Atualizado em 02/09/2021

O experimento de Xi para espalhar a riqueza enviou ondas de choque através da economia, gerando especulações de que a China reverterá as reformas que aumentaram a renda nacionalmente e criaram uma classe de bilionários.

“A prosperidade comum é a prosperidade de todos. Não é a prosperidade só de algumas pessoas”, defende o presidente chinês.

A ideia de “prosperidade comum” foi originalmente introduzida em documentos do Partido Comunista por Mao Tsé-Tung para refletir a busca por uma sociedade mais igualitária. O termo caiu em desuso com Deng Xiaoping, que trocou o foco do desenvolvimento para uma economia que pudesse permitir que “algumas pessoas ficassem ricas primeiro”. A prosperidade comum, ele disse, poderia vir depois.

Xi parece ter a intenção de redesenhar o contrato social da China. O velho mantra de que alguns “ficarão ricos primeiro” está dando lugar a um credo mais justo.

Em junho, o governo designou Zhejiang, a terceira província mais rica da China, para conduzir políticas destinadas a reduzir a desigualdade.

Em julho, as metas foram detalhadas.

O plano sugere que Pequim quer aumentar a renda por meio de investimentos do setor privado em áreas mais pobres e incentivar os residentes rurais a iniciar seus próprios negócios. A redistribuição radical da riqueza, ou um estado de bem-estar social ao estilo europeu, financiado por fortes impostos, não fazem parte do plano.

Como na maioria dos países, a maior lacuna nos padrões de vida na China está entre as grandes cidades e os povoados agrícolas.

Nacionalmente, a renda dos moradores da cidade é quase três vezes maior que a dos residentes rurais. Zhejiang é uma província relativamente igualitária. No final de 2020, os residentes urbanos ganhavam em média o dobro dos moradores rurais.

A proposta original previa reduzir esse fator para 1,9 em cinco anos mas a província já ultrapassou essa meta, com a diferença caindo para 1,8.

O plano também exige a redução da desigualdade entre as cidades e o aumento da participação da remuneração do trabalho no PIB para mais de 50%.

Zeng Gang, professor de estudos urbanos na East China Normal University que participou do planejamento, explica que as metas são uma projeção das tendências atuais, de forma que "não haverá problema em alcançá-las".

A província pretende ser 75% urbana em 2025, contra 72% em 2020, impulsionada pelo investimento estatal em infraestrutura. A renda média está projetada para aumentar a uma taxa anual composta de 7,4% nos próximos quatro anos.

As fábricas de eletrônicos, têxteis e móveis situadas em áreas rurais foram o principal motor de crescimento de Zhejiang na década de 1980. Na décadas seguintes, houve um movimento de mudança das empresas do campo para as cidades, agravando a divisão urbano-rural.

Mas um núcleo de negócios permaneceu e, na última década, desenvolveu o turismo e as economias agrícolas para atender aos recém-abastados moradores das cidades. O plano de Zhejiang prevê apoio às empresas rurais existentes e o retorno da manufatura.

Para tanto, o governo pode ordenar que seus bancos ofereçam empréstimos mais atrativos para empresas rurais e direcionar estatais para construir infraestrutura rural, mesmo com baixos retornos.

Zhejiang também deverá investir mais em saúde e educação para fortalecer a força de trabalho.

As metas educacionais contemplam desde redução dos custos do jardim de infância a 70% dos estudantes em idade universitária cursando o ensino superior até 2025. O nível atual de cerca de 62% já está acima da média de 58% no clube de nações ricas da OCDE.

Na área de saúde, o plano prevê que os melhores hospitais urbanos se expandam para áreas rurais.

Com trabalhadores saudáveis e qualificados, não há necessidade de assistencialismo estatal, ponderam as autoridades. A China não pode se dar ao luxo de "alimentar os preguiçosos", disse Han Wenxiu, diretor adjunto do principal comitê de assuntos econômicos do Partido Comunista da China, a repórteres na semana passada, descrevendo o "assistencialismo" como uma "armadilha".

Tendo alcançado a meta de construir uma sociedade moderadamente próspera, "vamos tornar o bolo maior e dividi-lo bem", disse Wenxiu.

Em uma série de artigos, o Xinjiang Economic Daily defendeu que a China precisa "prevenir a armadilha do alto bem-estar" e "evitar enfatizar demais o conforto material". Para o jornal, o governo precisa implementar políticas que incentivem o alcance da riqueza por meio de trabalho e inovação.

Yuan Jiajun, Secretário do Partido Comunista de Zhejiang, descreve o crescimento econômico como a "pedra angular" da prosperidade comum, e uma economia em crescimento torna mais fácil reduzir as desigualdades sem causar conflito.

"A prosperidade comum é uma expressão concentrada da superioridade do sistema socialista com características chinesas e uma transcendência da modernização ocidental e da sociedade de bem-estar", explica Yuan.

O plano também prevê que empresários ricos doem mais de sua riqueza para a sociedade.

Zhejiang é o lar de pelo menos 10 multimilionários, de acordo com dados coletados pela Bloomberg, com um patrimônio líquido combinado de US$ 236 bilhões.

Xi disse que as empresas e os indivíduos serão motivados por pressão social e obrigação moral.

Pequim também pode ser muito persuasiva.

Na quinta-feira (2), o grupo Alibaba prometeu doar RMB 100 bilhões (US$ 15,5 bilhões), o equivalente a cerca de dois terços de sua receita líquida no ano passado, para projetos que apóiem o pedido do Presidente Xi Jinping por mais "prosperidade comum", com o objetivo de neutralizar o escrutínio de Pequim sobre o setor de tecnologia.

O grupo confirmou que cumpriu a promessa feita por seu maior rival, a Tencent, que disse no mês passado que dobraria a quantia que está doando para programas de responsabilidade social de RMB 100 bilhões.

Segundo o Zhejiang Daily, o Alibaba distribuirá o dinheiro ao longo de cinco anos em uma série de projetos que se alinham com os objetivos da política de Pequim, incluindo iniciativas para reforçar os serviços digitais e médicos em áreas rurais.

Já a Pinduoduo, empresa de compras online em rápido crescimento, anunciou a doação de RMB 10 bilhões de seus lucros presentes e futuros aos agricultores.

Enquanto isso, a pressão sobre o setor de tecnologia aumentou na quinta-feira (2), quando os reguladores estabeleceram para 11 das maiores empresas de aplicativos de transporte da China, incluindo Didi e Meituan, um prazo de quatro meses para "retificar" o tratamento dispensado a seus funcionários e clientes.

A justiça chinesa proibiu na semana passada a polêmica política de horas extras "996", segundo a qual muitos funcionários do setor de tecnologia trabalham das 9h às 21h, seis dias por semana, sugerindo que Pequim pode genuinamente ter a intenção de melhorar a vida dos trabalhadores de menor renda do país.

O risco é alimentar um preconceito contra a iniciativa privada. Quase todas as empresas do setor de tecnologia – como Alibaba, Tencent, Meituan, Didi e outras – que passaram pelo escrutínio regulatório nas últimas semanas são privadas.

* Com informações do The Japan Times, The Financial Times (FT)

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