaria de notar mais uma vez: a Rússia ainda não impôs medidas de resposta."

Em suas palavras, as pessoas no Ocidente estão perguntando aos seus líderes sobre o que está acontecendo. "Mas a única coisa que eles ouvem são mentiras da Casa Branca e do Departamento de Estado, de Bruxelas e Londres. Elas não acreditam neles", acrescentou a diplomata russa.

Fonte/Arte: © Investing.com

Atualização 03/03/2022

A Secretária de Imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, disse nesta quinta-feira (3) que os EUA "não têm interesse estratégico" em reduzir o fornecimento global de petróleo. Ela fez os comentários em resposta a uma pergunta sobre a possibilidade dos Estados Unidos proibirem as importações de petróleo da Rússia.

Psaki enfatizou que Washington quer "maximizar o impacto" das sanções sobre Putin e a Rússia, mas "minimizar o impacto" sobre o povo americano e os aliados dos EUA.

Atualização 07/03/2022

Embora o governo Biden tenha sinalizado no domingo (6) sua disposição de proibir as importações de gás e petróleo russos como parte das sanções internacionais a Moscou, Olaf Scholz, chanceler da Alemanha, rejeitou a ideia.

"A Europa isentou deliberadamente o fornecimento de energia da Rússia das sanções", disse Scholz em um comunicado nesta segunda-feira. "No momento, o fornecimento de energia da Europa para geração de calor, mobilidade, eletricidade e uso industrial não pode ser garantido de outra forma. Por isso, é de importância essencial para a prestação de serviços públicos e o cotidiano de nossos cidadãos".

A Alemanha não está sozinha na Europa na alta dependência de combustíveis fósseis russos.

A posição do país, que está sendo espelhada na União Europeia, marca uma divergência incomum após duas semanas de sincronização transatlântica sobre as sanções e reflete realidades políticas contrastantes em Washington e na Europa.

O Primeiro-Ministro da Holanda, Mark Rutte, alertou na segunda-feira para as "enormes ramificações" que decorreriam de uma proibição imediata dos combustíveis fósseis russos. "A dolorosa realidade é que ainda somos muito dependentes do petróleo e gás russos", reconheceu.

Os danos colaterais das rodadas de sanções existentes já são suficientes para levantar preocupações sobre a recuperação econômica da UE, com muitas capitais vendo argumentos para uma pausa, devendo considerar o impacto do atual pacote de sanções antes de contemplar um ataque contra algo tão sensível quanto as exportações russas de energia.

Scholz disse que seu governo e parceiros europeus têm "trabalhado duro por meses" para desenvolver alternativas ao fornecimento de energia russo, mas enfatizou que "isso não pode ser feito da noite para o dia".

"É por isso que é uma decisão consciente de nossa parte continuar as atividades das empresas na área de fornecimento de energia com a Rússia", acrescentou Scholz.

A intervenção do chanceler seguiu comentários do Secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, que disse no domingo que os Estados Unidos e a União Europeia estavam em "discussões muito ativas" para proibir as importações de petróleo russo. A imprensa japonesa informou que Tóquio se juntou a essas discussões.

A declaração de Blinken provocou elevação de 18% do preço do petróleo Brent, a referência internacional, para US$ 139 o barril.

Se a União Europeia e os Estados Unidos imporem barreiras simultâneas às importações russas de energia, o aumento de preços será formidável.

Apenas a ameaça de uma proibição do petróleo russo abalou Wall Street, levando o S&P 500 a cair quase -3% e o Nasdaq Composite, focado em tecnologia, caindo -3,6%. O Euro Stoxx 50 caiu mais de -1%, após Moscou alertar para "consequências catastróficas" para o bloqueio de seu petróleo.

Bloquear as exportações russas de energia empurraria o Brent para cerca de US$ 160 o barril e "os preços da energia permaneceriam mais altos por mais tempo", disse ao FT Caroline Bain, economista-chefe de commodities da consultoria Capital Economics.

O governo Biden está sob intensa pressão no Congresso por um bloqueio de petróleo, um movimento que as pesquisas de opinião sugerem que encontraria apoio popular, apesar de trazer mais aumentos para os combustíveis.

O presidente venezuelano Nicolás Maduro confirmou que seu governo manteve conversações com altas autoridades dos EUA, a primeira reunião de alto nível entre os países desde 2019, quando cortaram os laços diplomáticos. Conversações com o Irã também estão em andamento. Biden busca fornecedores alternativos de energia antes dos EUA e seus aliados ampliarem as sanções impostas à Rússia.

Atualização 04/04/2022

Os Estados Unidos aumentaram suas compras de petróleo russo em 43% entre 19 e 25 de março, de acordo com dados da Administração de Informações sobre Energia (EIA) dos EUA. Apesar da proibição da Casa Branca de importações de energia da Rússia, os Estados Unidos continuam a comprar até 100.000 barris de petróleo russo por dia.

* Com informações do Wall Street Journal, TASS, Deutsche Welle, Financial Times

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