A Shell está mantendo discussões com várias gigantes petrolíferas estatais chinesas para vender a sua participação de 27,5% na Sakhalin Energy Investment Company Ltd (Sakhalin Energy).

As tradings japonesas Mitsubishi Corp. e Mitsui & Co. possuem um total de 22,5% do projeto Sakhalin. A maioria do gás produzido lá é fornecido ao Japão. A fábrica de exportação de gás liquefeito de petróleo (LNG) começou a operar em 2009 e rapidamente se tornou um dos projetos mais confiáveis ​​para Tóquio.

A russa Gazprom detém os 50% restantes.

O Ministro do Comércio Koichi Hagiuda declinou comentar os detalhes das "discussões comerciais individuais" da Shell com as empresas chinesas, um negócio avaliado pelo mercado em US$ 4,1 bilhões.

No início de março, Koichi Hagiuda defendeu que o Japão deve proteger sua segurança energética. As sanções à Rússia serão inúteis se o Japão sair dos projetos apenas para outro país tomar seu lugar, ponderou o ministro.

Empresas e consórcios japoneses decidiram manter suas participações nos projetos russos Sakhalin 1 e 2 e Arctic LNG 2. Os projetos de exportação de petróleo e gás natural liquefeitos da Rússia são geograficamente próximos do Japão e estrategicamente importantes para a nação asiática.

O Japão não pode facilmente substituir seus ativos de petróleo e gás russos.

Para o país, possuir ativos de energia é muito mais importante do que apenas ter contratos de fornecimento — isso lhes dá um assento na mesa e ajuda a garantir que o combustível será realmente entregue.

No total, o Japão tem cerca de US$ 8,4 bilhões em investimentos em instalações de energia russas, relata a Bloomberg.

O Primeiro-Ministro Fumio Kishida adotou um discurso forte contra Moscou, mas disse no mês passado que o Japão não deve se retirar dos empreendimentos russos devido à sua importância estratégica para a nação pobre em recursos.

Tóquio busca uma forma de pressionar Moscou, para atender aos aliados, ao mesmo tempo em que o Japão continua a importar gás natural e petróleo da Rússia em meio a uma crise global de oferta.

No início deste mês, Kishida tomou uma decisão surpresa de que o Japão proibirá as importações de carvão russo, mas tem evitado restrições semelhantes em outros combustíveis.

A saída de projetos russos de LNG forçaria o Japão a adquirir mais gás no mercado spot, aumentando preços que já estão sendo negociados em níveis recordes.

"Se o Japão deixar um projeto, então um terceiro pode adquiri-lo", disse na sexta-feira (22) o Ministro do Comércio em Tóquio. "A saída de projetos de energia na Rússia aumentaria ainda mais os preços, e não seria uma estratégia de sanção eficaz".

O interesse da China, em permanente conflito com o Japão, em adquirir uma participação abandonada em um projeto russo de exportação de gás natural liquefeito agrega justificativas para que o Japão continue sua joint venture com a Gazprom.

Apesar da propaganda, as sanções ordenadas pelo governo dos EUA e pela Comissão Europeia não estão sendo acolhidas por aliados e países-membros quando os danos às próprias nações são maiores que os potenciais prejuízos impostos à Rússia.

Preocupação de segurança nacional

Em seu relatório anual de defesa de 2021, a China é a principal preocupação de segurança nacional do Japão.

O documento enfoca as ameaças pela atuação militar da China na região Ásia-Pacífico (APAC), avaliação compartilhada por outros vizinhos, mas não abertamente, tendo em vista as capacidades coercitivas chinesas.

Ao enumerar a escalada das atividades agressivas chinesas na região, o Japão enfatiza a necessidade de prestar mais atenção às tendências emergentes de deterioração das relações EUA-China. Taiwan é crítica para a segurança do Japão e para a estabilidade da comunidade internacional.

"Se um grande problema ocorresse em Taiwan, não seria demais dizer que poderia estar relacionado a uma situação de risco de sobrevivência (para o Japão)", disse o Vice-Primeiro-Ministro do Japão, Taro Aso, em julho de 2021.

"Precisamos pensar muito que Okinawa pode ser o próximo", acrescentou Aso.

A disputa pelas ilhas Senkaku / Diaoyu irrompeu na década de 1970, mas a disputa territorial entre o Japão e a China havia começado antes, por Okinawa, logo após a Segunda Guerra Mundial.

Militares americanos e japoneses começaram a planejar um possível conflito no último ano do governo Trump.

Os navios de guerra do Japão estão excepcionalmente armados. A frota japonesa opera 36 contratorpedeiros e fragatas modernas além de 22 dos maiores submarinos de ataque diesel-elétricos do mundo. Também estão em processo de conversão dois de seus porta-helicópteros em porta-aviões, embarcando caças F-35B.

Diplomatas americanos e japoneses estão examinando as questões jurídicas relacionadas a qualquer ação militar conjunta, incluindo acesso a bases.

A maior parte das forças dos EUA no oeste do Pacífico partem de bases americanas em solo japonês, incluindo a base aérea de Kadena em Okinawa, a base aérea de Misawa em Honshu e os portos japoneses, incluindo Yokosuka e Sasebo.

O uso das bases aumenta a probabilidade de que Tóquio seja arrastada para o conflito, especialmente se a China tentar destruir as instalações.

Atualização 27/04/2022

Moscou anunciou nesta quarta-feira (27) que está expulsando oito diplomatas japoneses em uma resposta às expulsões por Tóquio.

O Ministério das Relações Exteriores da Rússia acusou Tóquio de "tomar medidas sem precedentes nas relações russo-japonesas modernas" e de "abandonar relações amistosas e construtivas com a Rússia", seguindo um "curso anti-russo abertamente hostil". Os enviados do país devem partir até 10 de maio.

No início deste mês, o Japão expulsou oito diplomatas russos e anunciou que vai acabar com as importações de carvão russo.

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