As autoridades estaduais da Renânia do Norte-Vestefália realizaram seu primeiro "Dia de Proteção contra Desastres" no sábado (2), com instrutores na cidade de Bonn ensinando aos cidadãos como sobreviver "no caso de uma longa falta de energia". No evento, foi lançado o sugestivo livro "Cozinhando sem eletricidade".

O Gabinete de Proteção Civil divulgou na sexta-feira (1) uma campanha publicitária com foco em todos os aspectos da preparação para crises, e em breve lançará uma estratégia direcionada que aborda "estocagem, condições climáticas extremas, falta de energia e bagagem de emergência".

Em um dos anúncios, a agência federal indica aos alemães o que está por vir, mostrando uma senhora idosa vestindo várias camadas de roupas, aquecendo seu apartamento com velas acesas e fechando as janelas com material reflexivo.

A Alemanha depende fortemente do gás natural para aquecimento e energia. Os estoques foram esgotados após um inverno e primavera excepcionalmente frios e um maior uso de ar-condicionado durante um verão quente.

Embora a ideia do sexto país mais desenvolvido do mundo ser incapaz de gerar energia para seu uso possa parecer ridícula, o problema é de toda a Europa.

Globalmente, os mercados de gás estão com baixos estoques, levando os preços a patamares recordes. Fornecedores menores de energia já estão falindo, as distâncias de entrega estão aumentando.

A questão da crise energética atual é como todos os aspectos de um fornecimento seguro e acessível de energia podem ser implementados com certificados de emissão caros e metas parcialmente irrealistas para a indústria?

Como resultado da baixa velocidade do vento, as usinas movidas a carvão estão entrando novamente em ação, inclusive na Alemanha, para garantir a geração de eletricidade. As emissões de CO2 estão aumentando drasticamente, especialmente na Alemanha, como nos primeiros anos após a transição energética de 2011.

O custo dos "créditos de carbono" da União Europeia (UE) é repassado aos consumidores, com o resultado final sendo um aumento nos custos de energia para os alemães comuns, que já pagam o preço mais alto por quilowatt-hora do mundo.

Os preços da energia estão mais uma vez fornecendo o ímpeto inflacionário decisivo. Na Alemanha, a inflação subiu acima de 4% em setembro.

O plano da União Europeia para 2030 prevê que 32% de toda a energia seja gerada a partir de fontes renováveis. Embora a Alemanha já exceda a meta com 44%, o governo planeja eliminar a energia nuclear em 2022 e o carvão em 2038.

Combinados, a energia nuclear e o carvão respondem por 39% da eletricidade gerada na Alemanha. A desativação dessas duas fontes provavelmente resultará em preços ainda mais altos nos próximos anos, a menos que o país possa expandir seu setor de energias renováveis e contar com o vento para alimentá-lo.

A expansão urgente da rede elétrica, por outro lado, ainda não ocorreu.

De acordo com cálculos atuais, a rede elétrica alemã terá que ser expandida em 25% e totalmente renovada. Os anúncios datam da primavera de 2011, quando a Chanceler Angela Merkel surpreendentemente anunciou o fim da energia nuclear.

Em 2013, o Ministro do Meio Ambiente, Peter Altmaier, disse que a "revolução verde" custaria até um trilhão de euros. O plano incluía a construção das chamadas "rodovias da eletricidade", passando de norte a sul pela Alemanha. Poucas coisas aconteceram nos anos que se seguiram.

Crise energética

O que era debatido exclusivamente entre especialistas há apenas dez meses está agora nas manchetes em todo o mundo: o aumento do preço da energia.

Seja o mercado de petróleo, onde o preço despencava abaixo de zero na primavera europeia de 2020 e agora está voltando para US$ 100 por barril; ou contas de eletricidade, que estão causando um aumento adicional de até 40% para muitas famílias na UE; ou mesmo a preocupação com o baixo nível de armazenamento de gás natural antes do inverno: todos estão falando sobre os altos preços da energia e seus possíveis impactos, desde o fechamento de empresas até a agitação social.

A transição de uma era fortemente baseada em fósseis para uma era de uma nova matriz energética gira em torno de emissões e descarbonização total. Em nome do ativismo pela mudança climática, aspectos que deveriam fazer parte de uma agenda energética equilibrada foram colocados à margem, ignorando fundamentos da economia de mercado – oferta e demanda determinam o preço.

"Não podemos nos reduzir à importante questão das mudanças climáticas e tornar todos os outros aspectos do meio ambiente, bem como a economia e a vida cotidiana, absolutamente subordinados a ela", ponderou a Dra. Karin Kneissl, ex-Ministra das Relações Exteriores da Áustria, em artigo no RT.

Um fator importante para a atual situação do mercado, além da recuperação da economia, ou seja, a demanda, é a oferta restrita. E isso tem a ver com a falta de desenvolvimento de novos campos de petróleo e gás.

No setor, tem-se falado em “subinvestimento” nos últimos sete anos. Diante da enorme pressão de políticos, legisladores e até mesmo do judiciário para sair de todos os investimentos em combustíveis fósseis.

Acrescente-se a crescente competição entre os clientes, onde os consumidores asiáticos pagam preços mais altos do que os europeus.

A liquefação transformou o gás natural em um produto comercializado globalmente, o que dá aos fabricantes uma escolha de clientes. O GNL vindo da América do Norte para importadores europeus para criar uma alternativa ao gás russo está diminuindo; a indústria de fraturamento hidráulico nos Estados Unidos foi abalada pela falência e pela reviravolta do governo Biden, encerrando os investimentos em combustíveis fósseis e apostando tudo nas energias renováveis.

"A mudança climática deve ser parte de uma política energética responsável, mas não pode ofuscar todas as outras áreas, resultando em redes sobrecarregadas, subinvestimento em energia de combustível fóssil e, no final, causando interrupção no fornecimento de energia", escreveu Kneissl.

Atualização 06/10/2021

O aumento dos preços de combustíveis na Europa, que atingiu outro recorde histórico nesta quarta-feira (6), gerou críticas ao carro-chefe da UE, Green Deal, um pacote de políticas destinadas a tornar o continente neutro para o clima até 2050. Os críticos da política dizem que ela pressionará aumento dos custos de energia para os cidadãos à medida que os combustíveis fósseis são eliminados.

Pelo menos três líderes usaram uma reunião de membros da UE na Eslovênia para instar a comissão a encontrar medidas para mitigar o impacto do aumento dos preços e evitar uma repetição, disseram autoridades envolvidas nas negociações ao Financial Times (FT), acrescentando que o número de estados membros inquietos estava crescendo.

França, Espanha, República Tcheca, Grécia e Romênia pediram políticas para coordenar as respostas nacionais e “reagir imediatamente a aumentos dramáticos de preços”. Outros países, incluindo a Alemanha e outros Estados do norte, alertaram contra a pressa em mudanças no mercado de energia da UE.

Falando a repórteres nesta quarta-feira, o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, atribuiu parte da culpa pelo aumento dos preços da energia à proposta da UE de aumentar o custo de seu esquema de comércio de emissões, chamando-o de "tributação indireta" dos cidadãos.

Estimativas da UE sugerem que cerca 15% do atual aumento no preço da eletricidade pode ser atribuído ao mercado de carbono do bloco, onde os geradores de energia compram créditos para cobrir a emissão de CO2.

O preço recorde dos créditos de carbono gerou € 11 bilhões em receitas adicionais para os governos nos primeiros nove meses deste ano, em comparação com 2020.

A presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, disse nesta quarta-feira que, embora o aumento do preço do gás fosse "um problema sério", era mais uma prova do apoio da UE às energias renováveis.

Em artigo a ser publicado para a Global Warming Policy Foundation, o professor Jun Arima, da Universidade de Tóquio, adverte que "o mundo dividido e ressentido que está sendo criado por políticas de soma zero permitirá à China aumentar ainda mais sua presença econômica global e influência, enquanto o mundo desenvolvido e democrático se torna economicamente, politicamente e militarmente mais fraco".

A expansão da queima de carvão na China já produz mais de 1.000 gigawatts (GW) de energia e outros 105 GW estão em desenvolvimento – toda a capacidade de geração de eletricidade da Grã-Bretanha é de 75 GW.

A China agora queima metade do carvão do mundo.

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