Moderada por Monika Benstetter, a coletiva da EMA na terça-feira (11) consistiu de uma breve atualização do Dr. Marco Cavaleri sobre os desenvolvimentos recentes seguida de uma sessão de perguntas e respostas com a participação de um painel de jornalistas.

Cavaleri iniciou sua apresentação dizendo que espera um "rápido crescimento das taxas de infecção em todos os Estados-Membros" da União Europeia (UE), "em grande parte impulsionado pela circulação contínua da variante Delta e pela rápida disseminação da variante Ômicron em muitos países".

Contudo, ele apontou a necessidade de mais dados sobre o impacto da Ômicron na eficácia dos imunizantes aprovados para uso no bloco, bem como uma melhor compreensão da evolução epidemiológica da atual onda, para definir a urgência de uma vacina com uma composição diferente.

Após o surto da variante Ômicron, os desenvolvedores de vacinas concentraram seus esforços em uma vacina variante monovalente – uma vacina que visa apenas essa variante de preocupação.

As vacinas multivalentes podem proteger contra várias variantes ao mesmo tempo, pois conteriam antígenos de diferentes cepas preocupantes do vírus SARS-CoV-2.

"Muitos elementos precisam ser levados em consideração, principalmente o fato de que, no momento em que qualquer vacina adaptada ao Ômicron for desenvolvida, é possível que o quadro epidemiológico na UE tenha evoluído significativamente em termos de variância circulante e exposição natural ao Ômicron", ponderou o especialista.

"Embora uma vacina monovalente Ômicron represente uma candidata óbvia a ser investigada, outras opções, como uma vacina multivalente, não podem ser descartadas como alternativas potenciais", ressaltou o chefe de vacinas da EMA.

"Nossa conversa com os desenvolvedores de vacinas está em andamento, caso haja necessidade de tal mudança. Isso inclui concordar com o desenho do estudo clínico para a vacina atualizada em investigação que devemos cobrir, no mínimo, os cenários de administração de reforço após a vacinação homóloga ou heteróloga".

A ideia de experimentar vacinas que visam várias variantes do vírus foi levantada durante a reunião da Coalizão Internacional de Autoridades Reguladoras de Medicamentos (ICMRA).

O Grupo Técnico Consultivo sobre Composição da Vacina Covid-19 (TAG-CO-VAC), estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), já manifestou interesse no desenvolvimento de vacinas multivalentes.

O pedido de vacinas multivalentes para os desenvolvedores ocorre quando os reguladores de medicamentos buscam estabelecer uma estratégia de longo prazo de combate ao vírus, para o qual a administração de repetidas doses de reforço, uma solução simplista para um problema complexo, não é sustentável ou eficaz.

Cavaleri reconheceu que está ficando cada vez mais claro que os reforços são necessários para restaurar e estender a proteção da vacina e sua eficácia, mas advertiu que "vacinações repetidas em intervalos curtos não representam uma estratégia sustentável de longo prazo".

"Estamos bastante preocupados com uma estratégia que envolve a vacinação repetida em um curto prazo. Portanto, isso é algo que deve fazer parte de uma estratégia abrangente sobre qual poderia ser a melhor estratégia de vacinação ao longo do tempo, deixando claro que não podemos realmente dar uma dose de reforço continuamente a cada três ou quatro meses", afirmou Cavaleri.

O especialista admite que mesmo uma tal estratégia pode não ter o efeito pretendido.

"Se tivermos uma estratégia em que damos reforços, digamos a cada quatro meses aproximadamente, acabaremos potencialmente tendo problemas com a resposta imunológica, e a resposta imunológica pode acabar não sendo tão boa quanto nós gostariamos que fosse", disse Cavaleri. Portanto, devemos ter cuidado para não sobrecarregar o sistema imunológico com imunizações repetidas".

Um segundo fator a considerar para tomar decisões sobre doses adicionais, admite Cavaleri, é "o risco de fadiga na população com a contínua administração repetida de reforços".

"Agora, como dito, se a situação do ponto de vista epidemiológico é tal que pode ser a melhor opção na mesa, então pode ser feito uma ou talvez duas vezes, mas não é algo que podemos pensar que deve ser repetido constantemente e seria muito melhor começar a pensar em uma administração de reforços mais espaçados no tempo", disse Cavaleri. "Então, idealmente, se queremos avançar para um cenário de endemicidade, esses reforços devem ser sincronizados com a chegada da estação fria em cada um dos hemisférios, à semelhança do que estamos fazendo com as vacinas contra influenza".

Para Cavaleri, com o aumento da imunidade da população, e com a Ômicron haverá muita imunidade natural além da vacinação, caminhando rapidamente para um cenário mais próximo da endemicidade.

Cavaleri também falou sobre a relação entre o nível de anticorpos no sangue e o grau de proteção contra a covid-19.

"Não temos uma proteção colateral, então não temos uma quantidade exata de anticorpos que podem ser ligados e traduzidos em um certo nível de proteção contra infecções, doenças sintomáticas ou doenças graves", disse o especialista.

"O que sabemos é que os anticorpos neutralizantes se correlacionam com a proteção, mas é muito difícil encontrar um limite que defina quem está protegido daqueles que não estão protegidos, por isso temos que ter muito cuidado para não interpretar demais a quantidade de anticorpos circulantes, pois pode ser enganoso", alertou.

"Estamos vendo, em nível individual e também em ensaios clínicos, pessoas que tiveram um nível bastante alto de anticorpos neutralizantes, mas ainda foram infectadas. E vice-versa. Indivíduos com baixo nível de anticorpos neutralizantes que não contraíram covid-19 durante os testes, então acho muito difícil neste momento considerar qualquer estratégia com relação a doses de reforço que estariam associadas ao nível de anticorpos circulantes", observou Cavaleri.

Atualização 19/01/2022

Na coletiva de imprensa da EMA de terça-feira (18), Cavaleri disse que é importante “não excluir nenhuma opção [...] para ter um portfólio de opções que posteriormente podem ser tomadas como base para a decisão sobre qual vacina colocar no mercado”.

“Ao mesmo tempo, gostaríamos de ter mais reflexão sobre o que mais poderia ser considerado neste momento”, acrescentou. “As empresas devem explorar a viabilidade de desenvolver vacinas variantes bivalentes ou multivalentes”.

Ele explicou que o próximo passo é “determinar se elas ofereceriam vantagens às vacinas monovalentes em termos de capacidade de neutralização cruzada de outras variantes preocupantes”.

Cavaleri disse que os membros do ICMRA concordam que "do ponto de vista global, a administração de doses múltiplas de reforço em curtos intervalos não será sustentável a longo prazo".

Ele descreveu como não apenas "desafiador do ponto de vista operacional" executar campanhas de vacinação repetidas por ano, mas a falta de experiência prévia lidando com outras doenças com essa abordagem tornaria "difícil prever seu impacto global".

"A administração repetida de reforços com intervalo muito curto pode reduzir o nível de anticorpos", disse Cavaleri, expressando preocupação de que isso poderia potencialmente resultar em que as vacinas se tornassem menos efetivas ao longo do tempo.

Ele reafirmou que, caso a revacinação repetida seja necessária no futuro para toda a população ou para alguns grupos, como pessoas imunossuprimidas ou idosos, "pode ser desejável sincronizar as vacinas com a chegada da estação fria, da mesma forma que é feito para a gripe, de modo a aumentar a resposta de anticorpos no momento em que é mais necessário".

Atualização 03/02/2022

Nesta quinta-feira (3), a EMA anunciou em rede social que revisará todos os dados emergentes sobre o uso de uma segunda dose de reforço das atuais vacinas covid.

"No momento, não há evidências suficientes que possam apoiar qualquer recomendação.", ressaltou a agência europeia.

A EMA esclareceu que em pessoas com sistema imunológico gravemente enfraquecido que receberam uma série primária de 3 doses de vacina de mRNA, "uma 4ª dose é considerada a 1ª dose de reforço e já é recomendada".


Transcrição da abertura da coletiva de 11 de janeiro

Hello everyone and a warm welcome to our first regular press briefing on covid-19 vaccines and therapeutics in 2022.

This is Monika Benstetter in Amsterdam. It's my pleasure to present our panel.

We have with us today Dr. Marco Cavaleri, the Head of Biological Health Threats and Vaccines Strategy and also the Chair of EMA's pandemic task force, we have Dr. Fergus Sweeney, the Head of Clinical Studies and Manufacturing Task Force and Dr. Georgy Genov, the Head of Pharmacovigilance.

Dr. Cavaleri will kick off today's briefing with a short update on recent developments. We then open the floor to your questions to our panelists.

The footage can be used free of charge by all media organizations.

And now, without any further ado, I will hand over to Dr Cavaleri for his update.

Dr. Cavaleri, please.

Cavaleri - Good afternoon everyone and thank you for joining our first regular covid-19 press briefing in the new year.

I would like to address a few important topics before we open the floor for your questions.

So first the epidemiological situation continues to be very wary in the European Union. We are seeing rapidly growing infection rates across all the Member States. The situation is largely driven by the continued circulation of the Delta variant and rapidly increasing spread of the Omicron variant in many countries.

The highly transmissible Omicron variant was first detected in Europe at the end of last year it is now spread quickly across our continent. It is fast becoming the dominant variant.

It appears Omicron causes less severe disease than the Delta variant. Studies from South Africa, UK and some european countries are showing that the risk of being hospitalized after infection with Omicron is decreased to approximately half compared to the Delta variant. However more precise data, including data in vulnerable groups, are needed to confirm that the severity is indeed lower.

Omicron apparently presents some differences in the way it infects cells after binding to the ACE2 receptor which could lead to a reduced spread of the disease into the lungs. On the other hand, Omicron is highly contagious resulting in high numbers of infected individuals. So it is very important to be aware of its potential burden and not to dismiss it as a mild disease.

More data are awaited to fully characterize the behavior of this variant.

Preliminary results from recently published studies are showing that the vaccine effectiveness against the symptomatic disease is significantly reduced for Omicron and tends to wane over time. The study suggests that more vaccinated people will develop a breakthrough infection and disease resulting from Omicron due to the immune evasion associated with this variant.

When it comes to severe disease and hospitalization linked to the Omicron variant, the emerging evidence, including real world effectiveness data, suggests that covid-19 vaccine continue to provide high protection.

Data from South Africa indicate the people who have received two doses of covid-19 vaccine have up to 17% protection from hospitalization. Similar data were coming from the UK that showed the world protection declines after a few months after vaccination, it rises up again to 90 percent after a booster shot.

This confirms the importance for you citizen to complete their primary vaccination with one of the vaccines authorizing the EU and for those eligible to get a booster shot now.

More data on the impact of Omicron on the effectiveness of the approved vaccines as well as a better understanding of the epidemiological evolution of the current Omicron wave are needed to define how urgently an adaptive vaccine with a different composition is warranted.

Many elements need to be taken into consideration notably the fact that by the time any vaccine adapted to Omicron is developed it is possible that the epidemiological picture in the EU will have significantly evolved in terms of circulating variance and natural exposure to Omicron.

While a monovalent Omicron vaccine would represent an obvious candidate to be investigated other options such as a multivalent vaccine cannot be ruled out as potential alternatives.

Our conversation with vaccine developers are ongoing in case there is a need to for such a change. This includes agreeing on the clinical study design for the investigational updated vaccine we should cover as a minimum the scenarios of booster administration after homologous or heterologous vaccination.

We are also discussing with developers feasibilities or studies where a variant vaccine is used in a primary vaccination cycle.

Any change would have to be coordinated globally. This is why EMA in its role as chair of the International Coalition of Medicine Regulatory Authorities (ICMRA) have called for a meeting of global regulators which we will be co-hosting together with our colleagues from the FDA tomorrow.

I would like to talk more about boosted doses now.

It is becoming increasingly clear that boosters are needed to extend vaccine protection and their effectiveness because this wanes over time, typically after around five to seven months with Delta and faster with Omicron.

The data on the impact in real life shows that giving a booster dose strengthen the immune response even behind what was seen with initial course and restores or extends protection.

The booster campaigns are well underway in the European Union and we know one key question on people's mind is now "when will booster be recommended for people below 18 years of age?".

Currently EMA has received and is evaluating an application to extend the use of boosted dose for Comirnaty, the Pfizer/BioNTech  vaccine, to adolescents from 16 to 17 years of age and we are expecting that the company will submit shortly a similar application for a booster in 12 to 15 years old.

EMA will review this application in an accelerated manner with the objective to reach an opinion as soon as possible.

Additionally there is an emerging discussion around the possibility of giving a second booster dose with the same vaccine currently in use. Data have not yet been generated to support this approach.

While use of an additional booster chart could be considered as part of a contingency plan, repeated vaccinations within short intervals would not represent a sustainable long-term strategy.

Recently we have seen rapid spread of infections in younger age groups. Even though covid-19 is generally mild in children of all ages for some it can lead to severe disease hospitalization and even death.

Data from the United States showed that the negative impact of covid-19 on children is larger than for a whole range of other vaccine-preventable diseases such as hepatitis and chickenpox and influenza.

In november EMA recommended approval of the first covid-19 vaccine for using children 5 to 11. The evidence so far indicates the covid-19 vaccines are as effective in children as they are in adults and that they prevent most cases of covid-19 that would occur without vaccination.

Data showed that vaccines are highly effective at preventing hospitalization and other consequences of covid-19 such as the multisystem inflammatory syndrome.

Safety data is reassuring. Severe side effects in children are very rare. Similarly to adults most side effects of covid-19 vaccines in children are mild or moderate and get better within a matter of few days.

We particularly looked at myocarditis and pericarditis, which are inflammatory conditions affecting the heart. Very rare cases have occurred in adolescents and adults after vaccination with messenger RNA vaccines. Data from large vaccination campaigns indicate that the frequency of these side effects in younger children is significantly lower than in adolescents and adults.

I would also like to touch upon covid-19 vaccination and pregnancy.

We know this is an area where the information provided to women was initially limited since pregnant women were not typically included in the clinical trials which led to the approval of the vaccines. However now further data is now available on the safety and effectiveness of covid-19 vaccine during pregnancy.

EMA's Covid-19 Task Force (COVID-ETF) is therefore reviewing the results of several studies involving over 100.000 pregnancies at different stages. Current evidence on safety and effectiveness of mRNA vaccine using pregnant women is very reassuring and indicating the covid-19 vaccine reduce the risk of hospitalization or death during pregnancy without causing pregnancy complications or harming the unborn child.

We have also requested companies to submit reviews of all available data on safety and effectiveness of covid-19 vaccine in pregnant and lactating women. Our scientific committee CHMP will be discussing potential updates of the product information to provide up-to-date information to both pregnant women and to health care professionals.

Pregnant women are more likely to get severely ill from covid-19 when compared to those that are not pregnant. Those who get infected with covid-19 during pregnancy are also at increased risk for preterm birth and stillbirth and might be at increased risk for other pregnancy complications. Vaccination is the best way to get both mother and child effectively protected and should be pursued as soon as possible.

Before I conclude I would like to give a short update on Paxlovid (nirmatrelvir and ritonavir), an antiviral that can be taken orally by people who are at home but might be a risk that the disease becomes worse.

Following the start of the rolling review in the middle of december EMA has now received a formal application for a marketing authorization for this antiviral. EMA will assess the benefits and risk of Paxlovid under a reduced timeline and could issue an opinion as soon as possible and within weeks.

The surge of Omicron as also has an impact on the authorized treatments against covid-19. It is expected that many neutralizing antibodies will lose their efficacy against Omicron.

Sotrovimab (Veklury) appears to be the only EU approved monoclonal antibody that can neutralize the new variant.

Oral and intravenous antivirals such as Paxlovid and Remdesivir -- the active substance of Veklury, maintain their efficacy against Omicron and can provide an additional tool to limit the burden of disease associated with this variant.

I will stop here and give the floor back to our moderator.

Thank you.

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