Na sexta-feira (13), David Uip tinha afirmado em entrevista coletiva que "nós só realizaremos exames nos pacientes que estão internados, nos indivíduos em clínica sentinela e em pesquisas. Isto é dar bom gasto ao dinheiro público”.

Na prática, no instante em que David Uip apresentou uma "gripezinha", correu para o hospital privado Sírio-Libanês e fez o teste do coronavírus.

"Estou muito bem. Sinto ainda um pouquinho de febre, de vez em quando tusso um pouquinho. Pode ser o coronavírus, ou qualquer outro", disse em vídeo antes do resultado do teste.

O Governador João Doria, sem gripezinha, também correu para fazer o teste.

"Há pouco me submeti ao teste e, assim que obtiver o resultado, divulgarei”, publicou o governador suspeito de contaminação.

No dia 27 de fevereiro, David Uip defendeu não fazer exames para diagnosticar covid-19 depois do Brasil confirmar a transmissão da doença entre brasileiros.

"Sou absolutamente contra que se continue fazendo exames para diagnóstico de uma doença que não tem tratamento específico", disse Uip. "Gestor público tem que ter a sabedoria de saber o que precisa investir e o que não precisa. Se você confirma que tem o vírus no Brasil e que há contaminação entre indivíduos que não viajaram, está bom, não precisa ficar testando. Aí você deixa o exame para casos mais graves. Como rotina, não tem o menor nexo". Mesmo se tratando de paciente privado não teria sentido fazer a testagem. "A testagem é importante em termos epidemiológicos, mas individual não. Não muda nada em termos de assistência a esse paciente".

Para Uip, a rede paulista de leitos hospitalares também é suficiente para atender a um eventual aumento de demanda causada pelo coronavírus, uma vez que eles serão destinados apenas aos casos graves.

"Se todo mundo que tossir e tiver febre procurar a rede pública, não tem sistema que aguenta. Nem no Brasil e nem no mundo".

Rebanho

Há duas escolas de enfrentamento da epidemia de coronavírus, a do confinamento, para evitar contágio, e a da imunidade de grupo, também chamada de "imunidade do rebanho", que é o oposto do confinamento.

Nesta abordagem, entre 60% e 80% da população contrai o vírus e apresenta distúrbios menores, o que desenvolveria uma certa imunidade coletiva, tornando os cidadãos mais resistentes ao vírus e reduzindo o número de infecções.

Estimativas sugerem que a imunidade de grupo contra o SARS-CoV-2 seria alcançada quando aproximadamente 60% da população for infectada pelo vírus.

O Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, disse neste domingo (22) não ter uma estimativa para a porcentagem da população brasileira que será infectada pelo coronavírus, mas assegurou que a taxa de transmissão tende a se reduzir quando metade da população está contaminada.

“O que a gente sabe é que quando passa de 50% da população infectada, o vírus já não consegue multiplicar mais na mesma velocidade. Se vai ser 50%, 60% ou 70% da população, isso é secundário", disse o Ministro, sem estimar o número de mortes.

Infelizmente, a imunidade de grupo colocada em prática tem se mostrado um desastre.

Na quarta-feira (18), após 5% (213) dos pacientes terem morrido, 10% (415) dos infectados estarem em estado gravissimo e apenas 2 terem se recuperado, o estrategista do governo holandês para a pandemia, Jaap Van Dissel, disse aos parlamentares que a "imunidade do rebanho" não era o foco das autoridades de saúde.

O governo britânico também sugeriu que o Reino Unido poderia adquirir uma imunidade coletiva a partir do contágio da população. A estratégia chocou a comunidade científica. De acordo com uma pesquisa do Imperial College de Londres, a resposta moderada adotada até então pelo governo britânico teria reduzido o número de vítimas fatais de 500.000 – na ausência total de medidas – para 260.000 no país.

Numa mudança de postura, o Primeiro-Ministro Boris Johnson passou a pedir à população que evite qualquer "contato não essencial", "viagens desnecessárias" e passe a trabalhar em casa. Johnson também sugere evitar ir a bares, restaurantes ou ao teatro. Além disso, passou a propor autoisolamento por uma semana se os sintomas do coronavírus aparecerem.

A ausência total de medidas da "imunidade do rebanho" explicaria a total falta de preparo e planejamento do Ministério da Saúde e do Governo Doria.

Simplesmente, não existem leitos, respiradores, kits de teste, reagentes e ... médicos. Não existiria nem mesmo álcool para uso hospitalar nas unidades médicas não fosse o socorro da Unica e de um grupo de empresários.

Também não houve preocupação em fazer qualquer verificação de saúde dos passageiros provenientes do exterior. Mas não faltaram autoelogios de autoridades sobre multidões no Carnaval e dezenas de navios de cruzeiro nos portos, quando o vírus já era uma tragédia em vários países.

Cabe lembrar que o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom  Ghebreyesus, quando enfatizou a necessidade de testar todos os casos suspeitos, para descobrir quem está infectado e isolar esses pacientes para "achatar a curva" da disseminação do novo coronavírus, David Uip disse que "há uma diferença entre o mundo ideal e o mundo real: o mundo ideal é fazer o teste com o maior números de pessoas, o mundo real talvez não seja esse".

No mundo real, Uip diz que o teste só deve ser realizado em casos graves, a menos que ele apresente um caso leve, e o governador de São Paulo quer ser reconhecido por ações que não tomou.

“A Promotoria pede que as autoridades encaminhem notas técnicas, acompanhadas da curva de progressão geométrica do coronavírus, bem como das justificativas que levaram à decisão das administrações municipal e estadual de não expedirem recomendação nem adotarem medidas oficiais para evitar aglomerações, deixando os cuidados de controle e prevenção  do contágio a cargo apenas dos cidadãos”, requereu em 13/03/2020 a Promotoria de  Justiça de Direitos Humanos do Ministério Público.

“A consequência dos gestores se omitirem na tomada de medidas oficiais contra aglomerações, bem como de medidas de prevenção/informação em geral, é a contaminação de grande parte da população de maneira simultânea, impedindo o sistema de saúde de dar respostas adequadas ao coronavírus e às demais doenças que necessitam de atendimento/leitos  hospitalares”, diz o texto encaminhado aos governos estadual e municipal.

Quatro meses após o início do surto, a população do Estado de São Paulo assiste os relapsos governos federal e estadual angariando doações de insumos básicos, inventando "fusquinhas" para substituir respiradores "ferrari", contratando médicos às pressas, e ainda posando de bons administradores.

“No final de abril o sistema entra em colapso. O colapso é quando você pode ter o dinheiro, o plano de saúde, a ordem judicial, mas não há o  sistema para entrar”, afirmou Luiz Henrique Mandetta em videoconferência com representantes de associações empresariais e o Presidente Bolsonaro.

* Com informações da IstoÉ, RFI

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