É a primeira vez que um órgão governamental discute publicamente que há preocupações sobre a eficácia das vacinas chineses.

A pandemia de coronavírus, que começou na China central em outubro de 2019, marca a primeira vez que a indústria farmacêutica chinesa desempenha um papel na resposta a uma emergência de saúde global.

Pequim distribuiu milhões de doses em outros países, ao mesmo tempo que busca promover dúvidas sobre a eficácia das vacinas ocidentais.

Os ensaios clínicos da vacina da Pfizer-BioNTech mostraram eficácia de 95%.

As vacinas chinesas “não têm taxas de proteção muito altas”, reconheceu Gao.

O chefe do CDC da China não deu detalhes sobre mudanças na estratégia, mas mencionou o mRNA, uma técnica experimental usada por desenvolvedores de vacinas ocidentais, enquanto os fabricantes da China usam tecnologia de imunização com mais de 50 anos.

Os principais imunizantes aprovados para uso na China são as tradicionais vacinas de “vírus inativado” produzidas pela Sinopharm, Sinovac e outros grupos nacionais.

"Agora está sob consideração formal se devemos usar vacinas diferentes de linhas técnicas diferentes para o processo de imunização", disse Gao.

Gao propôs misturar diferentes tipos de vacinas e também alterar o número e a quantidade das doses e o intervalo entre elas.

Anteriormente, Gao havia levantado questões sobre a segurança das vacinas de mRNA. Ele foi citado pela agência oficial de notícias Xinhua dizendo em dezembro que não poderia descartar os efeitos colaterais negativos porque as vacinas estavam sendo usadas pela primeira vez em pessoas saudáveis.

Em uma coletiva de imprensa neste domingo (11), um funcionário do CDC China, Wang Huaqing, disse que os desenvolvedores chineses estão trabalhando em vacinas de mRNA e já entraram em fase de ensaio clínico.

Algumas das postagens em rede social sobre os comentários de Gao foram rapidamente censuradas, observou Yanzhong Huang, pesquisador sênior de saúde global do Conselho de Relações Exteriores.

"É a primeira vez . . . uma autoridade do governo admitiu publicamente que a taxa de proteção é uma preocupação na campanha de vacinação”, disse Huang.

Ao contrário de outros desenvolvedores de vacinas, os fabricantes da China não publicaram dados de ensaio clínico de fase 3, levando a questionamentos de falta de transparência sobre a eficácia da vacina em diferentes grupos.

A vacina CoronaVac da Sinovac Biotech tem uma taxa de eficácia de 50,6% em pessoas com idade entre 18 e 60 anos, de acordo com documentos publicados por um painel de especialistas de Hong Kong. Sua durabilidade é desconhecida.

No Brasil, a chinesa CoronaVac tem sido promovida pelo governo paulista como a "Vacina do Butantan". O ensaio clínico de fase 3 com voluntários brasileiros sugeriu eficácia na prevenção de infecções sintomáticas tão baixa quanto 50,4%, no limiar de reprovação da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da Anvisa.

Um porta-voz da Sinovac, Liu Peicheng, reconheceu que vários níveis de eficácia foram observados, atribuindo à idade das pessoas, à cepa do vírus e outros fatores.

Liu disse que novos estudos mostraram que a proteção "pode ser melhor" se o tempo entre as vacinações for maior do que os atuais 14 dias, mas não deu nenhuma indicação de que isso pode ser uma prática padrão.

Peter English, um consultor de controle de doenças transmissíveis da Public Health England, disse ao Financial Times que é “surpreendente” que os dados do ensaio de fase 3 para as vacinas chinesas ainda não tenham sido publicados.

English disse que é “interessante” a China estar considerando misturar e combinar vacinas após as mudanças da França e da Alemanha para fazê-lo devido a preocupações de segurança com a vacina da AstraZeneca.

Qualquer nova estratégia terá ramificações para os mais de 20 países que a China disse estar fornecendo, principalmente em acordos bilaterais de “diplomacia de vacinas”.

O Chile está enfrentando outra onda de infecções apesar da campanha bem-sucedida. O país administrou 62 doses por 100 residentes, de acordo com o rastreador de vacinas do Financial Times, a terceira maior taxa do mundo.

Um estudo recente sobre a eficácia do programa de vacinação do Chile descobriu que a eficácia de uma única dose da CoronaVac é de apenas 3%, em comparação com 56% com duas injeções. Os especialistas não vincularam a onda recente à baixa taxa de eficácia da vacina chinesa.

Gao também alertou que a reabertura das fronteiras da China para estrangeiros, que estão impedidos de entrar no país desde março do ano passado, representa um risco para os idosos, que ainda não foram vacinados – na China, a prioridade de vacinação não foi estabelecida por faixa etária.

Segundo o Dr. Babak Javid, pesquisador principal da Tsinghua University School of Medicine, Pequim, e consultor em doenças infecciosas dos hospitais da Universidade de Cambridge, é sabido que as "vacinas inativadas tendem a funcionar menos bem em idosos".

O momento do relaxamento das restrições de fronteira afetará os participantes dos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim, em fevereiro de 2022.

Atualização 11/04

Em "entrevista exclusiva" ao Global Times, jornal ligado ao Partido Comunista da China, o diretor do CDC chinês refutou a interpretação de "baixa taxa de proteção das vacinas chinesas".

Gao neste domingo  (11) refutou as afirmações de alguns meios de comunicação e usuários de plataformas de mídia social no exterior de que ele "admitiu" que as vacinas chinesas têm uma baixa taxa de proteção, dizendo que "é um completo mal-entendido”.

Gao Fu disse que enquanto os cientistas de todo o mundo discutem a eficácia das vacinas, ele ofereceu uma visão científica: para melhorar a eficácia, o ajuste dos procedimentos de vacinação e a inoculação sequencial de diferentes tipos de vacinas podem ser opções.

"As taxas de proteção de todas as vacinas no mundo são às vezes altas, às vezes baixas. Como melhorar sua eficácia é uma questão que precisa ser considerada por cientistas de todo o mundo", disse Gao.

“Nesse sentido, sugiro que possamos considerar o ajuste do processo de vacinação, como o número de doses e intervalos e a adoção da vacinação sequencial com diferentes tipos de vacinas”, acrescentou.

"Esta é também a primeira vez que humanos foram vacinados com uma nova vacina contra o coronavírus. Todos os procedimentos de vacinação que adotamos até agora foram baseados em extrapolações anteriores de inoculação de outras vacinas de vírus, e essa extrapolação funcionou muito bem", disse Gao. “Mas, no futuro, se precisarmos fazer melhorias, podemos fazer ajustes com base nas características do novo coronavírus e na situação de vacinação”.

O requisito da OMS para a eficácia de uma vacina covid é de 50% ou mais, e o limite qualificado para a maioria das vacinas no mundo a serem comercializadas é de cerca de 70% ou mais.

* Com informações do Financial Times, AP, Global Times

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