O laboratório farmacêutico espanhol PharmaMar anunciou na quinta-feira (2) que seu licenciado na Coréia do Sul, Boryung Pharmaceutical, apresentou resultados de estudos in vitro da plitidepsina (Aplidin) que mostram um desempenho antiviral melhor que o Remdesivir, medicamento para tratamento da Covid-19, doença causada pelo coronavírus SARS-CoV-2.

"Com esses dados de uma poderosa atividade antiviral, espera-se reduzir a progressão da doença para Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) em pacientes hospitalizados com pneumonia Covid-19, juntamente com uma rápida melhoria nos sintomas", disse a empresa espanhola em comunicado.

A Boryung informou que está preparando ensaios clínicos para plitidepsina na Coreia do Sul e pretende iniciá-los no terceiro trimestre de 2020.

No final de abril, a PharmaMar recebeu autorização da Agência Espanhola de Medicamentos e Produtos de Saúde (AEMPS) para iniciar a Fase II de ensaios clínicos com o Aplidin, um estudo multicêntrico, randomizado, paralelo e aberto para avaliar o perfil de segurança e a eficácia de três doses de plitidepsina em pacientes com Covid-19 que necessitam de internamento hospitalar.

O Aplidin é um agente anticâncer em desenvolvimento pela PharmaMar, que comercializa medicamentos de origem marinha. A plitidepsina é isolada do ascídia (Aplidium albicans) e mostrou atividade anti-mieloma mesmo em mielomas resistentes a outros agentes.

Proteína eEF1A

Em março, a PharmaMar anunciou os resultados dos estudos in vitro da plitidepsina no coronavírus humano HCoV-229E, realizados no Centro Nacional de Biotecnologia do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) da Espanha.

"Estes resultados confirmam a hipótese de que o alvo terapêutico do Aplidin®, que é a EF1A, é a chave para a multiplicação e disseminação do vírus", informou a PharmaMar em comunicado.

O HCoV-229E está associado a sintomas comuns de resfriado em adultos saudáveis. Crianças, idosos, pacientes imunocomprometidos e pacientes com comorbidades são considerados extremamente vulneráveis ao desenvolvimento de infecções do trato respiratório inferior (ITRI). Em alguns casos, ITRIs graves e com risco de vida foram atribuídos ao HCoV-229E.

O HCoV-229E tem um mecanismo de multiplicação e propagação muito semelhante ao do SARS-CoV-2, uma vez que ambos utilizam a proteína eEF1A, essencial para a replicação do vírus e para sua disseminação para outras células.

As proteínas eEF1A desempenham um papel crítico em inúmeras doenças humanas. Nas infecções virais, as proteínas eEF1A bloqueiam a apoptose e interagem com várias proteínas virais, impulsionando a replicação viral, resultando em aumento da patogênese.

A plitidepsina atua bloqueando a proteína eEF1A. Através desta inibição, a expectativa é que a reprodução do vírus SARS-CoV-2 dentro da célula seja impedida, inviabilizando a propagação da infecção para outras células.

A inativação das proteínas eEF1A leva à imunodeficiência e defeitos neurais e musculares, entre outras graves consequências.

Aplidin

Em 2017, o Comitê dos Medicamentos para Uso Humano (CHMP) da União Europeia recomendou a recusa da autorização de introdução no mercado do medicamento Aplidin para tratamento de mieloma múltiplo.

Para o comitê, o estudo principal mostrou apenas um aumento modesto de cerca de um mês no período em que os pacientes que receberam Aplidin viveram sem que a doença piorasse, em comparação com aqueles tratados apenas com dexametasona. Além disso, a melhora na sobrevida não foi suficientemente demonstrada. Em relação à segurança, efeitos colaterais graves foram relatados com mais frequência com a combinação de Aplidin e dexametasona do que com a dexametasona isolada. Com base no exposto, o CHMP considerou que os riscos excediam os benefícios do Aplidin. A empresa solicitou um reexame do parecer inicial. Após analisar os motivos do pedido, o CHMP reexaminou o parecer e confirmou a recusa da autorização de uso do Aplidin na União Europeia em 22 de março de 2018.

Contudo, o medicamento Aplidin foi aprovado na Austrália e tem sido administrado em combinação com dexametasona para tratar pacientes com mieloma que se tornaram resistentes a outras terapias. A aprovação foi concedida após a combinação mostrar benefícios significativos de sobrevida.

As ações da PharmaMar disparam nesta sexta-feira, subindo 14% na bolsa espanhola, a maior alta do dia.

* Com informações La Vanguardia, Myeloma Research News, European Medicines Agency, ClinicalTrials.gov, Pfarma, Frontiers on Oncology, Khan Academy, Oncozine

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