Em meados de agosto, o Japão experimentou um pico de infecções pelo vírus da covid-19, registrando mais de 23.000 novos positivos por dia.

Na segunda-feira (23), a média móvel de 7 dias de novos casos diários estava em 132, com as mortes atribuídas à doença permanecendo em um dígito neste mês.

Média móvel de 7 dias de novos casos diários confirmados. Arte: © Our World in Data
Média móvel de 7 dias de novos casos diários confirmados. Arte: © Our World in Data
Média móvel de 7 dias de novos óbitos diários confirmados. Arte: © Our World in Data
Média móvel de 7 dias de novos óbitos diários confirmados. Arte: © Our World in Data

O principal motivo pode estar relacionado às alterações genéticas que o coronavírus sofre durante a replicação, a um ritmo de cerca de duas mutações por mês.

De acordo com uma teoria proposta por Ituro Inoue, professor do Instituto Nacional de Genética, a variante Delta no Japão acumulou muitas mutações na proteína não estrutural e corretora de erros do vírus chamada nsp14. Como resultado, o vírus lutou para reparar os erros a tempo, levando à "autodestruição".

Estudos mostram que mais pessoas na Ásia têm uma enzima de defesa chamada APOBEC3A, que ataca vírus de RNA, incluindo o vírus SARS-CoV-2, que causa a covid-19, em comparação com pessoas na Europa e na África.

Os pesquisadores do Instituto Nacional de Genética e da Universidade Niigata decidiram descobrir como a proteína APOBEC3A afeta a proteína nsp14 e se ela pode inibir a atividade do coronavírus. A equipe conduziu uma análise dos dados de diversidade genética para as variantes Alfa e Delta de espécimes clínicos infectados no Japão de junho a outubro deste ano.

A rede da variante Alfa, que foi o principal impulsionador da quarta onda do Japão de março a junho, tinha cinco grupos principais com muitas mutações se ramificando, confirmando um alto nível de diversidade genética.

A expectativa dos pesquisadores era que a variante Delta, que os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA afirmam ser duas vezes mais contagiosa do que as variantes anteriores, teria uma diversidade genética muito mais vibrante.

Surpreendentemente, eles descobriram que o oposto é verdade. As mutações pareciam ter sofrido uma interrupção repentina durante seu processo de desenvolvimento evolutivo. Quando os pesquisadores passaram a examinar a enzima corretora de erros nsp14 do vírus, eles descobriram que a grande maioria das amostras de nsp14 no Japão parecia ter sofrido muitas alterações genéticas em locais de mutação chamados A394V.

“Ficamos literalmente chocados ao ver as descobertas”, disse Inoue ao The Japan Times. “A variante delta no Japão era altamente transmissível e mantinha outras variantes de fora. Mas, à medida que as mutações se acumulavam, acreditamos que ele acabou se tornando um vírus defeituoso e não foi capaz de fazer cópias de si mesmo. Considerando que os casos não têm aumentado, pensamos que em algum momento durante tais mutações ele se encaminhou direto para sua extinção natural”.

A teoria de Inoue daria suporte ao misterioso desaparecimento da propagação da variante Delta no Japão. Enquanto grande parte do resto do mundo com taxas de vacinação igualmente altas, incluindo a Coreia do Sul e alguns países ocidentais, estão sofrendo de ondas recordes de novas infecções, o Japão parece ser um caso peculiar em que os casos de covid-19 permanecem controlados apesar dos trens e restaurantes lotados após o fim do mais recente estado de emergência.

“Se o vírus estivesse vivo e bem, os casos certamente aumentariam, pois o mascaramento e a vacinação não previnem infecções”, disse Inoue.

Não está claro por que o Japão teve essa sorte de eventos, mas nada comparável aconteceu em outros países do Leste Asiático como a Coreia do Sul, onde as populações são geneticamente próximas às do Japão.

Uma extinção natural semelhante poderia possivelmente ser observada no exterior, Inoue diz, mas nenhum outro país parece ter acumulado tantas mutações no nsp14 do vírus quanto no Japão, embora mutações semelhantes no A394V já foram descobertas em pelo menos 24 países.

“O Nsp14 funciona com outras proteínas virais e tem uma função crítica para proteger o RNA do vírus de se fragmentar. Estudos demonstraram que um vírus com nsp14 danificado tem uma capacidade significativamente reduzida de se replicar, então isso pode ser um fator por trás do rápido declínio de novos casos. O nsp14 é derivado do vírus, e o agente químico para conter essa proteína pode se tornar um medicamento promissor, com desenvolvimento já em andamento”, disse o Prof. Takeshi Urano, da Faculdade de Medicina da Universidade Shimane.

Mesmo que a teoria da extinção natural seja confirmada, é na melhor das hipóteses um adiamento temporário para o povo japonês. O Japão tem desfrutado de uma das taxas de infecção mais baixas de qualquer país avançado, mas não está imune à próxima onda da pandemia. Cepas novas e mais bem-sucedidas provavelmente chegarão ao país, embora medidas de quarentena e controle de imigração possam atrasar o surgimento de novas variantes no Japão, acredita Inoue.

“Há claramente uma ameaça”, disse. “Estávamos bem porque havia uma variante Delta. Outras variantes surgiram aos poucos, mas a Delta do Japão as estava mantendo longe. Mas porque não há nada agora para mantê-las afastadas, há espaço para novas entrarem, pois as vacinas por si só não resolveriam o problema. Nesse sentido, acho que as medidas de quarentena para o controle da imigração são muito importantes porque nunca sabemos o que vem de países estrangeiros”.

Enquanto isso, Tóquio se prepara para uma nova onda de covid-19 neste inverno e para conviver com o vírus. O governo planeja diminuir as restrições às viagens aumentando o número de ingressos diários no país de 3.500 para 5.000 pessoas.

* Com informações do The Japan Times

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