Os portos da Ucrânia estão fechados, e enquanto alguns embarques ainda estão deixando a Rússia, compradores de grãos e representantes de transporte dizem que há pouco ou nenhum novo acordo sendo assinado por causa da incerteza em torno do conflito, possíveis novas sanções e custos crescentes de frete e seguro.

O principal importador do Egito tentou comprar trigo na segunda-feira (28), mas desistiu depois de apenas receber ofertas de alto preço de franceses e americanos.

"Se o conflito for prolongado, daqui a três, quatro meses as consequências podem ser realmente sérias", avalia Andree Defois, presidente da consultoria Strategie Grains. "O trigo terá que ser racionado".

"Mesmo com os portos russos abertos, muitos operadores têm medo de trabalhar com o Mar Negro", disse Defois à Bloomberg.

Rússia e Ucrânia viram as colheitas e as exportações aumentarem na última década, com os agricultores da região produzindo a custos mais baixos frente a produtores tradicionais, como o Canadá e os EUA, o que ajudou a manter os preços do trigo mais baixos. Isso os tornou uma "cesta de pão do mundo", fornecendo grãos acessíveis para os consumidores, disse Michael Magdovitz, analista sênior do Rabobank, multinacional holandesa bancária líder global em serviços de financiamento para alimentação e agro financiamento.

A avaliação de Magdovitz pode ser observada, por exemplo, nas exportações da Ucrânia em 2020. Embora tenha embarcado um volume quase 14% maior de trigo comparado à França, a receita dos ucranianos com a venda do grão no exterior foi 20% menor que a obtida pelos produtores franceses.

Exportações de trigo em 2020. Com solo naturalmente fertilizado, a Rússia é o maior exportador mundial de trigo, mesmo com a quebra de 13% da safra 21/22
Exportações de trigo em 2020. Com solo naturalmente fertilizado, a Rússia é o maior exportador mundial de trigo.
As exportações mundiais de trigo totalizaram estimados US$ 45 bilhões em 2020, um aumento de 10,7% frente o ano anterior.. Quinze países responderam por 93% do valor do trigo exportado em 2020. Fonte: Magazine Pro
As exportações mundiais de trigo totalizaram estimados US$ 45 bilhões em 2020, um aumento de 10,7% frente ao ano anterior. Quinze países responderam por 93% do valor do trigo exportado em 2020. Fonte: Magazine Pro

De uma perspectiva continental, os países europeus forneceram mais da metade das exportações mundiais de trigo durante 2020, com embarques no valor de US$ 25,5 bilhões ou 57% do total das vendas globais.

O Brasil recebe, aproximadamente, metade do trigo exportado pela Argentina. Porém, há uma presença crescente de países asiáticos e africanos entre os compradores do cereal argentino, com destaque para Indonésia, Bangladesh e Quênia, destaca Gustavo Idigoras, Presidente da Ciara-CEC.

Os compradores do grão estão avaliando as alternativas. Espera-se que a Índia, que não é grande exportadora de trigo, venda um volume recorde no exterior. França, Alemanha e Estados Unidos também deverão aproveitar o conflito para expandir suas vendas, disse Cezar Gheorghe, consultor de comércio de grãos da Coluna Agri romena.

Impacto social

Especialistas alertam que o conflito em curso pode acrescentar milhões de pessoas à situação de "pobreza alimentar", o que, por sua vez, pode ameaçar a estabilidade social no volátil Oriente Médio.

Um relatório recente do Instituto do Oriente Médio, com sede em Washington, afirma que mais da metade das exportações de trigo da Ucrânia em 2020 foram para a região do Oriente Médio e Norte da África (MENA). Por exemplo, 50% das importações de trigo do Líbano e 43% da Líbia vieram da Ucrânia em 2020.

De acordo com o Serviço Aduaneiro da Rússia, nos três primeiros trimestres do ano de comercialização de julho de 2021 a junho de 2022, o país exportou 18 milhões de toneladas de trigo – Irã, Turquia, Egito, Nigéria e Azerbaijão continuam sendo os principais destinos do trigo russo, com uma participação combinada de suas exportações globais de 66%.

O colunista do Financial Times John Dizard alertou que a escassez de grãos locais e importados foi citada como uma das razões para a Primavera Árabe de 2011.

À medida que o conflito continua entre a Rússia e a Ucrânia, os países do Oriente Médio que dependem fortemente de importações de trigo enfrentarão mais escassez de alimentos e aumentos. Os preços já atingiram os níveis comparáveis aos anteriores à turbulência política de 2011 no mundo árabe.

No Iêmen devastado pela guerra, o preço do trigo já viu um rápido aumento. No Marrocos, o conflito deve agravar a inflação, que já provoca protestos.

Na Tunísia, a população encontra dificuldade para pagar as importações de alimentos, devido a crises econômicas e sociais antes mesmo do conflito.

No Egito, o país mais populoso da região e o maior importador de trigo do mundo, o governo está trabalhando em um plano para comprar trigo de outros produtores, em substituição dos fornecimentos da Rússia e da Ucrânia.

"Se a guerra for prolongada, afetará milhões de pessoas que vivem em lugares como Egito, Tunísia, Marrocos, Paquistão e Indonésia. Isso pode ter consequências políticas", observou Dizard.

O contrato de trigo mais ativo na Chicago Board of Trade (CBOT) subiu 5,1%, a US$ 11,13 o bushel, à 1:30 UTC desta quinta-feira (3), depois de subir para o maior nível desde março de 2008, a US$ 11,34 o bushel, no início da sessão. O mercado de trigo subiu cerca de 30% em quatro sessões.

Em 1º de novembro de 2021, o trigo de referência em Chicago já tinha subido acima de US$ 8 o bushel, a maior cotação em quase nove anos, com os futuros de trigo de moagem de Paris atingindo um recorde histórico e o trigo de primavera de Minneapolis atingindo o nível mais alto desde abril de 2008.

Atualização 04/04/2022

Os Estados Unidos aumentaram suas compras de petróleo russo em 43% entre 19 e 25 de março, de acordo com dados da Administração de Informações sobre Energia (EIA). Apesar da proibição da Casa Branca de importações de energia da Rússia, os EUA continuam a comprar até 100.000 barris de petróleo russo por dia.

* Com informações da Bloomberg, Japan Times, Xinhua

Leitura recomendada:

Veja também: