As autoridades sanitárias da China, que tentam conter um surto de coronavírus de rápida expansão, recém-nomeado Coronavirus Disease of 2019 (COVID-19) pela OMS, estão registrando principalmente os casos graves da doença, usando critérios que podem não contabilizar pacientes infectados com sintomas leves, de acordo com especialistas familiarizados com os esforços de vigilância.

Os chineses estão testando apenas as pessoas que estão doentes o suficiente para procurar assistência médica porque estão com pneumonia - um critério que exclui automaticamente qualquer pessoa no extremo ameno do espectro da doença.

A abordagem, disseram os especialistas ao STAT, provavelmente está resultando em uma subestimação no número total de casos e em suposições equivocadas sobre as taxas de mortalidade calculadas por aqueles que ignoram a advertência de que é muito cedo para fazer isso.

Da parte das autoridades chinesas, não seria uma abordagem deliberada, mas prova de como a coleta de dados pode ser desafiadora durante uma epidemia. Quando milhares de pessoas doentes aparecem em hospitais em busca de atendimento, não haveria tempo para procurar pessoas com sintomas leves, que permanecem em casa sem assistência médica.

Além disso, a capacidade do sistema de saúde de testar o coronavírus é limitada e nunca pode haver mais casos novos do que o máximo de exames por dia. "Uma coisa é poder relatar 5 casos em um dia e 10 casos em 3-5 dias depois", diz Michael Mina, epidemiologista da T.H. Chan School of Public Health de Harvard. "Mas relatar 5.000 novos casos em um dia e 10.000 casos em 3-5 dias depois, exige uma expansão maciça de recursos que simplesmente não existem".

Fazer suposições com base na taxa de aumento no número de casos confirmados seria um equívoco. Os dados são pouco confiáveis, há atrasos nos relatórios e muitas pessoas cujos sintomas são mínimos ou que não apresentam sintomas podem não estar passando por testes, alertam os especialistas.

  • É uma situação muito diferente do surto de SARS de 2002-2003, por exemplo, quando a maioria das pessoas infectadas acabou no hospital, observou o Dr. Gabriel Leung, da Universidade de Hong Kong.
  • "A aparência dos casos exportados, eu acredito, apóia o argumento de que há muitos casos leves que não estão sendo detectados na China no momento pelo bom motivo de que eles simplesmente não podem fazê-lo", disse o Dr. Allison McGeer, que combateu a SARS em Toronto e ajudou a conter surtos hospitalares de MERS na Arábia Saudita. Tanto a SARS como a MERS são coronavírus, relacionados ao COVID-19, também chamado de Novel Coronavirus Pneumonia (NCP).
  • O Dr. Wang Linfa, diretor do programa de doenças infecciosas emergentes da Duke-NUS Medical School, em Cingapura, está convencido de que há muitas infecções leves. "Casos leves não vão ao hospital e ainda há muitos casos a serem confirmados", disse ele, observando que os laboratórios chineses estão lutando para realizar os testes em meio a uma escassez de kits de teste.
  • Algumas das respostas que a China não pode dar atualmente virão da observação do que acontece com os casos exportados, disse o Dr. David Heymann, que supervisionou a resposta à SARS da OMS e agora leciona na Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres. "Agora vamos realmente começar a ver as coisas".

Entre outros fatores, os epidemiologistas estão interessados no que é conhecido como "taxa de ataque" do vírus, a porcentagem de pessoas que desenvolverão a doença se ela se espalhar.

Mistérios

Oficialmente, estima-se que 20% dos casos na China estão gravemente doentes, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Mas esse cálculo é derivado com base em casos conhecidos e não reflete os leves e não detectados.

O diretor-geral da OMS, Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, que viajou a Pequim para conversar com o presidente Xi Jinping e ministros chineses no final de janeiro, voltou com um acordo sobre o envio de uma missão internacional.

Mas levou quase duas semanas para obter a luz verde do governo chinês sobre a composição da missão, que não foi anunciada, a não ser para dizer que o veterano da OMS Dr. Bruce Aylward, um epidemiologista canadense, estava no comando.

Amesh Adalja, pesquisador sênior do Johns Hopkins Center for Health Security, disse que a equipe poderá investigar não apenas como o vírus se espalha, mas também a gravidade do surto.

"Há muitas perguntas e mistérios sem resposta sobre como esse surto está ocorrendo e as ações que o governo chinês está tomando", disse à Al Jazeera.

Redes sociais

Naturalmente, quem está vivenciando a emergência de saúde, como os moradores das cidades chinesas em quarentena, tem percepção muito diferente da extensão da epidemia e das ações governamentais em execução, raramente em concordância com estatísticas e comunicados oficiais elaborados para consumo da imprensa.  

Por um tempo, as plataformas de redes sociais, rigidamente controladas pelo governo da China, hospedaram discussões surpreendentemente francas sobre o surto de coronavírus. O país também assistiu algum jornalismo contundente da imprensa comercial fazendo perguntas que desafiavam as narrativas oficiais.

Entretanto, com as evidências crescentes apontando para um acobertamento inicial pelos governos da província de Hubei e Wuhan, e por autoridades nacionais de saúde, não foi surpresa quando a Administração do Ciberespaço da China (CAC) anunciou que tinha punido várias plataformas e usuários de redes sociais.

  • A CAC disse que "supervisionou e orientou" gigantes chineses da Internet como Sina, Tencent e Bytedance –  os proprietários de algumas das plataformas sociais mais populares do país (Weibo, WeChat e Douyin / TikTok, respectivamente), e que puniu usuários por "reportar independentemente contra regulamentos" e espalhar informações falsas.
  • A empresa Baidu, operadora do serviço de busca dominante da China, foi convocada para retificar o que a CAC descreveu como gerenciamento indulgente de informações ilegais postadas por seus usuários.
  • O Weibo chegou a registrar inúmeras reclamações sobre contas do WeChat, um serviço similar ao Twitter com mais de 1 bilhão de usuários, que foram suspensas por "espalhar boatos maliciosos", mas as queixas foram removidas.
  • A CAC também removeu aplicativos das lojas de apps, entre eles, o popular Pipi Gaoxiao, por "postar vídeos perigosos e espalhar medo e pânico" sobre o surto.
  • Notícias da crise do coronavírus, incluindo um relatório do respeitado site financeiro Caijing sobre casos de infecção não documentados em Wuhan, foram bloqueados ou removidos das plataformas de mídia social.
  • Conversas sobre a morte do médico Li Wenliang também desapareceram. O médico ficou conhecido como um dos primeiros a compartilhar informações sobre o coronavírus antes de ser repreendido pela polícia de Wuhan por isso. A morte de Li pelo vírus provocou tristeza em todo o país, levando à tendências de hashtags do Weibo, incluindo "O governo Wuhan deve a Li Wenliang um pedido de desculpas" e "Quero liberdade de expressão". As páginas que incluiram as hashtags foram prontamente removidas.
  • A rede social chinesa Douban desativou o recurso Diário, que serviu de plataforma para alguns usuários para narrar a vida em uma cidade sob quarentena.

O órgão regulador também exigiu das autoridades locais "criar um bom ambiente no ciberespaço para vencer a batalha contra a epidemia de [coronavírus]".

Em 24 de janeiro, Chen Qiushi chegou a Wuhan para ver com os seus próprios olhos o que se passava na cidade epicentro da contaminação com o novo coronavírus mortal. Nas redes sociais, ele denunciava as dificuldades da China.

Chen Qiushi visitou necrotérios, hospitais e áreas de isolamento, revelando na Internet as condições precárias que encontrava, como a falta de medicamentos.

Chen desapareceu sem deixar rastro. Após um apelo da mãe do ativista ter viralizado, ela foi informada pelas autoridades chinesas que o filho tinha sido detido para cumprir quarentena, apesar de não revelarem onde.

"Estamos preocupados com a sua segurança física, mas também preocupados que, enquanto estiver desaparecido, possa ser infetado pelo vírus",  disse à CNN um amigo que assumiu a sua conta no Twitter. Não é a primeira vez que Chen entra em rota de colisão com as autoridades chineses. Em agosto, visitou Hong Kong e denunciou a  violência da polícia chinesa contra manifestantes. Foi chamado a Pequim e todas as suas contas nas redes sociais foram apagadas.

Capacidade de governança

As autoridades chinesas agora estão tentando impôr “informações autorizadas” e “recuperar o controle da opinião pública”.

As agências de notícias estatais e comerciais foram instruídas a se concentrar em histórias positivas sobre os esforços de alívio ao vírus.

O Departamento de Publicidade do Partido Comunista disse que enviou mais de 300 repórteres a Wuhan para "fornecer forte apoio à opinião pública" para alcançar as metas de desenvolvimento econômico e social deste ano.

As medidas seguem a diretiva do presidente Xi Jinping, que disse que o governo precisava intensificar a propaganda e fortalecer o controle da mídia on-line para manter a estabilidade social em meio à crise do coronavírus, segundo a agência de notícias estatal Xinhua.

Não são apenas vidas, a saúde e a economia que estão ameaçadas pelo COVID-19.

A atual crise de saúde pública da China pode abalar a confiança do povo no sistema de governo centralizado e autoritário.

Em reunião do Comitê Permanente do Politburo do Partido Comunista Chinês, o mais alto conselho de governo do país, o Presidente Xi e outros líderes reconheceram que a epidemia representa "um grande teste do sistema e da capacidade de governança da China”, reportou a Xinhua.

* Com informações do SCMP, WSJ, Jornal de Notícias, Stat News, Al Jazeera

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