Vacinação está se tornando uma referência onde a China se saiu mal na pandemia.

Embora o país asiático tenha se comprometido a enviar centenas de milhões de vacinas covid para o exterior, internamente a campanha de vacinação tem sido lenta.

Em dezembro, o governo chinês anunciou que planejava inocular 50 milhões de pessoas contra o coronavírus de Wuhan até 11 de fevereiro.

De acordo com um levantamento da Bloomberg, em 22 de fevereiro a China tinha aplicado cerca de 40 milhões de doses enquanto os Estados Unidos atingia 65 milhões.

"Questões de fabricação e diplomacia de exportação de vacinas certamente tiveram um papel neste desempenho inferior", concede a Bloomberg.

A questão da segurança dos imunizantes também estaria impactando o programa de vacinação, deixando de fora da campanha a maioria da população idosa, além de gestantes e pessoas sob medicação ou com comorbidades. Neste primeiro momento, o programa tem se concentrado em profissões de risco, em vez de faixas etárias.

O uso das vacinas covid das chinesas Sinopharm e Sinovac são recomendadas pelas autoridades sanitárias da China apenas para pessoas com boa saúde com idade entre 18 e 59 anos, o que exclui automaticamente aqueles que mais gostariam de serem imunizados, aponta o Financial Times.

"Mas um fator muito mais importante são as antigas preocupações chinesas sobre a segurança da vacina e os efeitos colaterais", destaca a Bloomberg.

"O fracasso dos fabricantes de vacinas Sinopharm, Sinovac e CanSino em divulgar dados abrangentes de testes prejudicou a confiança de alguns profissionais da área médica, enquanto muitos cidadãos chineses estão optando por ver primeiro se as vacinas provocam efeitos colaterais indesejados para outros", acrescenta.

Um dos motivos é o efeito corrosivo de vários escândalos que datam de quase duas décadas.

Em 2016, o governo fechou uma rede ilegal de fabricação de vacinas que estava em operação desde 2011. Uma pesquisa realizada dois meses após o incidente revelou que 16% dos pais não estavam vacinando seus filhos devido ao ocorrido.

Dois anos depois, a farmacêutica Changsheng foi acusada de falsificar dados sobre sua vacina contra a raiva e de vender vacinas ineficazes contra difteria infantil, tétano e coqueluche. Após o escândalo, uma pesquisa mostrou que cerca de 70% dos entrevistados não tinham confiança nas vacinas chinesas e mais da metade estava insatisfeita com a resposta do governo.

Já a chinesa Sinovac, desenvolvedora e fabricante da Coronavac (imunizante anunciado pelo governo paulista como "Vacina do Butantan"), em dezembro passado foi objeto de extensa reportagem investigativa do Washington Post.

O diário americano diz que a Sinovac "é boa em colocar seus produtos no mercado" e lembrou que a farmacêutica "foi a primeira a iniciar os testes clínicos de uma vacina contra a SARS em 2003 e a primeira a trazer uma vacina contra a gripe suína aos consumidores em 2009".

"Seu CEO também estava subornando o regulador de medicamentos da China para aprovações de vacinas durante aquele período, mostram registros de tribunal", acrescentou o jornal.

"Embora a corrupção e a fraca transparência tenham atormentado por muito tempo a indústria farmacêutica da China, raramente a confiabilidade de um único fornecedor de medicamentos do país teve tanta importância para o resto do mundo", destacou o Washington Post.

Durante meses, o Partido Comunista da China (PCC) promoveu seu programa de desenvolvimento de vacinas covid-19 como prova de que a indústria farmacêutica do país atingiu padrões de classe mundial.

Mas há poucas evidências de que os cidadãos chineses concordem.

Embora os estudos mostrem que a maioria dos pais ainda opta por vacinar seus filhos com os imunizantes gratuitos do governo, a maioria desses mesmos pais relata sérias preocupações sobre os efeitos colaterais (74%), segurança (64%) e eficácia (52%) das vacinas chinesas.

Essas preocupações provavelmente foram transferidas para as vacinas covid-19 desenvolvidas e fabricadas pela China.

O Financial Times relata que uma pesquisa publicada em fevereiro por um jornal médico chinês mostrou que é improvável que os profissionais de saúde queiram ser vacinados: dos 756 profissionais da área médica na província de Zhejiang, apenas 28% estão prontos para receber as vacinas. O motivo mais comum para abster-se da vacinação é a preocupação com a baixa eficácia.

“Sabemos tão pouco sobre a vacina e faltam evidências que comprovem sua segurança e eficácia. Além disso, a situação em Pequim está sob controle há algum tempo”, disse uma médica da capital ao Financial Times.

A Gavekal Dragonomics, empresa de pesquisa de mercado sediada em Pequim, apurou entre 307 profissionados entrevistados, alguns já vacinados, que mais da metade não planejava entrar na atual rodada de vacinações.

A vacinação obrigatória foi aplicada por algumas empresas estatais. Em Pequim, o governo municipal tornou a vacinação obrigatória para os motoristas de táxi.

Notavelmente, uma pesquisa da Ipsos sugeriu que 85% dos chineses tem intenção de ser imunizados, colocando-os entre os mais dispostos do mundo. Mas o estudo não perguntou aos participantes quando pretendiam ser vacinados.

Abram Wagner, um epidemiologista da Universidade de Michigan que estuda a hesitação da população chinesa de ser vacinada, explicou à Bloomberg que é muito diferente responder uma pesquisa indicando que receberia a vacina em comparação com estar no trabalho e aceitar a aplicação do imunizante.

Segundo a Bloomberg, para o público geral um fator que pode explicar a diferença são notícias recorrentes sobre a venda de vacinas covid falsificadas na China. Por exemplo, quando as autoridades desmantelaram uma rede criminosa que vendeu 58.000 doses falsas, a divulgação dessa operação policial, por si só, foi suficiente para fazer alguns chineses hesitarem ao se depararem com um frasco e uma agulha.

"Para aumentar a confiança nas vacinas e nas empresas de vacinas do país, há muito sitiadas", pondera a Bloomberg, "ajudaria se os líderes da China assumissem uma posição mais pública em apoio às vacinas, incluindo eventos divulgados nos quais eles recebem a vacina".

"É o tipo de exercício de construção de confiança que as elites chinesas geralmente não realizam".

Produção de vacinas

A Sinopharm e a Sinovac juntas disseram que teriam capacidade para produzir 2 bilhões de doses até o final do 2021. Se atingirão a meta é incerto: a Sinovac está produzindo a uma taxa diária bem abaixo de sua capacidade declarada, informa o Financial Times.

Os fabricantes também enfrentam escassez de frascos para armazenar as vacinas. O produto é importado e de fornecimento particularmente restrito, pois a vacina Sinopharm usa um frasco de dose única. Em contraste, cada frasco da vacina BioNTech / Pfizer contém cinco ou mais doses, enquanto um frasco da vacina Oxford / AstraZeneca contém 10 doses.

A Sinopharm e a Sinovac também precisam equilibrar a demanda doméstica com seus compromissos globais. O Ministério das Relações Exteriores da China prometeu 10 milhões de doses para o programa global de vacinação Covax, que fornecerá vacinas principalmente aos países de baixa renda. Além disso, os fabricantes chineses prometeram mais de 500 milhões de doses em acordos bilaterais e entregaram apenas 20 milhões de doses, de acordo com a Gavekal.

Antes de 6 de fevereiro, quando a vacina da Sinovac foi autorizada na China, apenas uma única vacina, desenvolvida pela Sinopharm, estava disponível para uso geral no país. Dois imunizantes adicionais – um de dose única, produzido pela CanSino, e um segundo, da Sinopharm – foram autorizados para uso emergencial na quinta-feira (25), elevando para quatro o número de vacinas disponíveis.

* Com informações do Washington Post, Japan Times, Bloomberg, Financial Times

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