A França registra mais de 20.000 mortes confirmadas por Covid-19 em hospitais e casas de repouso. Mas o relatório do Institut Pasteur, o principal órgão de pesquisa biomédica da França, concluiu que a taxa de infecção está “muito abaixo do nível necessário para evitar uma segunda onda, se todas as medidas de controle forem levantadas”.

Alguns cientistas acreditam que, sem uma vacina, a transmissão do vírus só pode ser interrompida através da chamada imunidade de rebanho, na qual uma grande parte da população já foi infectada e o vírus não se espalha mais rapidamente.

“O nível de imunidade coletiva exigido atualmente é estimado em 70%. Portanto, grandes esforços deverão ser mantidos além de 11 de maio para evitar o ressurgimento da epidemia”, diz o relatório francês.

Dados de outros países, incluindo aqueles onde os hospitais foram sobrecarregados por pacientes da Covid-19, mostram um padrão semelhante ao da França, de níveis relativamente baixos de infecção da população.

Maria Van Kerkhove, principal pesquisadora da Covid-19 da Organização Mundial de Saúde (OMS), disse que "uma proporção menor de pessoas" está infectada do que se pensava inicialmente. "Isso significa que uma grande proporção da população permanece suscetível – e isso significa que o vírus pode decolar novamente".

A OMS disse nesta semana que testes de anticorpos do coronavírus SARS-CoV-2 indicaram que não mais de 3% das populações foram infectadas, mesmo em regiões gravemente atingidas.

Em Los Angeles, estima-se que entre 3% a 6% dos adultos tenham anticorpos contra o coronavírus. No Reino Unido, as estimativas situam-se entre 1% e 6%.

Na Dinamarca e na Noruega, é provável que menos de 5% da população tenha desenvolvido anticorpos Covid-19, deixando muito claro o risco de um grande aumento renovado de casos nesses dois países, caso a população relaxe com as medidas de distanciamento. A Suécia ainda é pior na maioria dos parâmetros nos países nórdicos, mas ainda é cedo para julgar qual estratégia foi a mais adequada.

Um modelo estatístico usado pela agência de saúde pública da Suécia sugere que cerca de um terço das pessoas em Estocolmo estarão infectadas com o vírus até 1º de maio. Estima-se que Estocolmo alcançará a imunidade de rebanho ainda em maio. Porém, outras cidades da Suécia têm taxas de infecção muito mais baixas.

A Suécia não adotou o lockdown, apesar das críticas da OMS e de outros países. Escolas, lojas, academias, restaurantes, cafés e bares suecos permanecem abertos.

Fatalidades por dia na Suécia vs a média do período 2015-2019. Reprodução: © Twitter/@AndreasSteno
Fatalidades por dia na Suécia vs a média do período 2015-2019. Reprodução: © Twitter/@AndreasSteno

Sem a imunidade do rebanho, cientistas e governantes temem que o relaxamento dos controles sobre a liberdade de movimento das pessoas leve rapidamente a novos surtos de infecções e mortes.

O professor Johan Giesecke, um dos epidemiologistas mais destacados do mundo, consultor do governo sueco, primeiro cientista-chefe do Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças, e consultor do diretor-geral da OMS, expõe com franqueza tipicamente sueca que "o achatamento da curva é devido à morte dos mais vulneráveis primeiro tanto quanto do lockdown" e argumenta que as medidas de confinamento tomadas pelo Reino Unido e outros países não foram baseadas em evidências, e sim em um artigo não publicado e que não passou por revisão de seus pares, criticando ainda que modelos não podem ser a base para politicas públicas. Giesecke defende que a política correta é proteger apenas os idosos e os vulneráveis, o que levaria à imunidade de rebanho como um sub-produto sem destruir as economias dos países.

* Com informações do Financial Times, UnHerd, Andreas Steno Larsen

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