País após país aguardou seus primeiros embarques de vacinas covid-19 entregues pela COVAX, a colaboração global liderada pela ONU/OMS para dar acesso equitativo às vacinas, mas os imunizantes não chegaram.

O Uruguai foi uma dessas nações. Seu embaixador nas Nações Unidas, Álvaro Moerzinger Pagani, disse que o país comprou vacinas da COVAX, mas não conseguiu falar com funcionários. “Talvez não tenhamos os contatos”, disse.

O embaixador da Líbia na ONU também não recebeu respostas. COVAX "certamente não foi justo e não foi equitativo”, disse o diplomata Tamim Baiou, e não corresponde "ao que eles estão promovendo para o mundo".

Tatiana Molcean, embaixadora da Moldávia na ONU, descreveu uma "situação embaraçosa" na qual elogiou a COVAX durante uma reunião com a OMS, mas foi seguida por "discursos de vários embaixadores de diferentes países dizendo que não receberam nenhuma informação". Ela disse: “Foi doloroso ver que quando já estavamos recebendo alguns lotes, eles ainda estavam lutando”.

Autoridades de outros países questionaram se os coordenadores da COVAX ocultaram informações propositalmente ou se eles também estavam sendo mantidos no escuro. Uma embaixadora de um pequeno país europeu descreveu como às vezes recebia informações conflitantes de diferentes pessoas da COVAX.

Um funcionário de um país latino-americano descreveu as possíveis consequências políticas de atrasos nas entregas: “Como vamos justificar que você colocou tanto dinheiro adiantado e ainda não recebeu o que foi prometido?”.

O Bureau of Investigative Journalism e o STAT analisaram documentos internos confidenciais e conversaram com representantes de mais de 20 de países, muitos dos quais apontaram frustração, lutando para obter informações dos funcionários da Covax sobre quando, se é que chegariam, as entregas.

Os primeiros 18 meses não correram como esperado. À medida que os países mais ricos implantam as vacinas de reforço, 98% das pessoas nos países de baixa renda permanecem não vacinadas. A COVAX contribuiu com menos de 5% de todas as vacinas administradas globalmente.

As autoridades receberam suprimentos com meses de atraso ou sem aviso prévio, lançando as campanhas de vacinação no caos e às vezes atrasando as segundas doses das pessoas, se é que as receberam. Em alguns casos, as vacinas entregues perto de seu prazo de validade foram devolvidas ou descartadas por não haver tempo para os governos distribuí-las.

Provavelmente, parte dessas vacinas integravam estoques americanos e europeus do imunizante da AstraZeneca, não autorizado nos EUA e de uso altamente restrito na Europa.

Autoridades de saúde de vários países disseram esperar alguns atrasos e confusão em meio a uma pandemia global, mas não a tal ponto. A queda abrupta no fornecimento é atribuída à proibição, pelo governo indiano, do Serum Institute of India (SII) exportar a vacina Covishield, o imunizante base da iniciativa da OMS.

A COVAX, porém, há muito estava ciente dos riscos. Um comunicado confidencial do UNICEF de meados de 2020 observou a dependência excessiva da manufatura indiana.

Os críticos também acusam a COVAX de marginalizar as organizações que representam os interesses das nações mais pobres em suas discussões de alto nível, negando voz aos mais necessitados.

A COVAX culpa os fabricantes pela escassez e diz que suas estimativas do número de doses e da disponibilidade são baseadas em informações recebidas dos fornecedores.

“Por causa dos atrasos na liberação das vacinas dos fabricantes, nem sempre foi possível avisar os países com bastante antecedência” sobre o abastecimento, disse a COVAX. E reconheceu que, “embora o mecanismo agora esteja funcionando em grande escala, os volumes disponibilizados até o momento são inaceitáveis”.

A COVAX entregou apenas 300 milhões de vacinas até agora.

“A COVAX provavelmente superestimou a quantidade de vacinas que obteriam e a velocidade com que as obteriam”, disse Mauricio Cárdenas, membro do Painel Independente da OMS para Preparação e Resposta à Pandemia. “E eles basicamente contaram essa história para os países”.

Um ano e meio desde o lançamento da COVAX, a visão que apresentou ao mundo não se concretizou. Muitos países continuam experimentando onda após onda de covid-19, com a grande maioria de suas populações ainda não vacinadas.

No final de setembro, seis meses após impor sua proibição de exportação, o governo indiano anunciou que espera reiniciar os embarques para a COVAX em outubro. Mas alguns acreditam que o dano foi feito. Como disse um especialista em logística: “Por causa da decisão da COVAX de colocar todos os ovos na mesma cesta, pessoas morreram”.

"Se não tivéssemos acordos bilaterais... teria sido catastrófico", disse uma autoridade de saúde latino-americana.

* Com informações do STAT

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