O Presidente Recep Tayyip Erdogan advertiu neste sábado (12) Emmanuel Macron "para não mexer" com a Turquia, à medida que as tensões entre os aliados da Otan aumentam.

Macron condenou Ancara durante um impasse entre a Grécia e Chipre de um lado e a Turquia do outro sobre os recursos de hidrocarbonetos e a influência naval no Mediterrâneo oriental.

Erdogan exortou a Grécia a "ficar longe de ações erradas" apoiadas por países como a França nas águas disputadas, depois que exercícios navais rivais de Atenas e Ancara na região no mês passado viram Paris aumentar sua presença militar na região.

Macron disse na quinta-feira (10) que os europeus devem ser "claros e firmes, não com a Turquia como nação e povo, mas com o governo do presidente Erdogan, que tomou ações inaceitáveis".

O líder turco neste sábado rejeitou tais observações e acusou Macron de “falta de conhecimento histórico”.

"Sr. Macron, você vai ter mais problemas comigo", disse Erdogan. "Eu disse isso várias vezes, mas você não está ouvindo".

Mais tarde, ele disse que a França "não pode dar lições de humanidade" à Turquia e disse a Macron para olhar primeiro para o próprio histórico da França, especialmente na Argélia e seu papel no genocídio de Ruanda em 1994.

Erdogan também acusou a França de intervir na Líbia “por petróleo” e na África por “diamantes, ouro, cobre”.

Rafales

Por vários dias, a Grécia foi creditada em estar negociando com a França a ampliação de sua capacidade militar. Neste sábado, o primeiro-ministro grego, Kyriakos Mitsotakis, confirmou a compra de armamento francês.

“Nossa força aérea adquirirá imediatamente um esquadrão de 18 caças Rafale para substituir o antigo Mirage 2000, aqueles que não serão modernizados, ou seja, o Mirage 2000 EGM / BGM. São excelentes aviões que, com os nossos F-16 modernizados, vão reforçar a nossa capacidade de dissuasão ”, anunciou o chefe do governo grego.

Mitsotakis também comunicou a aquisição de quatro fragatas “multi-função”, sem dar mais detalhes. De acordo com fontes gregas, Atenas poderia obter quatro fragatas de defesa e intervenção da francesa Naval Group. Esses navios seriam construídos na Grécia.

O anúncio foi imediatamente comentado pela Ministra das Forças Armadas da França, Florence Parly, que “saudou a escolha anunciada” pela Grécia “de adquirir 18 aeronaves Rafale para o benefício da Força Aérea grega".

“Este anúncio é um sucesso para a indústria aeronáutica francesa, em particular a Dassault Aviation, bem como outros players industriais franceses, e em particular para as muitas PME envolvidas na construção do Rafale”, destacou o Ministério das Forças Armadas. “Esta escolha em favor de uma aeronave de combate da Dassault Aviation, no mais alto nível de tecnologia mundial, fortalece a ligação entre as forças armadas gregas e francesas, e lhes permitirá intensificar sua cooperação operacional e estratégica".

A Grécia é o primeiro país europeu a adquirir caças Rafale. Um voo demonstração da tecnologia ocorreu em 1986, sendo previsto que a aeronave de guerra entraria em serviço em 1996, mas o avião foi lançado apenas em 2001 e não encontra compradores – poucos foram vendidos no exterior e os compradores decidiram por outros caças quando aumentaram a capacidade de suas forças.

O teto prático do Rafale é mais baixo do que os caças chineses J-16s e mesmo no empuxo do motor, os J-16s e os caças russos Sukhoi Su-35s são muito superiores aos aviões de combate franceses.

Em 2011, o Ministro da Defesa da França à época, Gerard Longuet, chegou a afirmar que a fabricante de aviões Dassault interromperia a produção do jato se continuasse incapaz de vender as aeronaves no exterior. O único cliente dos caças da empresa francesa era a própria força aérea da França.

“Eles estavam fabricando apenas onze aviões por ano. Como nenhuma negociação foi fechada, o governo francês teve de colocar 700 milhões de euros para manter a linha por mais este ano”, afirmou fonte ouvida pela Veja em 2011.

O caça Rafale foi alvo de polêmica no Brasil no passado. O modelo era o preferido pelo então Presidente Luiz Inácio Lula da Silva em negociação para reequipar a Força Aérea Brasileira (FAB). Na ocasião, Lula ignorou relatório do Comando da Aeronáutica, que avaliou o caça Gripen NG, da empresa sueca Saab, como o melhor para a renovação da frota, além de mais barato. Nas negociações com a equipe da Presidente Dilma Rousseff, os caças franceses ficaram para trás.

Atualização 13/09

O navio turco Oruc Reis, que estava realizando aquisição de dados sísmicos na área disputada do Mediterrâneo, voltou às águas perto do sul da Turquia, ação que a Grécia reconheceu como positiva para aliviar as tensões entre os dois países.

"O retorno de Oruc Reis é um primeiro passo positivo, espero que haja continuidade. Queremos conversar com a Turquia, mas em um clima sem provocações", disse o Primeiro-Ministro Kyriakos Mitsotakis neste domingo (13).

Contudo, o Ministro da Defesa turco, Hulusi Akar, disse que o navio de pesquisas havia retornado como parte de sua programação e insistiu que não significava que Ancara estava "desistindo de nossos direitos lá".

A marinha da Turquia tinha emitido um comunicado no início do mês informando que o navio continuaria as operações na área até 12 de setembro.

Navio turco de pesquisa sísmica Oruc Reis. Foto: © Ministério da Energia da Turquia
Navio turco de pesquisa sísmica Oruc Reis. Foto: © Ministério da Energia da Turquia

Ancara enfrenta possíveis sanções da União Europeia (UE), que apóia os estados-membros Grécia e Chipre, em relação à disputa. Mas muitos países, incluindo a Alemanha, querem neutralizar o impasse por meio do diálogo.

No sábado, o Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, pediu uma solução diplomática para a disputa entre a Grécia e a Turquia, dizendo que as tensões militares contínuas entre os dois aliados da OTAN só servem aos inimigos da aliança.

"O aumento das tensões militares não ajuda ninguém, exceto os adversários que gostariam de ver divisão na unidade transatlântica", disse Pompeo, após conversas em Nicósia com o presidente cipriota Nicos Anastasiades.

A Turquia e a Grécia discordam veementemente sobre as reivindicações sobrepostas de recursos de hidrocarbonetos na região com base em visões conflitantes sobre a extensão de suas plataformas continentais.

A disputa Ancara-Atenas aumentou quando a Turquia despachou o navio de pesquisas Oruc Reis acompanhado por navios da marinha turca ao largo da ilha grega de Kastellorizo.

A Turquia rejeita as críticas da UE e diz que o bloco deve permanecer imparcial na disputa, argumentando que as águas onde a perfuração exploratória de gás natural estava sendo conduzida fazem parte da plataforma continental turca.

No início de agosto, Grécia e Egito assinaram um acordo para estabelecer uma zona econômica exclusiva (EEZ) na região. O Ministério das Relações Exteriores turco disse que o acordo Grécia-Egito é “nulo e sem valor”. © The Economist
No início de agosto, Grécia e Egito assinaram um acordo para estabelecer uma zona econômica exclusiva (EEZ) na região. O Ministério das Relações Exteriores turco disse que o acordo Grécia-Egito é “nulo e sem valor”. © The Economist

Não existe acordo entre a Grécia e a Turquia que delimite as suas plataformas continentais, e a Turquia contesta quaisquer reivindicações do Chipre, com o qual não tem relações diplomáticas.

A disputa sobre as reservas potenciais de petróleo e gás desencadeou movimentação militar no leste do Mediterrâneo, com a Turquia e a Grécia despachando navios de guerra para a área e conduzindo exercícios militares.

Mitsotakis, em um discurso em Thessaloniki no sábado, disse que a Grécia irá adquirir 18 aviões de guerra Rafale, quatro fragatas e quatro helicópteros, ao mesmo tempo que recrutará 15.000 novos soldados e injetará recursos na indústria nacional de armas e na defesa contra ataques cibernéticos. Novas armas antitanque, torpedos e mísseis também serão adquiridos, acrescentou.

Acredita-se que Mitsotakis tenha elaborado o programa após conversas com o presidente francês Emmanuel Macron durante a cúpula de líderes do sul da Europa na Córsega nesta semana. A França apoiou fortemente a Grécia em seu crescente confronto com a Turquia.

“Emmanuel Macron é um verdadeiro amigo da Grécia e um fervoroso defensor dos valores europeus e do direito internacional”, disse Mitsotakis em agosto, após telefonema para o presidente francês. Macron enviou caças e a fragata Lafayette para a região como parte dos planos para aumentar a presença militar francesa.

No mês passado, os militares franceses realizaram manobras navais com as forças gregas ao largo da ilha de Creta, no sul, disseram fontes da defesa grega à agência de notícias Reuters, como a primeira manifestação de apoio de Macron.

O líder francês pediu sanções da UE contra a Turquia pelo que ele descreveu como “violações” da soberania grega e cipriota sobre suas águas territoriais.

* Com informações do South China Morning Post, DefesaTV, Al Jazeera, Reuters, Defesa Aérea & Naval, The Economist, Veja

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