“A maioria das atividades agropecuárias recuperou os preços dos seus produtos. No entanto, esses aumentos têm sido acompanhados pela alta no custo de produção, o que demonstra que o produtor não está tirando vantagem sobre os outros elos da cadeia”, afirmou Bruno Lucchi, Superintendente da CNA.

Lucchi explicou que as atividades agropecuárias são caracterizadas por ciclos de produção, que vão de meses a anos, exemplificando com a carne bovina.

"A oferta de animais diminuiu bastante por conta do desestímulo à produção no passado. De 2015 a 2019, a arroba valorizou 5,9%, enquanto a inflação geral subiu 20,9% e a média do custo de produção de recria e engorda de animais no País subiu 32%, e para a cria esta elevação passou dos 50%", disse Lucchi.

"Com menor margem de lucro, boa parte dos produtores rurais decidiu pelo abate de fêmeas, tanto jovens quanto matrizes, para financiar o caixa da atividade, reduzindo naturalmente a disponibilidade de bezerros, o que consequentemente impacta na oferta de carne aos consumidores".

"Neste ano, a redução de oferta, bem como o maior intervalo nas escalas de abate, forçou a valorização no preço da arroba que, diferente das projeções iniciais, atingiu R$ 230 em agosto, alta de 48% em um ano. Mas, por outro lado, tivemos aumento dos custos de produção. O preço do bezerro pelo indicador Cepea/Esalq/USP subiu 60,5% de agosto de 2019 para o mês passado. O milho subiu 55% no mesmo período. E mesmo com melhores estímulos de preço ao produtor, a estimativa da produção de carne do Brasil para este ano é 5% menor", disse Lucchi.

Dados do IBGE confirmam que, no 2º trimestre de 2020, o abate total foi 8% inferior ao abate do 2º trimestre de 2019. E no consolidado do 1º semestre, o abate foi 8% inferior ao mesmo período do ano passado, confirmando a reduzida oferta de animais.

Segundo o Superintendente da CNA, a oferta de animais para abate provavelmente aumentará a partir do último trimestre do ano devido a melhoria das condições das pastagens, e a produção de leite, uma das mais afetadas pela pandemia, deve ter a produção acelerada em setembro em algumas regiões em função do início das chuvas e melhor remuneração do produto.

As importações de leite em pó tiveram um aumento de 160% em agosto frente a julho, contribuindo para a elevação da oferta no mercado interno.

Lucchi destaca que em 2020 houve uma sazonalidade negativa para vários produtos, como o arroz.

Evolução do preço do arroz na bolsa de mercadorias de Chicago. Fonte: Investing.com
Evolução do preço do arroz na bolsa de mercadorias de Chicago. Fonte: Investing.com

"No caso do arroz, por exemplo, a demanda se apresentou elevada durante os meses de março e abril em função da pandemia. Historicamente, esses deveriam ser os piores meses de preço em função da safra. No entanto, houve quebra na produção de importantes países produtores, como Índia e Tailândia, o que resultou na ampliação acentuada do preço no mercado internacional".

Na quarta-feira (9), a Câmara de Comércio Exterior (Camex), vinculada ao Ministério da Economia, decidiu zerar a alíquota do imposto de importação para o arroz em casca e beneficiado. A isenção tarifária valerá até 31 de dezembro deste ano.

O objetivo da isenção tarifária temporária é conter o aumento expressivo no preço do arroz ao longo dos últimos meses. De acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea/USP), o preço do arroz variou mais de 100% nos últimos 12 meses, com o valor da saca de 50 kg próximo de R$ 100.  Em alguns supermercados, o produto, que custava de R$ 8-15, no pacote de 5 kg, está sendo vendido por até R$ 40.

Quebra da safra de laranja

A primeira reestimativa da safra de laranja 2020/21 do cinturão citrícola de São Paulo e Triângulo/Sudoeste Mineiro, divulgada pelo Fundecitrus na quinta-feira (10), indica produção de 286 milhões de caixas de 40,8 kg. O número é 26% menor em relação à safra anterior, o que representa uma das quebras mais severas de produção dos últimos dez anos. Da safra total, cerca de 20 milhões de caixas deverão ser produzidas no Triângulo Mineiro.

O coordenador da Pesquisa de Estimativa de Safra (PES) do Fundecitrus, Vinícius Trombin, explica que além das chuvas mais escassas em julho e agosto, a previsão, até o momento da publicação da reestimativa, aponta para a inexistência de chuvas com volumes significativos nos próximos 15 dias. “O déficit hídrico na maior parte do cinturão citrícola deve inibir o crescimento das laranjas, que deverão ser colhidas com pesos menores em relação aos projetados. Pelo menos 70% da safra ainda não foi colhida”.

Os dados do levantamento de campo mostram que, em agosto, a colheita alcançou 25% da produção, ritmo abaixo dos 35% registrados na mesma época no ano passado.

Exportações

As exportações do setor agropecuário tiveram crescimento neste ano, favorecidas pelo aumento da demanda internacional e a desvalorização do Real  (-30%) frente ao Dólar norte-americano.

Fonte: Investing.com
Fonte: Investing.com

As exportações vem se confirmando como o canal de escoamento da produção de carne bovina, acumulando 13% de alta entre janeiro e agosto de 2020 frente ao acumulado no mesmo período de 2019. Esse é o maior volume já exportado pelo Brasil no período dos primeiros 8 meses e a maior participação histórica da exportação sobre o abate total, representando 34% do volume abatido.

Já os embarques de frutas voltaram a crescer em agosto e no acumulado de oito meses em 2020 totalizaram 480 mil toneladas, com destaque para as frutas cítricas (limões, limas e laranjas) e manga.

Apesar do bom desempenho, Lucchi ponderou que a elevação dos preços dos alimentos não está necessariamente ligada às exportações "porque o mercado interno consome a grande parte do que produzimos. O que vai para fora são os excedentes".

Evolução do preço da soja
Evolução do preço da soja

"Um dos feitos do setor, que deixou de ser importador de alimentos há quatro, cinco décadas, para se tornar um dos maiores fornecedores mundiais de alimentos, foi garantir alimentos a preços acessíveis para as famílias brasileiras", disse Lucchi.

Agronegócio paulista

De janeiro a julho de 2020, o agronegócio paulista apresentou exportações de US$ 9,5 bilhões, montante 9,3% superior ao obtido no mesmo período de 2019. As importações, com queda de 13%, totalizaram US$ 2,4 bilhões.

De acordo com as informações divulgadas pela Secretaria de Agricultura de São Paulo, as transações resultaram em um superávit de US$ 7,07 bilhões, volume 20% maior que o registrado em 2019.

A participação das exportações do agronegócio no total do Estado foi de 42%.

Os principais grupos na pauta das exportações do agronegócio paulista foram:

  • Complexo Sucroalcooleiro, US$ 2,9 bilhões – açúcar (85%), álcool (15%);
  • Complexo Soja, US$ 1,7 bilhão;
  • Carnes, US$ 1,3 bilhão – carne bovina(85%);
  • Produtos Florestais, US$ 916 milhões –  papel (50%), celulose (38%); e
  • Sucos, US$ 745 milhões –  suco de laranja (96%).

* Com informações da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Secretaria de Agricultura de São Paulo, Fundecitrus, Boletim CNA 08 a 11/09, Investing.com

Veja também: