Atualização 15/10 - O Grupo TAP vai demitir mais 1.600 trabalhadores até ao final do ano, anunciou esta quinta-feira (15), na Assembleia da República, o Ministro Pedro Nuno Santos. Contabilizando as demissões ocorridas ao longo dos últimos meses, a companhia chegará ao final de 2020 com 2.800 desligamentos.

David Neeleman detinha 45% da TAP juntamente com o empresário português Humberto Pedrosa.

De acordo com um comunicado publicado pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), foi concretizada a amortização da quota “detida pela HPGB, SGPS, S.A. [de Humberto Pedrosa] na Atlantic Gateway contra o recebimento de ações representativas de 22,5% do capital social e direitos de voto da TAP SPGS e de determinadas prestações acessórias realizadas pela Atlantic Gateway, deixando a Atlantic Gateway de ser acionista da TAP SGPS e passando a HPGB a deter uma participação direta na TAP SGPS”.

No âmbito destas operações, a TAP informou que Neeleman “apresentou a sua renúncia ao cargo de Vogal do Conselho de Administração da TAP, a qual produz efeitos na presente data”, bem como “aos demais cargos por si assumidos na estrutura diretiva das restantes entidades que compõem o grupo TAP, incluindo na TAP SGPS, produzindo as referidas renúncias efeitos na presente data”.

Neeleman enviou uma mensagem a todos os trabalhadores da companhia aérea, dizendo que sempre quis o melhor para a TAP.

"Sempre quis o melhor para a TAP. Foi assim em 2015, quando me candidatei à privatização e acreditei quando mais ninguém acreditava, e é assim hoje quando concretizo o acordo com o Estado Português para deixar de ser acionista da TAP, escreveu.

"Infelizmente, a pandemia COVID, o seu impacto na indústria da aviação mundial e as decisões tomadas no contexto concreto da TAP não me permitiram continuar. A TAP precisa muito de estabilidade acionista e por isso acordei sair. Estou, de novo, a fazer o que é melhor para a TAP".

O empreendedor brasileiro-americano se despede dizendo que tem "muito orgulho em ter feito parte desta equipa e deste projeto, em Portugal. Um país fantástico, que continuarei sempre a promover, do qual gosto muito, onde fiz muitos amigos e onde sempre voltarei", deixando "um grande abraço a todos".

Nascido em São Paulo, David Neeleman só morou no Brasil até os 5 anos, quando se mudou para o estado americano de Utah, para onde o seu pai, jornalista da agência UPI, fora transferido. Com 26 anos fundou sua primeira companhia aérea, a Morris Air, comprada pela Southest Airlines. Sua empresa seguinte foi no Canadá, a WestJet, que continua em operação. Em 2000, criou a americana JetBlue Airways, revolucionando o mercado das passagens de baixo custo. Em 2008, fundou a Azul – Linhas Aéreas Brasileiras. Em 2015, Neeleman adquiriu o controle da TAP Air Portugal através do consórcio Getaway, formado pelo dono do grupo português Barraqueiro, Humberto Pedrosa, e fundos de investimento americanos. Em 2018, o empresário avaliou que havia espaço para a entrada de um novo competidor no mercado norte-americano e criou a Breeze Airways, "World’s Nicest Airline", prevista para entrar em operação em 2021.

"Negócio ruinoso"

Um “negócio ruinoso para Portugal”. É desta forma que a Associação Comercial do Porto (ACP) classificou o acordo que levou o Estado a ficar com 72,5% da TAP e que vai permitir a injeção de 1,2 bilhão de euros na companhia aérea.

O pior lado do negócio da companhia aérea, avalia Nuno Botelho, presidente da ACP, está nos negócios no Brasil. “A operação do Brasil é a principal responsável pelos resultados negativos do grupo TAP".

A TAP registrou 582 milhões de euros de prejuízo no primeiro semestre de 2020, valor que compara com um resultado líquido negativo de 112 milhões (2019),  90 milhões (2018) e 54 milhões (2017) no mesmo período de anos anteriores.

"Não vejo ninguém discutir, o que, em 1,2 bilhão de euros, vai para o Brasil e o que fica em Portugal. Não consigo entender como é que a ajuda que o Estado vai dar vai estar a financiar duas empresas que estão em solo brasileiro, que pagam impostos no Brasil, que estão no Brasil e que são, no meu entender, a razão de ser da ruína que é o grupo TAP”, disse Botelho.

A brasileira Azul, da qual Neeleman detém apenas 8%, através da holding pessoal DGN (David Gary Neeleman), é uma das principais clientes da TAP Manutenção e Engenharia Brasil S/A (antiga Varig Engenharia e Manutencao S/A), a maior empresa de manutenção de aviões da América Latina, mas também a principal responsável pelos prejuízos do grupo TAP.

Reestatização

“A TAP é do povo português para o bem e para o mal e porque se entende que é demasiado importante para a nossa economia para a deixarmos cair”, declarou o Ministro das Infraestruturas e da Habitação, Pedro Nuno Santos.

Questionado sobre a possível venda de aeronaves e demissões na TAP, o Ministro disse que o plano de reestruturação em elaboração irá “definir a redução que é preciso ser feita" e até onde se terá "de ir em matéria de custos no global e custos laborais”.

“Esse é um trabalho que está a ser feito. Não vai ser fácil, não podemos ter ilusões. Queremos segurar a companhia aérea que é muito importante para um país periférico no quadro europeu, com uma grande ligação ao atlântico, com comunidades espalhadas pelo mundo, mas obviamente, que não podemos manter uma dimensão elevada da TAP a qualquer custo e por isso esse trabalho está a ser feito com muita cautela”.

Atualização 04/09 - EuroAtlantic considera que o auxílio estatal concedido à TAP é uma medida que "distorce a concorrência" e critica a falta de apoio do Governo ao setor da aviação no seu todo.

"Não compreendo como é que, num setor que contribui com 57 mil postos de trabalho diretos e tem "n" companhias de aviação, o apoio do nosso Estado canaliza-se apenas para as empresas que têm cariz público", disse o Presidente da EuroAtlantic, Eugênio Fernandes, em entrevista ao Jornal de Negócios e à Antena 1.

* Com informações da Lusa, El País, Observador, Jornal de Negócios

Veja também: