Sem novos investimentos, até 2030 cerca de 80% do fornecimento de gás do Reino Unido e mais de 70% do petróleo terão que ser provenientes do exterior, afirma o relatório Business Outlook 2022 da UK Offshore Energies Association (OEUK).

Embora existam reservas suficientes de petróleo e gás no Mar do Norte para suportar o Reino Unido por pelo menos 15 anos, houve muito pouco investimento nas plataformas, gasodutos e outras infraestruturas necessárias para acessá-las.

O investimento no setor de petróleo e gás britânico caiu de cerca de £ 16 bilhões em 2014 para £ 5,5 bilhões em 2019 e uma previsão de £ 4 bilhões este ano.

Números recentes mostram que a quantidade de gás da Noruega excedeu os suprimentos nacionais pela primeira vez. O Reino Unido consumiu 76 bilhões de metros cúbicos (bcm) dos quais 32bcm eram noruegueses e 29bcm eram da plataforma continental da Grã-Bretanha.

Em 2021, o Reino Unido importou 62% do gás consumido e 18% do petróleo.

Atualmente, o gás é usado para atender mais de 40% da demanda de eletricidade do Reino Unido.

"Cerca de 75% da energia total do Reino Unido vem do petróleo e gás – 2% acima do ano passado. Isso porque 80% das nossas casas são aquecidas por gás, que também é usado para gerar 42% da nossa eletricidade. Também temos 32 milhões de veículos que dependem de gasolina e diesel", explica Ross Dornan, gerente de inteligência de mercado da OEUK.

Planos de contigência

À medida que o governo britânico analisa maneiras de aumentar o fornecimento de energia elétrica e estender a vida útil de usinas de carvão e nucleares, autoridades em Whitehall disseram que poderá haver escassez de gás no Reino Unido se a Rússia cortar o fornecimento para a União Europeia (UE).

De acordo com planos elaborados pelo governo, a eletricidade poderá ter que ser racionada para até seis milhões de moradias no início do próximo ano.

A escassez de energia, além de fazer com que os preços voltem a subir, levará o produto interno bruto (PIB) a ficar abaixo do previsto para os anos seguintes.

O Secretário de Negócios Kwasi Kwarteng procurou os proprietários das três usinas geradoras a carvão restantes do Reino Unido, em Drax, Ratcliffe e West Burton, e pediu que permanecessem em operação, apesar das decisões anteriores de fechá-las em setembro e eliminá-las até 2024 para reduzir as emissões de carbono.

O governo também está conversando com a gigante do gás Centrica para reativar uma instalação de armazenamento na costa leste da Inglaterra. A reabertura da instalação, custando mais de £ 1 bilhão em subsídios, ocorre depois que ela foi fechada em 2017 por ser muito cara para manter.

Importações de gás

Embora o Reino Unido compre apenas 4% de seu gás natural da Rússia, há preocupações com as importações de gás norueguês, que atualmente responde por mais de 60% de seus suprimentos totais.

As importações britânicas de gás natural da Noruega poderão cair para 30% no próximo inverno em meio ao aumento da demanda da UE, conjectura o governo.

Os embarques de gás natural liquefeito (LNG) de grandes produtores como os Estados Unidos e o Qatar também podem reduzir pela metade neste inverno, alertou o governo do Reino Unido, apontando para uma concorrência global feroz pelo fornecimento do combustível.

Há expectativa ainda que os interconectores da Holanda e da Bélgica sejam cortados no inverno, à medida que os dois países lutam para atender à sua própria demanda.

A modelagem governamental de um "cenário razoável" no pior dos casos prevê uma severa escassez de gás no inverno se a Rússia cortar mais fornecimentos para a União Europeia, diz o The Times.

Nesse cenário, instalações industriais poderão ser orientadas a parar de usar gás, enquanto usinas poderão ser fechadas para preservar estoques limitados, resultando em escassez de eletricidade, com as famílias britânicas sujeitas a apagões em dias úteis durante os horários de pico (7h-10h e 16h-21h), diz relatório do governo. O fornecimento de gás para as moradias não seria afetado, segundo o The Times.

No pior cenário modelado, a Rússia corta todos os fornecimentos para a UE.

Nessa situação, os apagões britânicos poderão durar três meses, começando em dezembro, e ocorrer tanto em dias úteis quanto em finais de semana.

Questionado sobre os planos do governo, um porta-voz de Whitehall disse: "Eu acho que você esperaria que o governo olhasse para uma série de cenários para garantir que os planos sejam robustos, não importa o quão improváveis eles sejam de ocorrer. Nem o governo nem a National Grid esperam cortes de energia neste inverno".

Anos 70

O Primeiro-Ministro Boris Johnson teria aberto uma reunião do Gabinete na semana passada perguntando aos ministros: "Quantos de vocês realmente se lembram dos anos 1970?"

Ele se referia a uma época em que mineiros em greve piquetearam usinas em uma disputa salarial, levando a apagões e forçando as empresas a fechar.

O primeiro-ministro na época, Edward Heath, introduziu a semana de três dias em dezembro de 1973 para preservar os estoques de carvão.

Quase todas as empresas tiveram que limitar seu uso de eletricidade a três dias por semana e foram proibidas de operar por longas horas naqueles dias.

"Como um governo responsável, é certo que planejemos para cada cenário extremo, por mais improvável que seja", disse uma fonte de Whitehall ao The Times.

"A Grã-Bretanha está bem preparada para qualquer disrupção de fornecimento. Ao contrário dos países da UE, nossas reservas de gás do Mar do Norte estão sendo bombeadas a todo vapor, plataformas norueguesas estão diretamente conectadas ao Reino Unido e temos a segunda maior infraestrutura de importação de LNG da Europa – enquanto a Alemanha não tem nenhuma. Dada a dependência histórica da UE do gás de Putin, o inverno pode ser muito difícil para os países do Continente”, acrescentou.

Atualização 01/06/2022

A francesa Électricité de France (EDF) indicou que não estenderá mais uma vez a vida útil de uma de suas usinas nucleares no Reino Unido.

Em um memorando enviado aos funcionários na segunda-feira (30), a empresa confirmou a desativação dos dois reatores de Hinkley Point B, em Somerset, sudoeste da Inglaterra, que estão programados para serem desligados em 8 de julho e 1 de agosto.

A central nuclear de Hinkley Point B produziu 310 TWh desde 1976 e operou 15 anos a mais (50%) do que o previsto no projeto, com sua vida útil estendida em 1996, 2006 e 2016.

O desligamento dos reatores reduzirá em quase 1 GW a oferta de energia elétrica do Reino Unido, o suficiente para abastecer 1,5 milhão de moradias.

Um porta-voz do governo comentou: "Quaisquer extensões às datas operacionais das usinas nucleares do Reino Unido são uma questão para o operador, EDF, e o regulador, Office of Nuclear Regulation, e são baseadas em considerações de segurança. O governo não tem envolvimento direto nesse processo e não fez nenhum pedido desse tipo".

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