Neil Ferguson, professor de epidemiologia no Imperial College London, disse em um vídeo divulgado pela universidade que apenas as infecções de alta gravidade estavam sendo diagnosticadas na China.

Em Wuhan, os números oficiais de casos confirmados podem capturar apenas 1 em 19 infecções, de acordo com um artigo publicado pelo Prof. Ferguson.

Os profissionais de saúde se queixam do trabalhoso, burocrático e lento procedimento para realizar testes embora apenas 10% dos casos estão sendo corretamente detectados, segundo o Prof. Ferguson.

Vários pacientes disseram ao Financial Times que estavam esperando por um diagnóstico oficial devido à falta de kits de teste.

O Financial Times destacou a situação de Luo Jun, uma mulher de 45 anos de Wuhan sofrendo de pneumonia viral grave. Com veículos banidos das ruas, ela lutou para percorrer a pé os 5 km até um hospital. Após enfrentar filas, foi submetida a um exame de imagem (CT) que confirmou a pneumonia. Mas Luo foi informada de que teria que voltar às 9h do dia seguinte para entrar em uma fila novamente para fazer um teste para confirmação de ser um caso de coronavírus.

"Eu estou muito cansada. Meu corpo inteiro está sem energia”, disse Luo ao Financial Times. Em vez de tentar voltar ao hospital, ela aguardava em casa, assegurada pelas autoridades locais de que estava em uma lista de espera para fazer o teste.

A Comissão Nacional de Saúde da China obriga que os médicos realizem dois testes com um dia de intervalo antes de diagnosticar a infecção.

Primeiro é enviada uma amostra para o Centro de Controle de Doenças local e depois uma outra para o CDC provincial.

Os testes de coronavírus detectam corretamente resultados positivos em apenas 20% a 30% das vezes, explicou à imprensa local o Dr. Tong Chaohui, consultor do governo chinês. Hospitais melhores podem atingir 50% de detecção, mas os menos sofisticados podem identificar apenas 1 caso em 10 positivos, acrescentou.

Bharat Pankhania, da escola de medicina da Universidade de Exeter, disse que os países com sistemas de saúde subdesenvolvidos normalmente têm "instalações mínimas para testes e registro central de dados, o que pode significar uma subestimação grosseira do número de pessoas infectadas".

Cabe notar que sob uma nova orientação da Comissão Nacional de Saúde da China, os médicos chineses não podem mais registrar testes positivos de pacientes assintomáticos como casos confirmados ou casos suspeitos.

Para Nathalie MacDermott, do King's College London, não incluir casos assintomáticos ou minimamente sintomáticos é um procedimento incorreto no contexto de rastreamento de uma epidemia. "Não apenas distorce os números para o monitoramento da epidemia, mas ignora importantes grupos quando se trata de entender a propagação da infecção”, disse ao FT.

Uma pesquisa recente sobre as características clínicas da doença, conduzida por um grupo de autores como Zhong Nanshan, especialista líder no vírus, revelou que o período de incubação do COVID-19 é de zero a 24 dias, bem acima do período de 14 dias recomendado por especialistas. A análise foi realizada com uma amostra de 1.099 casos de pneumonia por coronavírus coletados em 552 hospitais em 31 províncias da China.

O Dr. Wang Linfa, diretor do programa de doenças infecciosas emergentes  da Duke-NUS Medical School, em Cingapura, está convencido de que há  muitas infecções leves. "Casos leves não vão ao hospital e ainda há muitos casos a serem confirmados", disse ele, observando que os laboratórios chineses estão lutando para realizar os testes em meio a uma escassez de kits de teste.

Em Hubei, o departamento de saúde da província diz que os laboratórios podem executar 6.000 testes por dia, mas mesmo com a equipe trabalhando 24 horas, não há laboratórios suficientes para acompanhar a carga de trabalho.

Mais crucialmente, Hubei está com falta de kits de teste e reagentes. Apenas sete fabricantes têm aprovação do governo para fabricar kits para o coronavírus. Seus funcionários estão trabalhando horas extras para entregar os kits, de acordo com reportagens locais. Mais kits de teste desenvolvidos recentemente estão em andamento, mas não está claro quando eles estarão prontos para uso.

"As estatísticas oficiais mostram que a taxa de crescimento do coronavírus atingiu o pico há alguns dias. Muitos esperam que este seja um sinal de que o pior do coronavírus está para trás. Mas estão surgindo mais evidências de que essas estatísticas não são as medidas do crescimento do vírus, mas a capacidade do sistema de saúde chinês de lidar com esse problema"

Jim Bianco, Bianco Research

O Dr. Joseph Tsang Kay Yan, especialista em doenças infecciosas em Hong Kong, disse que as autoridades de saúde na China deveriam usar os kits de testes mais amplamente para obter uma imagem mais clara da epidemia. Ele alertou que a principal desvantagem do uso da tomografia computadorizada é a não detecção de pacientes com sintomas leves, aumentando o risco de disseminação da infecção.

Em um estudo publicado pela revista Radiology, os pesquisadores descobriram que dos 21 pacientes com coronavírus na China no mês passado, três inicialmente tinham tomografia computadorizada do tórax normal. "Não podemos confiar apenas na tomografia computadorizada para excluir totalmente a presença do vírus", disse o principal autor do estudo, Michael Chung, professor assistente do Departamento de Radiologia Diagnóstica, Intervencionista e Molecular do Sistema de Saúde Mount Sinai, em Nova York.

Contudo, no procedimento atual as amostras enviadas para análise de COVID-19 são aquelas de pacientes que acusam a possível doença nos dois pulmões em exame de imagem, funcionando na prática como uma triagem para reduzir a carga dos laboratórios e o uso de kits de teste.

O diretor-geral da OMS, Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, que viajou a  Pequim para conversar com o presidente Xi Jinping e ministros chineses  no final de janeiro, voltou com um acordo sobre o envio de uma missão  internacional.

Mas levou quase duas semanas para obter a luz verde  do governo chinês sobre a composição da missão, que não foi anunciada, a  não ser para dizer que o veterano da OMS Dr. Bruce Aylward, um  epidemiologista canadense, estava no comando.

Amesh Adalja,  pesquisador sênior do Johns Hopkins Center for Health Security, disse  que a equipe poderá investigar não apenas como o vírus se espalha, mas  também a gravidade do surto.

"Há muitas perguntas e mistérios sem resposta sobre como esse surto está ocorrendo e as ações que o governo chinês está tomando", disse à Al Jazeera.

Na notificação oficial, o número de novos casos de COVID-19 caiu pela metade em Wuhan e Hubei em uma semana.Os camaradas responsáveis pelo feito foram demitidos pelo PCC. Reprodução Twitter/CGTN © China Global Television Network

Torturando os números

Nesta quinta-feira (13), o número de novas infecções na província de Hubei saltou em um único dia em 15 mil casos, quando as autoridades de saúde ampliaram os critérios usados para confirmar a doença. O número de vítimas fatais aumentou 242. No dia anterior, tinham sido reportadas 94 vítimas e 1.638 casos, no que seria o sétimo dia seguido de queda de infecções do COVID-19.

A Comissão Provincial de Saúde de Hubei disse que o número inclui 13.332 casos diagnosticados clinicamente, que foram vistos como confirmados na quinta-feira.

Basicamente, as autoridades chinesas estão informando os pacientes diagnosticados com achados do COVID-19 e com indicações de pneumonia dupla em exames de imagem e na contagem de leucócitos, antes de ser obtida a comprovação em teste específico realizado em dois laboratórios, um teste que tem apresentado problemas de baixa detecção, além da falta de kits e lotes defeituosos.

Os novos números pressionaram os mercados, pois os investidores estavam confiantes que o crescimento de infecções já havia atingido o pico, conforme sinalizava a narrativa do governo. They should know better.

"Isso certamente não parece bom ... pode haver um caso sério de subnotificação", disse Stephen Innes, estrategista-chefe de mercado da AxiCorp.

De fato, a subnotificação não seria surpresa para o mercado financeiro, dado os rumores alarmantes que circulam na Internet, alguns impulsionados por conhecidos especuladores, com nome e endereço, que alegam ter 'fontes seguras', provavelmente um dos motivos do governo chinês ter censurado as redes sociais.  

O próprio Wall Street Journal tem denunciado a exploração do surto por especuladores, dizendo que o disparo fora da China é o do preço da ações dos fabricantes de suprimentos hospitalares e o do lucro das farmácias.

Mas, suprimido o ruído dos interesses inconfessáveis, a situação em Wuhan é gravíssima, como até as agências de notícias estatais da China tem mostrado.

A partir de hoje (13) os departamentos de efeitos especiais de Hubei e Wuhan estão sob a direção de novos criativos.Reprodução Youtube/RT
A partir de hoje (13) os departamentos de efeitos especiais de Hubei e Wuhan estão sob a direção de novos criativos.Reprodução Youtube/RT

PCC

O Partido Comunista da China (PCC) tenta administrar uma onda de raiva da população ao lidar com a emergência.

O PCC hoje (13) substituiu o chefe do partido em Hubei, Jiang Chaoliang, por Ying Yong, prefeito de Xangai, um burocrata próximo do Presidente Xi Jinping.

Ma Guoqiang, chefe do partido em Wuhan, também foi demitido e substituído pelo ex-prefeito de Jinan na província de Shandong, Wang Zhonglin.

No início desta semana, altos funcionários da comissão de saúde de Hubei – Zhang Jin, secretário do partido e Liu Yingzi, diretor, também foram demitidos e substituídos por um funcionário da Comissão Nacional de Saúde da China.

As autoridades chinesas agora estão tentando impôr “informações autorizadas” e “recuperar o controle da opinião pública”.

As agências de notícias estatais e comerciais foram instruídas a se  concentrar em histórias positivas sobre os esforços de alívio ao vírus.

O  Departamento de Publicidade do Partido Comunista disse que enviou mais  de 300 repórteres a Wuhan para "fornecer forte apoio à opinião pública"  para alcançar as metas de desenvolvimento econômico e social deste ano.

As  medidas seguem a diretiva do presidente Xi Jinping, que disse que o  governo precisava intensificar a propaganda e fortalecer o controle da  mídia on-line para manter a estabilidade social em meio à crise do  coronavírus, segundo a agência de notícias estatal Xinhua.

Não são apenas vidas, a saúde e a economia que estão ameaçadas pelo COVID-19.

A atual crise de saúde pública da China pode abalar a confiança do povo no sistema de governo centralizado e autoritário.

* Com dados e informações do Financial Times, The New York Times, China Global Television Network

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