O relatório "Pandemia de covid-19: Desafios para a saúde dos portugueses", apresentado na Assembleia da República esta segunda-feira (11), analisa o impacto da pandemia nos principais indicadores sociodemográficos, na saúde mental da população e na prestação de cuidados de saúde.

"O fato dos indivíduos mais velhos terem sido os mais atingidos pela mortalidade por covid-19 tem um impacto nas tendências de envelhecimento da população. No curto prazo, registra-se um certo rejuvenescimento da estrutura etária – não por aumento da natalidade, mas por decréscimo da sua população mais velha – e uma diminuição do índice de longevidade", afirma o documento do CNS.

O excesso de mortalidade iniciou-se no mês de março de 2020, continuando ao longo dos restantes nove meses desse ano, e nos meses de janeiro, fevereiro e de julho a dezembro de 2021, informa a publicação.

"Se o excesso de mortalidade observado em março e abril e de outubro em diante coincidiram com os picos de incidência da infecção (primeira, segunda e início da terceira onda), o excesso de mortalidade sentido no final de maio e entre julho e agosto de 2020 não coincidiu com incidências elevadas no país", diz o relatório.

A taxa de mortalidade em Portugal subiu de 10,9 por mil em 2019 para 12 em 2020. Dezenove mil pessoas perderam a vida por covid-19 até ao final de 2021.

"Se cerca de 80% dos casos de infecção registrados ocorreram em indivíduos abaixo dos 65 anos, já 93% dos óbitos covid-19 atingiram as franjas mais velhas de população (acima dos 65, com especial destaque para os mais de 85)", detalha o documento.

The Great Reset

O CNS alerta ainda que a natalidade e a fecundidade podem ter sido – ou vir ainda a ser – influenciadas pela pandemia e pela alteração da vida cotidiana.

Os dados publicados indicam que, em 2020, nasceram 84.426 crianças em Portugal, menos 2.294 do que na média dos anos 2016-2019 e, no final de 2021, os dados provisórios indicavam que tinham sido registados apenas 79.548 recém-nascidos, o que corresponde a menos 4.878 do que no ano anterior.

"A queda entre 2019 e 2021 vem reforçar essa tendência, para a qual podem ter contribuído o medo da pandemia, os constrangimentos econômicos e sociais colocados às famílias, a dificuldade das franjas mais jovens de população acederem a condições de vida autônomas que lhes permitam sequer perspectivar um projeto de procriação", avalia o CNS.

O estudo concluiu também que os trabalhadores pouco qualificados de baixas remunerações, com contratos precários ou envolvidos na economia informal, foram "não só como dos mais atingidos pela pandemia, como os que suportam intensamente as suas consequências negativas sobre o seu nível de vida".

Quanto à esperança média de vida, baixou dos 81,8 em 2019 para 81,1 anos em 2020, "fato que não serão alheios os impactos, diretos e indiretos, da pandemia", ressalta o relatório, que salienta também que, de 2020 para 2021, houve uma redução dos níveis de estresse, ansiedade e depressão dos portugueses.

A diminuição reflete uma adaptação às adversidades da pandemia, ainda que menos evidente em alguns grupos populacionais, como nas mulheres, nas pessoas desempregadas e com doença crônica, explica o relatório.

Em relação à educação durante a pandemia, que teve dois períodos de suspensão da atividade presencial nas escolas durante 2020 e no primeiro semestre de 2021, o CNS constatou que, comparativamente com outros países, Portugal foi dos que "adotou uma política mais severa nesta matéria, sem que se fundamentasse verdadeiramente a evidência científica que a suportava".

Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econêmico (OCDE), em 2020 e 2021 (descontando férias, fins de semana e feriados), as escolas até o nono ano fecharam cerca de 100 dias, "dados que contrastam com os de outros países europeus, nomeadamente Espanha, Bélgica ou França (cerca de 50)", enfatiza o relatório.

* Com informações do Diário de Notícias

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