Musk, o maior acionista da Twitter (9,1%), receberá quase US$ 4 bilhões por suas 73,115,038 ações. A compra desses papéis, concluída em 14 de março, custou ao bilionário alegados US$ 2,9 bilhões.

O acordo de Elon Musk para fechar o capital da Twitter triplicará a alavancagem da empresa e a sobrecarregará com quase 1 bilhão dólares anuais em juros sobre os mais de US$ 25 bilhões emprestados ​​para financiar a aquisição.

O Twitter gerou US$ 632 milhões em lucro operacional em 2021, com cerca de US$ 5 bilhões em receita, de acordo com o relatório anual da empresa. A publicidade contribui com cerca de 90% do faturamento.

A empresa não teve lucro em 2021, reportando US$ 221 milhões em perdas, principalmente ligadas à liquidação de um processo de acionistas.

Musk sugeriu que o Twitter deveria contar menos com anunciantes. Adicionar dívida significativa aos livros do Twitter poderá dificultar mudanças do modelo de negócios atual, já que Musk precisará contar com fluxos de caixa existentes de anunciantes para cobrir os pagamentos de juros, disse Colin Sebastian, analista sênior de pesquisa do banco de investimento Robert W. Baird & Co.

Analistas estimam que a carga de juros do Twitter aumentará para US$ 845 milhões anualmente, de US$ 51 milhões em 2021. Isso é mais da metade dos ganhos anuais ajustados da empresa de US$ 1,4 bilhão em 2021, e a nova dívida aumentará a alavancagem para quase nove vezes seus ganhos anuais ajustados, acima das atuais três vezes e meia.

“O acordo foi estruturado para ter o máximo de alavancagem possível”, disse Steven Hunter, CEO da 9fin, ao Wall Street Journal (WSJ).

Todo o financiamento planejado da dívida para comprar o Twitter é uma dívida de taxa flutuante, o que significa que, à medida que as taxas de juros de referência aumentam, as despesas com juros do Twitter também aumentarão.

Para financiar sua oferta de US$ 44 bilhões, Musk garantiu US$ 13 bilhões em empréstimos de bancos de investimento, incluindo Morgan Stanley, Bank of America, Barclays e MUFG Bank, e um empréstimo de margem de US$ 12,5 bilhões garantido por ações de Musk na Tesla.

Segundo a proposta de aquisição submetida à SEC, Elon Musk apontou um financiamento total de aproximadamente US$ 46,5 bilhões:

  • US$ 13 bilhões com taxas variáveis, com amplos spreads sobre a variação da taxa de juros
    (a) a senior secured term loan facility in an aggregate principal amount of $6.5 billion,
    (b) a senior secured revolving facility in an aggregate committed amount of $500 million,
    (c) a senior secured bridge loan facility in an aggregate principal amount of up to $3 billion and
    (d) a senior unsecured bridge loan facility in an aggregate principal amount of up to $3 billion ((a) – (d) collectively, the “Debt Facilities”);
  • US$ 12,5 bilhões em margin loans atrelados a um spread de 300 pontos-base acima do SOFR (taxa de juros interbancária americana, espécie de CDI)
  • US$ 21 bilhões em equity financing

Esperava-se que o private equity participasse do negócio. Musk na semana passada estava em negociações com Thoma Bravo sobre a adesão a uma oferta, informou o New York Post. A Apollo Global Management (APO) também havia discutido o financiamento de uma possível oferta de aquisição para o Twitter, informou a Barron's. As firmas não estão listadas no anúncio do acordo.

Junk

Atualmente, o Twitter tem cerca de US$ 6 bilhões em dívidas, principalmente na forma de títulos conversíveis com juros baixos e dívidas sem garantia.

Se os acionistas concordarem em tornar o Twitter privado, a empresa precisará pagar todas as suas dívidas existentes antes que novas dívidas sejam adicionadas aos seus livros.

Há uma chance de que o Twitter opte por substituir o pacote total da dívida por títulos garantidos e sem garantia que levariam uma taxa fixa de juros.

Ainda assim, espera-se que toda a dívida adicional afunde o Twitter mais profundamente na classificação de investimento junk. A S&P Global Ratings, que atualmente classifica o Twitter como BB+ (abaixo do grau de investimento) disse que espera que o aumento substancial da alavancagem do Twitter leve a um potencial rebaixamento de vários níveis do rating de crédito da empresa. A S&P colocou a empresa em credit watch negative e planeja investigar com profundidade os detalhes do empréstimo de margem de US$ 12,5 bilhões.

O Moody's Investors Service também colocou o rating de crédito da empresa em revisão para downgrade devido ao aumento planejado na alavancagem.

A Fitch Ratings disse que não avalia a empresa Twitter.

A oferta de Musk representa um prêmio para o valor da Twitter hoje, mas é muito abaixo do máximo de 52 semanas da empresa no mercado, de US$ 73,34 por ação.

O conselho da Twitter procurou em todo o mundo por um segundo licitante, mas não conseguiu descobrir um, disse Dan Ives, analista sênior de pesquisa de ações da Wedbush Securities. "Acreditamos que se um segundo licitante, cavaleiro branco, fosse entrar, o conselho o teria encontrado. Eles vieram de mãos vazias e é por isso que tiveram que assinar com Musk", disse Ives à Barron's.

Na opinião do analista, Musk está pagando um bom preço pelo Twitter, embora alguns acionistas tenham dito que estão esperando US$ 60 por ação.

"Os acionistas do Twitter estão estourando Champanhe, ou bebendo uísque, porque estão felizes por terem esse preço. Há uma chance maior de eu jogar nos playoffs da NBA do que eles receberem US$ 60 por ação", brincou Ives.

Twitter mente novamente sobre audiência

O Twitter admitiu ter exagerado seus números de audiência de usuários por três anos, ao reportar seu primeiro resultado trimestral de 2022, dias após aceitar a proposta de Musk.

Os usuários ativos diários monetizáveis do Twitter (mDAU), sua própria métrica de audiência, apontou 1,9 milhão a mais que o real no quarto semestre de 2021.

O "erro" na medição vinha ocorrendo desde janeiro de 2019.

Os anunciantes confiam em estimativas precisas do tamanho do público ao planejar suas campanhas.

"Em março de 2019, lançamos um recurso que permitia que as pessoas vinculem várias contas separadas para alternar convenientemente entre contas", explicou a empresa. "Um erro foi cometido na época, de tal forma que as ações tomadas através da conta primária resultaram em todas as contas vinculadas sendo contadas como mDAU".

As contas falsas ou de spam representaram "menos de 5%" de seu mDAU durante o trimestre, disse o Twitter, após uma revisão interna.

É a segunda vez que o Twitter descobre um erro inflando a sua audiência.

Em 2017, o Twitter teve que reduzir seus números de usuários relatados desde 2014, em até 2 milhões por trimestre, depois que descobriu que estava contando a atividade de aplicativos de terceiros como usuários únicos.

Atualização 04/05/2022

De acordo com relato publicado nesta quarta-feira (4) pelo New York Post, Musk está supostamente se aproximando de garantir US$ 10 bilhões de um grupo de empresas de capital de risco e de administração de fortunas familiares. A matéria do Post não citou o nome dos envolvidos, mas afirmou que as empresas apoiaram outros empreendimentos de Musk,  incluindo a SpaceX.

Musk disse que está tentando limitar sua própria exposição ao Twitter a apenas US$ 15 bilhões. Ele também disse que espera levar a empresa novamente à público dentro de três anos.

Além de alinhar o financiamento de ações de outros apoiadores, Musk também está supostamente trabalhando na garantia de mais de US$ 5 bilhões em ações existentes de acionistas anteriores do Twitter (incluindo Jack Dorsey e Fidelity), que – de acordo com o plano de Musk – seriam autorizados a rolar suas ações para o novo empreendimento privado.

Vários bancos já disseram que preferem não ficar diretamente expostos ao Twitter.

Citigroup, Credit Suisse e RBC sinalizaram que estão abertos a fornecer empréstimos contra as ações da Tesla de Musk, mas eles se recusaram a fornecer empréstimos contra o patrimônio líquido do Twitter devido ao fato de que esse ônus da dívida consumiria muito do fluxo de caixa do Twitter. Uma das fontes do Post disse que a quantidade de financiamento alavancado no acordo do Twitter é "insana".

* Com informações do Wall Street Journal (WSJ), Barron's, Financial Times (FT)

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