A Argentina é o terceiro parceiro comercial do Brasil e o primeiro  da região, sendo o maior comprador dos produtos brasileiros manufaturados. Entre janeiro e julho, as exportações ao país vizinho despencaram 40% em relação ao mesmo período de 2018,  recuando de 10 bilhões de dólares para 6 bilhões, segundo a Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

Desde o ano passado, a economia argentina experimentou recessão, explosão inflacionária, desvalorização da moeda, escalada do endividamento em moeda estrangeira e crescimento do desemprego.

Com o resultado das eleições primárias, desfavorável ao governo Macri, foram adotadas medidas emergenciais que acentuaram a desorganização da economia, agravando o desafiador cenário macroeconômico prospectivo daquele país.

"Neste ano, vamos ter déficit comercial com os argentinos, o que não tínhamos desde 2003. O poder de  compra deles hoje está muito pequeno e, em meio a uma forte crise, a  Argentina precisa reduzir as importações", explica José Augusto Castro, presidente da AEB.

Embora muito se especule na imprensa sobre os desdobramentos políticos de uma eventual mudança de governo na Argentina, os efeitos do caos econômico do país vizinho na economia brasileira são geralmente discutidos apenas no âmbito da exportação de veiculos e máquinas agricolas. Contudo, como mostra a tabela abaixo, mais de 60% das exportações são compras industriais da cadeia produtiva argentina.

Exportações brasileiras para a Argentina (Janeiro-Agosto 2019)
ítemparcela
Insumos industriais elaborados31,5%
Automóveis21,2%
Peças para equipamentos de transporte15,7%
Equipamentos de transporte industrial6,1%
Alimentos e bebidas (matéria-prima industrial)3,9%
Peças e acessórios para bens de capital2,8%
Outros18,8%
Fonte: MDIC

O pesquisador Lívio Ribeiro, da Fundação Getúlio  Vargas (FGV),  explicou ao El País que as implicações reais da crise Argentina acontecem com o encadeamento existente entre a produção industrial brasileira e a argentina. "O Brasil não é um país muito aberto, mas por causa do Mercosul, a participação da Argentina nos fluxos de bens industriais é relevante.  Muitas cadeias de valor existem regionalmente, insumos são produzidos de um lado da fronteira e bens finais do outro, acontece dos dois lados".

Ainda segundo o pesquisador, como agora há uma crise grande na economia argentina,  uma mudança dos preços relativos entre os dois países  começa a ocorrer. "E, quando isso acontece, a estrutura da cadeia  modifica, seja na produção de insumos ou na demanda. O grande problema é  a desorganização da cadeia de valor, porque ela levou anos para ser  organizada. E isso terá um efeito muito grande no Brasil", estima.

Impacto no Brasil

Utilizando séries históricas de exportações e taxas de câmbio, complementadas por predições elaboradas pelo FMI, as pesquisadoras do IBRE/FGV Luana Miranda e Mayara Santiago construiram um modelo objetivando determinar quanto a indústria de transformação brasileira teria crescido na ausência da influência argentina.

"O valor adicionado da indústria de  transformação teria crescido 2,2% em 2018 (ante resultado oficial de  1,3%) e 2,1% em 2019 (ante projeção do IBRE de 0,2%)", revela o estudo.

Considerando que 60% dos impostos arrecadados no Brasil são originários da indústria de transformação, variações desse setor impactam significativamente a arrecadação de tributos e o PIB.

O estudo estimou os efeitos secundários da indústria de transformação sobre os componentes do PIB pelo lado da oferta, como Comércio, Transportes e  Impostos:

AtividadeEfetivo x Estimado20182019
TransformaçãoEfetivo1,3%0,2%
Ex-Argentina2,2%2,1%
ComércioEfetivo2,3%1,9%
Ex-Argentina2,7%2,9%
TransportesEfetivo2,2%1,0%
Ex-Argentina2,5%1,8%
ImpostosEfetivo1,4%1,3%
Ex-Argentina1,8%2,3%
PIBEfetivo1,1%1,1%
Ex-Argentina1,3%1,6%
Fonte: IBGE e estimativas das autoras

Com base nos resultados obtidos, o estudo encerra com a seguinte conclusão:

As dificuldades enfrentadas pelo nosso  principal parceiro comercial de bens manufaturados tiveram influência  relevante sobre o crescimento brasileiro no ano passado e ainda deve se  acentuar neste ano. Notamos também que a contaminação da crise Argentina  na nossa indústria de transformação pode ir muito além da indústria  automobilística, dada a relevância dos bens intermediários na pauta de  exportações brasileiras para o país vizinho. Deste modo, novos picos de  tensão associados ao cenário político na Argentina e possível piora das  projeções macroeconômicas do país devem ser acompanhados de perto,  diante da relevância sobre o crescimento econômico brasileiro.

O estudo completo pode ser lido aqui.

* Com informações do El País

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