De acordo com os dados do relatório da DGS “Mortalidade Geral e por Grandes Grupos de Causas”, entre 30 de dezembro de 2019 a 3 de janeiro de 2021, houve mais 14% de óbitos (15.526) em Portugal face à média dos seis anos anteriores.

O fenômeno ocorreu em todos os grupos etários à exceção de crianças até 14 anos – houve menos 24 óbitos, uma diminuição de -6%.

O impacto do excesso de mortalidade foi mais acentuado nas faixas etárias acima dos 65 anos, sobretudo acima dos 85 anos.

Na faixa de jovens de 15 aos 24 anos houve 16% de excesso de mortes (49 óbitos a mais), uma variação importante, apesar de pequena em termos absolutos.

Os portugueses morreram sobretudo de doenças do aparelho circulatório – nomeadamente acidentes vasculares cerebrais (mais 1.618 óbitos do que o que seria esperado) e mais 45% de mortes por enfermidades relacionadas à hipertensão; de tumores malignos; e de patologias do aparelho respiratório, que continuaram a ser os grandes grupos de causa de morte em 2020.

Os casos em que a covid-19 foi causa básica de morte (7.364), por ter dado início à cadeia de acontecimentos patológicos que conduziram ao óbito, foi apenas a quarta causa de morte mais frequente em Portugal, representando 5,9% do total dos falecimentos do país em 2020 e 2,7% dos anos potenciais de vida perdidos.

Em termos temporais, a Direção-Geral da Saúde identificou seis períodos com excesso de mortalidade em 2020.

Um primeiro período de mortes acima do esperado ocorreu logo nas primeiras semanas do ano e foi atribuído ao frio e à atividade gripal. O segundo período está associado ao início da pandemia, enquanto o terceiro se deve a uma pequena onda de calor e o quarto à temperaturas elevadas. A DGS assume não ter encontrado explicação para o quinto período, enquanto o sexto, onde se registrou o maior número de mortes em excesso (7.438), coincidiu com a maior atividade epidêmica da covid-19 em 2020.

Acesso limitado à saúde explicaria mortalidade

O Bastonário da Ordem dos Médicos de Portugal, Miguel Guimarães, crê que a falta de cuidados de saúde é uma explicação óbvia para os dados da DGS.

“Deve-se ao fato de ter havido milhões de consultas e de exames complementares de diagnóstico por fazer”, afirmou ao jornal Observador, acrescentando que a pandemia criou “um excesso de dificuldade de acesso aos cuidados de saúde” e que 2020 foi um “ano negro” para a saúde.

A hipótese não é apresentada pela DGS no relatório. A avaliação não tem inclusivamente justificação para o fato de no verão de 2020 se ter registrado um excesso de mortalidade por doenças não associadas ao calor, como doenças endócrinas, nutricionais e metabólicas, do aparelho urinário e neoplasias. Fato que merece críticas de Miguel Guimarães, que afirma que “a DGS tem de se habituar a dar informação credível”.

"[Quando a DGS identifica] os chamados seis períodos de excesso de mortalidade, tem de saber em que é que se baseou essa mortalidade”, acusa Miguel Guimarães.

Pedro Pinto Leite, diretor do Serviço de Informação e Análise da DGS, admite que não foi possível “ir para lá dos números”, destacando que os dados sobre as mortes por covid-19 têm uma margem de erro de 5%, “o que é excelente”, e observa que é preciso investigar a mortalidade ter sido elevada no primeiro ano da pandemia.

Atualização 02/06/2022

Segundo dados da Plataforma Nacional de Vigilância de Mortalidade, morreram em Portugal em maio por todas as causas 10.315 pessoas – 863 por covid-19, o nível mais elevado das últimas décadas para este mês do ano.

Foram mais 1.500 mortes do que na média dos últimos cinco anos (8.864 óbitos).

A mortalidade associada à covid-19 não explica a totalidade deste acréscimo, embora tenha aumentado sua participação. Em abril, as 592 mortes atribuídas à covid-19 tinham representado 5,8% do total de óbitos do mês, porcentagem que em maio subiu para 8,4%.

O maior acréscimo se verificou na população mais velha, em particular nos maiores de 85 anos, grupo etário em que se registraram mais 1.183 mortes em relação a maio do ano passado.

Para Filipe Froes, pneumologista que coordenou o gabinete de crise da Ordem dos Médicos para a covid-19, a evolução da mortalidade em Portugal mostra que o impacto do Ômicron continua a ser significativo e superior ao da gripe.

Atualização 15/06/2022

A mortalidade em Portugal tem estado “muito acima do esperado” para o mês de junho, revela a Plataforma Nacional de Vigilância da Mortalidade (EVM) do Ministério da Saúde. A situação, que já tinha ocorrido em maio, agravou-se nos últimos dias, com um excesso de 513 óbitos só na última semana, a maioria de idosos. A mortalidade por covid-19 mantém-se mais elevada do que há um ano, mas não explica todo o acréscimo de mortes. Nos últimos sete dias, registraram-se 254 óbitos atribuídos à covid-19, metade do excesso de mortalidade identificado.

Atualmente, com uma média de sete dias de 367 mortes, a mortalidade está cerca de 40% acima do esperado. Nesta época do ano, a média é de 260 óbitos.

O aumento de acidentes cardiovasculares e a descompensação de doença crônica como diabetes ou de problemas respiratórios são alguns dos motivos estudados.

Os médicos notam um aumento de pacientes com doença crônica menos controlada e acompanhada nos últimos anos, em que houve menor acessibilidade aos cuidados primários de saúde.

Dados da Administração Central do Sistema de Saúde mostram que no final de 2021 apenas 54% dos diabéticos tinham parâmetros controlados, -8 pontos percentuais (p.p.) que em 2019; na hipertensão, 44% (-9 p.p.) tinham parâmetros controlados; e nas doenças respiratórias, 39% (-10 p.p.) dos pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) tinham realizado exame de controle.

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