Os ensaios clínicos de fase III da vacina candidata da AstraZeneca/Oxford foram suspensos globalmente na terça-feira (8), mas já no sábado (12) foi anunciado que os testes seriam retomados no Brasil, África do Sul e Reino Unido – no dia 16, a Forbes publicou que até aquela data apenas Brasil e Reino Unido tinham autorizado a continuidade dos testes, enquanto a Reuters informou que a situação dos ensaios na África do Sul e na Índia permanecia desconhecida.

A Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), que conduz os ensaios da vacina experimental da AstraZeneca em São Paulo, comentou a interrupção.

“É esperado que alguns participantes não passem bem e todos os casos têm de ser cuidadosamente analisados para garantir uma avaliação cuidadosa da segurança”, afirmou a Unifesp.

Segundo o New York Times, foi o segundo caso de mielite transversa, uma síndrome inflamatória grave e rara que tende a envolver a coluna vertebral difusamente em um ou mais níveis, afetando todas as funções da medula, diagnosticado em voluntário que recebeu a vacina da AstraZeneca no Reino Unido.

O mecanismo da mielite transversa em geral é desconhecido, mas alguns casos ocorrem após infecção viral ou vacinação, sugerindo uma reação autoimune.

De acordo com apuração do Russian Today, canal de notícias ligado ao governo russo, documentos internos da empresa revelaram, e uma fonte confirmou, que ambos voluntários, duas mulheres, sofriam do mesmo distúrbio neurológico grave.

Ontem, sábado (19), a AstraZeneca publicou detalhes dos ensaios, depois de enfrentar críticas sobre a falta de transparência em torno dos testes.

A primeira participante adoeceu após receber uma dose da vacina experimental em julho. A voluntária foi posteriormente diagnosticada com mielite transversa.

A porta-voz da empresa farmacêutica disse à imprensa que a voluntária tinha esclerose múltipla não diagnosticada e os ensaios clínicos foram retomados.

A segunda receptora da vacina sofreu complicações após a 2ª dose em setembro.

A AstraZeneca não confirmou o diagnóstico, mas uma fonte assegurou ao New York Times que também era mielite transversa.

Em 6 de setembro, os testes da droga foram interrompidos novamente, mas foram retomados na Grã-Bretanha e no Brasil menos de uma semana depois.

Segundo o Russian Today, a AstraZeneca disse em documentos internos que os dois casos da doença eram "improváveis de estar associados à vacina, ou não havia evidências suficientes para afirmar com certeza se as doenças eram ou não relacionadas à vacina”.

Neste domingo (20), a publicação russa afirmou que "os EUA ainda não deram luz verde para a continuação do teste".

Atualização

A matéria AstraZeneca, Under Fire for Vaccine Safety, Releases Trial Blueprints, publicada pelo New York Times, afirma que cientistas dentro e fora do governo estão preocupados que os reguladores possam autorizar uma vacina não comprovada ou insegura.

Os especialistas estão particularmente preocupados com os testes da vacina da AstraZeneca, que começaram em abril.

"Os estudos foram retomados na Grã-Bretanha, Brasil, Índia e África do Sul, mas ainda estão suspensos nos EUA", informa o jornal americano. "Cerca de 18.000 pessoas em todo o mundo receberam a vacina da AstraZeneca até agora".

"A mielite transversa às vezes pode ser o primeiro sinal de esclerose múltipla, que envolve sintomas mais complexos. Mas a mielite também pode ocorrer depois que o corpo encontra um agente infeccioso como um vírus", destaca o Times.

A AstraZeneca afirmou não ter confirmado o diagnóstico no segundo caso.

Uma pessoa familiarizada com a situação que falou com o The Times sob a condição de anonimato disse que a doença da segunda participante foi identificada como mielite transversa.

O Dr. Paul Offit, professor da Universidade da Pensilvânia e membro do comitê consultivo de vacinas do FDA, disse que não está claro como a empresa –  ou o governo do Reino Unido –  determinou que o segundo caso não estava relacionado à vacina.

Ele e outros especialistas observaram que a mielite transversa é rara, diagnosticada em apenas um em cada 236.000 americanos por ano. O teste na Grã-Bretanha envolveu apenas cerca de 8.000 voluntários, disse um porta-voz dos pesquisadores de Oxford no mês passado.

"A sindrome é rara, mas séria, e os especialistas dizem que encontrar pelo menos um caso entre milhares de participantes do ensaio pode ser uma bandeira vermelha. Múltiplos casos confirmados, eles disseram, podem ser suficientes para interromper totalmente a oferta de vacina da AstraZeneca", escreve o NYT.

“Se houver dois casos, então isso começa a parecer um padrão perigoso”, disse Mark Slifka, especialista em vacinas da Oregon Health and Science University. “Se um terceiro caso de doença neurológica surgir no grupo da vacina, então esta vacina pode estar descartada”.

Um documento datado de 11 de setembro sobre o ensaio da AstraZeneca na Grã-Bretanha agrupou os casos das duas voluntárias, afirmando que as doenças eram "improváveis de estarem associadas à vacina ou não havia evidências suficientes para afirmar com certeza se as doenças estavam ou não relacionadas à vacina”. No dia seguinte, a AstraZeneca anunciou que havia retomado os ensaios na Grã-Bretanha.

O FDA até agora não permitiu que a AstraZeneca reinicie os testes nos Estados Unidos, reportou o New York Times.

O Dr. Mark Goldberger, especialista em doenças infecciosas da Global Antibiotic Research and Development Partnership e ex-funcionário do FDA, disse que considerou o rápido reinício dos testes no exterior "um pouco perturbador", especialmente devido à falta de detalhes sobre os sintomas dos pacientes e a ambiguidade em torno de sua conexão com a vacina. “Talvez seja o melhor que eles possam fazer – pode não ser possível ter mais certeza neste momento”, disse. “É um ponto de interrogação sobre o que está acontecendo”.

"A empresa não informou imediatamente ao público sobre os problemas neurológicos de nenhum dos participantes. Nem alertou prontamente o FDA que estava novamente interrompendo seus testes depois que o segundo voluntário do Reino Unido desenvolveu doença e um conselho de segurança independente pediu uma suspensão temporária, de acordo com várias pessoas familiarizadas com a situação. O CEO da empresa contou aos investidores sobre os problemas, mas não os discutiu publicamente até que a informação vazou e foi relatada pelo STAT", destaca o NYT.

“A comunicação em torno disso tem sido horrível e inaceitável”, disse o Dr. Peter Jay Hotez, virologista do Baylor College of Medicine em Houston. “Não é assim que o povo americano deveria ouvir sobre isso”.

O Dr. Hotez também criticou declarações obtusas divulgadas por funcionários do governo, incluindo reguladores do Reino Unido, que ele disse não fornecer uma justificativa para a retomada dos ensaios.

"Eficácia"

O plano de ensaio da AstraZeneca, conhecido como protocolo, afirma que seu objetivo é uma vacina com 50 por cento de eficácia – o limite inferior que a Food and Drug Administration estabeleceu em sua orientação para vacinas contra o coronavírus SARS-CoV-2.

Na sexta-feira (4), a porta-voz da Organização Mundial de Saúde (OMS), Margaret Harris, disse  que nenhuma das candidatas a vacina que estão na fase III demonstrou, até agora, sinal claro de eficácia em um nível mínimo de 50%.

A OMS recomenda que as vacinas bem-sucedidas apresentem uma redução de risco estimada de pelo menos metade, com precisão suficiente para concluir que a verdadeira eficácia da vacina é superior a 30%.

Exemplificando, para determinar com confiança estatística se uma vacina atingiu a meta, deve haver no máximo 150 casos de pessoas que ficaram doentes entre 200 voluntários que foram vacinados (100) ou receberam injeções de placebo (100).

O plano da AstraZeneca prevê que um conselho de segurança fará uma análise inicial depois de apenas 75 casos. Se a vacina for 50 por cento eficaz nesse ponto, pode ser possível para a empresa interromper o ensaio mais cedo e solicitar autorização para liberar a vacina para uso de emergência.

O Dr. Eric Topol, um especialista em ensaios clínicos da Scripps Research em San Diego, explica que o problema de examinar dados intermediários, após um número relativamente pequeno de casos, é que isso aumenta as chances de encontrar uma aparência de segurança e eficácia que pode não se sustentar.

Parar os ensaios mais cedo também reduz a identificação de efeitos colaterais, que podem ser significativos uma vez que a vacina seja administrada a milhões de pessoas.

O Dr. Topol disse que o plano da AstraZeneca, assim como os da Moderna e Pfizer, tem uma característica problemática: todos contam casos relativamente leves de Covid-19 ao medir a eficácia, o que pode dificultar os esforços para determinar se a vacina previne doenças moderadas ou graves.

Esses planos geralmente não são compartilhados com o público “devido à importância de manter a confidencialidade e a integridade dos ensaios”, disse Michele Meixell, porta-voz da AstraZeneca, em um comunicado.

"As vacinas contra o coronavírus em desenvolvimento não funcionam da maneira que as pessoas pensam sobre as vacinas: elas não protegem você de ficar doente", alerta o Dr. William A. Haseltine, ex-professor da Escola de Medicina de Harvard e conhecido por seu trabalho inovador em HIV/AIDS e no genoma humano.

Segundo a Sociedade Brasileira de Imunologia, para que seu uso seja justificado, o grau de proteção alcançado por uma vacina deveria ser de pelo menos 60-70% em um ano.

"Uma vacina com eficácia de menos de 70%, pode minimizar as formas graves da doença, mas provavelmente não impactará na transmissão do vírus", pondera a sociedade científica em Nota Técnica, ressaltando que é um equívoco avaliar vacinas com base em respostas iniciais de ensaios clínicos.

"É sabido que devido a sua atividade adjuvante, uma vacina funciona como imunoestimulante e pode, nos meses iniciais, proteger indivíduos por mecanismos não relacionados com a imunidade específica mediada pelos anticorpos e linfócitos T. Além disto, existe a janela imunológica. Normalmente a resposta imune demora entre 30-60 dias para se consolidar, em especial, se uma segunda dose for necessária. Portanto, acreditamos que 12 meses seria um tempo mínimo aceitável para avaliar uma vacina contra Covid-19", diz a Nota.

* Com informações do Russian Today, The New York Times, Forbes, Reuters, Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI)

Veja também: