As imagens comerciais de satélite mostram os danos causados pelos mísseis iranianos na base aérea iraquiana de Al Asad –  destroços carbonizados onde ficavam hangares temporários ou outras instalações e uma cratera aberta ao longo de uma pista de aviação, enquanto os prédios próximos permaneceram incólumes.

A base agrega forças do Iraque e de países membros da coalizão que combate o Estado Islâmico. O efetivo americano estacionado na base seria de 1.500 pessoas.

Segundo a Air Force Magazine, as forças armadas teriam sido avisadas dos ataques pelo governo do Iraque. A CNN reportou que pessoas que estavam na base foram encaminhadas para abrigos fortificados (bunkers).

Cerca de 70 soldados noruegueses também estavam na base aérea, mas não foram registrados feridos, disse Brynjar Stordal, porta-voz das Forças Armadas da Noruega à Associated Press.

Nenhuma força dos EUA, da coalizão ou do Iraque foi ferida no ataque, afirmou o Presidente Donald Trump.

Embora o número exato de mísseis lançados ainda não seja conhecido, hoje variando de 11 a 30, existe consenso que o Irã possui armamento que poderia ter causado grande destruição, se fosse esse o objetivo do governo iraniano.

O Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Mark Esper, disse que os danos na base de Al Asad não foram "nada que eu descreveria como importante".

O Presidente Trump disse que houve "dano mínimo".

Imagens de satélite registradas pela Planet Labs e analisadas pelo Instituto Middlebury de Estudos Internacionais, mostram que o impacto dos mísseis na ampla base de Al Asad atingiu apenas hangares temporários e dois prédios.

O governo dos EUA disse que não abateu nenhum míssil porque não possuía defesa de mísseis balísticos no Iraque. As forças estavam posicionadas para combater o Estado Islâmico, que não possui essas armas.

Andar de cima

O Líder Supremo do Irã, Aiatolá Ali Khamenei, disse nesta quarta-feira (8) que os Estados Unidos deveriam se retirar da região e que os ataques com mísseis de Teerã contra alvos americanos no Iraque foram "um tapa na cara" para os EUA.

“Ações militares como essa não são suficientes. O importante é acabar com a presença corrupta dos EUA na região ”, disse Khamenei em um discurso televisionado, descartando qualquer retomada das negociações com Washington sobre um acordo nuclear de 2015.

O Primeiro-Ministro iraquiano Adil Abdul al-Mahdi disse que seu governo havia sido avisado de um ataque iminente pouco antes do lançamento dos mísseis, e que os ataques seriam limitados "ao paradeiro das forças armadas dos EUA no Iraque". Ele confirmou que nenhum iraquiano foi ferido e disse que o Iraque "rejeita a violação de soberania e agressão" pelo Irã.

"Pouco depois da meia-noite de quarta-feira, recebemos uma mensagem verbal da República Islâmica do Irã de que a resposta iraniana ao assassinato do mártir Qassem Soleimani havia começado ou estava prestes a começar", disse o porta-voz de Abdul Mahdi em comunicado.

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Javad Zarif, disse que o ataque às bases aéreas no Iraque "concluiu medidas proporcionais em legítima defesa". Ele acrescentou que "não buscamos escalada ou guerra, mas nos defenderemos de qualquer agressão".

Zarif também confirmou que o Irã informou o governo iraquiano de seu ataque de retaliação à base dos EUA, reafirmando o respeito de Teerã pela soberania e integridade territorial do país.

"Damos grande importância à integridade e soberania territorial do Iraque e acreditamos que a segurança deve ser [fornecida] com base no respeito mútuo e [salvaguardando] a integridade territorial de todos os países da região", acrescentou.

Ataques a Haifa, em Israel, e Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, seriam  os próximos alvos se os Estados Unidos retaliarem, avisaram as autoridades do Irã.

O Ministério das Relações Exteriores do Iraque convocou o embaixador do Irã para discutir a relação.

Muqtada al Sadr, um importante clérigo xiita no Iraque, disse em comunicado que a crise acabou e pediu às milícias pró-iranianas que se abstenham de realizar mais ataques, segundo o The Washington Post.

Horas depois, "forças do eixo da resistência" lançaram mísseis Katyusha, associados às milícias xiitas, nas proximidades da Embaixada dos EUA em Bagdad, sem vítimas. O ataque evitou deliberadamente casualidades, asseguraram fontes ouvidas pelo jornal israelita Haaretz.

Ladeado por oficiais militares de alta patente, Esper, Milley, e membros do Estado-Maior, incluindo o chefe do Estado-Maior da Força Aérea David Goldfein, Trump disse que os Estados Unidos querem o bem do povo iraniano, com uma certa ironia, e que há uma oportunidade para os EUA e o Irã se unirem no combate ao Estado Islâmico.

O discurso de Trump e comentários de autoridades iranianas sugerem que as tensões estão diminuindo.

O ataque aberto do Irã aos EUA, com lançamento de mísseis dentro do seu próprio território, jamais tinha ocorrido em 40 anos de hostilidades – as ações anteriores sempre foram atribuídas a milícias e outros grupos sem chancela oficial.

Andar de baixo

O entendimento de alguns observadores é que embora o ataque não tenha causado fatalidades e danos sérios, o governo iraniano mostrou ao povo que respondeu de forma contundente a um ataque americano, ocorrido dias antes.

Pentagon saying that Iran intentionally missed US troops at bases.

Holly Dagres (@hdagres) 8 de janeiro de 2020
"Um oficial do Pentágono me disse que muitos líderes militares dos EUA pensam que o Irã deliberadamente escolheu alvos que NÃO resultariam em perda de vidas, especialmente vidas americanas: Alvos deliberados, dano mínimo, efeito máximo".

Jake Tapper (@jaketapper) 8 de janeiro de 2020
The Iranians did *not* miss. These buildings were hit quite precisely.

Jeffrey Lewis (@ArmsControlWonk) 8 de janeiro de 2020
"Parece que o Irã usou o manual do presidente Trump na Síria: lançar mísseis e propositadamente errar seus alvos. O ataque seria um evento de relações públicas para seus cidadãos enquanto tenta amenizar a situação e evitar a guerra."

ZeroHedge

Para o ex-embaixador britânico Craig Murray, "os ataques com mísseis do Irã foram calibrados para satisfazer a honra e evitar danos que seriam acionados automaticamente na próxima rodada. Os mísseis parecem ter sido equipados com cargas de ogiva muito leves - seu objetivo seria parecer bem no escuro, subindo para o céu noturno. Há todos os motivos para acreditar que a falta de baixas nos EUA foi deliberada".

David Joseph Schmerler, pesquisador senior do Middlebury Institute of International Studies, de Monterey, California, disse à NPR que as imagens de satélite de alta resolução da base obtidas após o ataque mostraram que os iranianos podem ter selecionado alvos que minimizaram a perda de vidas humanas para evitar um ataque de retaliação pelos EUA.

"As estruturas que estamos avaliando agora parecem ser usadas para guardar aeronaves. Existem outras estruturas na base aérea que seriam exclusivamente para pessoas, então talvez eles decidiram atacar locais com equipamentos e sem pessoas", explicou Schmerler .

Por enquanto, parece que os mercados acreditam que o pior já passou.

"Visualmente, a situação foi bastante dramática, mas o importante é focar na dimensão de não haver casualidades e feridos", disse Salman Ahmed, estrategista-chefe de investimentos da Lombard Odier Investment Managers.

"O fator Trump é aleatório, mas o que é visível é que ninguém quer guerra e é nisso que os mercados estão se concentrando", destacou Ahmed.

Michael Every, do Rabobank, pensa que a ação ofensiva pode ter sido planejada para aplacar o ânimo exaltado das grandes multidões que estavam nas ruas do Irã. A alternativa seria que o governo iraniano decidiu aumentar a aposta para testar Trump.

Precisos e letais

Ainda não se sabe que tipos de mísseis o Irã empregou.

O uso de mísseis balísticos pelo Irã difere do ataque envolvendo drones e mísseis de cruzeiro (cruisers) que desativou temporariamente uma grande instalação de óleo e gás na Arábia Saudita. As autoridades americanas culparam o Irã, mas Teerã negou a responsabilidade.

A precisão das armas chamou a atenção dos comandos militares de vários países. Na época, uma  autoridade do Pentagono afirmou ao Washington Post que os iranianos  desenvolveram secretamente uma linha de mísseis com alcance de 500 km  com capacidade de atingir alvos com precisão de dezenas de metros, e que  podem ter a trajetória alterada após lançados.

Joseph Trevithick e Tyler Rogoway, em matéria do site The Drive, disseram que "o Irã escolher alvos com base na probabilidade de que os ataques causassem baixas mínimas ou que atinjam outros efeitos específicos indicaria que a Guarda Revolucionária Islâmica confia no desempenho e na precisão de seu extenso arsenal de mísseis. A julgar pelas imagens, eles têm boas razões para estar confiantes. Já sabíamos que os mais recentes sistemas de mísseis balísticos de curto alcance do Irã eram bastante precisos, mas o direcionamento preciso dos hangares é muito revelador"

Alguns analistas argumentaram que o Irã usou os ataques para mostrar capacidades de direcionamento significativamente melhoradas em seus mísseis como um aviso ao Ocidente de que poderia causar danos muito maiores se surgir um conflito mais sério.

O ataque mostra que o Irã trabalhou "extensivamente na orientação de precisão", disse Thomas Karako, especialista em mísseis do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

"Esses não são apenas Scuds burros que atingirão algo em um raio de 800 metros no máximo", referindo-se ao míssil balístico tático projetado pelos soviéticos exportado amplamente para o mundo durante a Guerra Fria.

O Irã "precisava ter confiança de que atingiria seus alvos pretendidos e não causaria baixas nos EUA", disse. "Eles queriam fazer o suficiente para lembrar aos EUA que eles tinham essa capacidade".

Michael Elleman, especialista em mísseis do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, pensa que os iranianos atingiram a base aérea de Al Asad com o Fateh 313, um míssil de combustível sólido com alcance de mais de 320 km.

O Irã apresentou o Fateh 313 em 2015, depois de equipá-lo com um sistema de orientação por satélite. Juntamente com as asas no corpo do foguete que se ajustam em voo, essa melhoria pode permitir que o míssil mude de rumo enquanto mergulha em direção ao seu alvo, aumentando sua precisão.

Mesmo assim, calcula Elleman, o Fateh 313 não teria precisão para atingir um edifício ou hangar específico.

"Os iranianos estão muito orgulhosos de poder atingir edifícios específicos", diz Fabian Hinz, especialista em arsenal iraniano, também no Instituto Middlebury.

"Eles teriam imagens de satélite, teriam informações dos alvos".

O Irã trabalha há décadas para desenvolver e construir mísseis balísticos de curto a médio alcance, utilizando ajuda da Coréia do Norte, Rússia e Ucrânia em vários momentos. Nos últimos anos, enfrentando duras sanções dos EUA e das Nações Unidas, Teerã confiou mais em suas próprias capacidades.

A imagem do Planet Labs, analisada pelo Instituto Middlebury de Estudos Internacionais, assinala os danos na base aérea de Al Asad, situada no Iraque, causados pelo impacto dos mísseis iranianos . Reprodução: Twitter/Jeffrey Lewis. Imagem original: Planet Labs via CC-by-SA 4.0
A imagem do Planet Labs, analisada pelo Instituto Middlebury de Estudos Internacionais, assinala 5 danos na base aérea de Al Asad, situada no Iraque, causados pelo impacto dos mísseis iranianos . Reprodução: Twitter/Jeffrey Lewis. Imagem original: Planet Labs via CC-by-SA 4.0

* Com informações e dados do Tribune News Service, David Schmerler, CNN, Michael Every, Rabobank, The Drive, ZeroHedge, Agência Tasnim, Planet Labs, Middlebury Institute of International Studies, Jeffrey Lewis, Air Force Magazine, Islamic Republic of Iran Broadcasting, NPR, South China Morning Post e Haaretz.

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