Aos gritos de “liberdade”, "abaixo o comunismo", "patria y vida", "não temos medo", "miséria" e outros slogans, milhares de cubanos saíram às ruas de cidades de todo o país neste domingo (11) para protestar contra a escassez de alimentos, medicamentos, combustíveis e energia elétrica, em uma manifestação notável de descontentamento não vista em quase 30 anos na ilha.

“Patria y Vida” se tornou um grito de guerra depois que um videoclipe substituiu o slogan revolucionário “Pátria ou Morte”.

Durante o dia, protestos eclodiram em mais de 25 cidades, incluindo as maiores da ilha – Havana, Santiago, Santa Clara, Matanzas, Cienfuegos e Holguín – mas também em cidades menores como Palma Soriano, Cárdenas, Colón, Guira de Melena, Artemisa, entre outras.

As transmissões ao vivo dos protestos em redes sociais foram bruscamente interrompidos e os vídeos rapidamente suprimidos.

Um vídeo mostrava manifestantes virando um carro da polícia em Cárdenas, 145 quilômetros a leste de Havana. Outro vídeo mostrou pessoas saqueando uma das mais detestadas lojas administradas pelo governo, que vendem itens em moedas que a maioria dos cubanos não possui. Também foram transmitidas imagens de uma multidão reunida em Alquizar, uma cidade na província de Artemisa, perto de Havana, protestando contra o governo e gritando “abaixo Díaz-Canel” e “patria y vida” e de um protesto semelhante na vizinha Güira de Melena.

Em Havana, uma forte presença de forças de segurança precedeu a chegada dos manifestantes. Inúmeras detenções foram efetuadas na cidade.

Vídeos que circulam nas redes sociais mostram multidões de manifestantes caminhando pelas ruas próximas ao Malecón, no centro de Havana, ao redor do prédio do Capitólio e na cidade de Regla, do outro lado da baía de Havana.

Carolina Barrero, uma ativista cubana, disse ao New York Times (NYT) que as caminhadas em todo o país foram "a mais massiva manifestação popular de protesto ao governo que vivemos em Cuba desde 1959”, ano em que Fidel Castro tomou o poder à força e implantou o Comunismo na ilha.

Barrero chamou a manifestação pública neste domingo de "espontânea, frontal e contundente". “O que aconteceu é enorme”, acrescentou.

Os protestos foram deflagrados pela eterna crise econômica em Cuba, agravada com a queda do turismo internacional na ilha. A população agora passa horas na fila todos os dias para obter alimentos básicos. Muitos não conseguem trabalhar porque restaurantes, lojas e outras empresas permanecem fechados há meses por decretos impondo lockdown.

O Presidente Miguel Díaz-Canel assumiu o cargo há três anos, a primeira vez que alguém de fora da família Castro governa o país desde 1959. Raúl Castro deixou o cargo de líder do Partido Comunista neste ano.

O mandato de Díaz-Canel foi, a princípio, marcado por um maior acesso à Internet, o que ajudou a alimentar o descontentamento público contra ele, principalmente por parte dos artistas.

Em um discurso improvisado na televisão no final da tarde, Díaz-Canel atribuiu os protestos aos esforços dos EUA para endurecer o embargo, com a suposta intenção de “provocar um levante social” que justificaria uma intervenção militar.

Díaz-Canel culpou os Estados Unidos por restringir as exportações, o acesso a fundos e as viagens a Cuba, o que levou à escassez generalizada.

Visivelmente irritado e levantando a voz, o líder cubano advertiu que os manifestantes teriam uma forte resposta e chamou “todos os revolucionários” para enfrentá-los nas ruas “com firmeza e coragem”.

“Chamamos todos os revolucionários para ir às ruas para defender a revolução em todos os lugares”, disse o presidente. Ele acrescentou que as pessoas leais à revolução estão dispostas a dar suas vidas para defender o governo.

“Não vamos entregar a soberania ou a independência do povo”, disse. “Há muitos revolucionários neste país que estão dispostos a dar nossas vidas, estamos dispostos a fazer qualquer coisa e estaremos nas ruas lutando”.

“Sobre nossos cadáveres”, disse Díaz-Canel. “Estamos preparados para tudo”.

O presidente cubano disse que os protestos eram uma forma de “provocação sistêmica” por dissidentes. Ele reiterou que Washington nos últimos meses procurou desestabilizar e enfraquecer a economia da ilha como parte de uma política destinada a "provocar uma implosão social massiva".

As pessoas criticaram Díaz-Canel gritando "abaixo a ditadura", segundo o Miami Herald.

Granma, o jornal do Partido Comunista Cubano, disse que as pessoas que saíram às ruas no domingo incluíam partidários do governo que “podem ter ficado confusos com a desinformação nas redes sociais”.

“Os cubanos sabem muito bem que o governo dos Estados Unidos é o principal responsável pela atual situação de Cuba”, disse o Ministério das Relações Exteriores em rede social.

Cuba está passando por sua pior contração econômica em mais de três décadas, à medida que ineficiências crônicas e burocracia paralisante erodiram gradualmente a capacidade de produção do país, incluindo os setores de alimentos e agricultura.

As reformas cambiais neste ano aumentaram a inflação e as longas filas por alimentos voltaram a ser comuns.

Adonis Milán, um diretor de teatro em Havana, disse que as condições extremas se tornaram insuportáveis.

“Não se trata mais de liberdade de expressão, é uma questão de fome”, disse Milán ao NYT.

“As pessoas estão pedindo o fim deste governo, do regime de um partido, da repressão e da miséria que vivemos por 60 anos”.

Poucas horas depois, ele ligou de volta ao NYT, soluçando, dizendo que a Internet havia sido cortada, que esquadrões antimotim estavam nas ruas e que vários artistas foram presos depois de pedirem tempo no ar em rede nacional.

Pandemia

Na semana passada, os cubanos começaram a documentar nas redes sociais o colapso do sistema de saúde na província de Matanzas, epicentro da pandemia na ilha. Pacientes e suas famílias recorreram à postagem de vídeos de pessoas furiosas gritando pela falta de medicamentos e médicos.

Neste domingo, as autoridades de saúde cubanas relataram um aumento recorde em um único dia de novos casos e mortes por covid-19 no país – a nação de 11 milhões de habitantes registrou 6.923 casos diários e 47 mortes.

Cuba decidiu fazer sua própria vacina contra o coronavírus e não comprou vacinas de outros países. Mas os planos de imunizar a população com uma vacina caseira têm sido marcados por atrasos. Apenas 15 por cento da população está totalmente vacinada contra o SARS-CoV-2, disse o governo.

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