O novo currículo escolar foi adotado em maio do ano passado, tornando a Califórnia o primeiro estado dos EUA a oferecer um “modelo estadual de estudos étnicos para educadores”, disse o Conselho na época.

O currículo modelo oferece aos professores uma série de “afirmações, cânticos e energizadores” para serem usados em sala de aula para “unir a turma, construir unidade em torno dos princípios e valores dos estudos étnicos e revigorar a sala após uma aula emocionalmente desgastante ou mesmo quando o envolvimento dos alunos pode parecer baixo”.

O currículo inclui a “Afirmação In Lak Ech”, baseada nas crenças astecas sobre o mundo e sua origem. A diretriz descreve-o como uma adaptação “em forma poética, rítmica, de música hip hop” do conceito asteca de quatro movimentos ou quatro épocas, o Nahui Ollin. O canto centra-se na ideia de unidade entre si e outra pessoa.

A releitura de Nahui Ollin apresenta quatro princípios de autorreflexão, aprendizagem de história, criatividade e autorrenovação. No entanto, eles foram nomeados após divindades astecas. Então, quando os alunos durante a afirmação In Lak Ech chamam seu lado criativo, por exemplo, eles também invocam Huītzilōpōchtli, o deus asteca da guerra, do sol e do sacrifício humano.

Os alunos primeiro aplaudem e cantam para o deus Tezcatlipoca – a quem os astecas tradicionalmente adoravam com sacrifício humano e canibalismo – pedindo-lhe o poder de ser “guerreiros” pela “justiça social”. Em seguida, os alunos cantam aos deuses Quetzalcoatl, Huītzilōpōchtli e Xipe Totec, buscando “epistemologias de cura” e “um espírito revolucionário”. Huītzilōpōchtli, em particular, é a divindade asteca da guerra e inspirou inumeros sacrifícios humanos durante o domínio asteca. Finalmente, o cântico chega ao clímax com um pedido de “libertação, transformação e descolonização”, após o qual os alunos gritam “Panche beh! Panche beh!” em busca da “consciência crítica e ativismo”.

"Panche Bé se traduz como buscar as raízes da verdade, e a verdade das raízes, e se relaciona com profundo pensamento crítico/consciência crítica e ativismo", explica o capítulo 5 (Lesson Resources) do currículo modelo de estudos étnicos.

Os pais também questionaram os cânticos à divindades da mitologia africana iorubá, na chamada “Afirmação de Ashe”.

Além de suas características sagradas, o Ashe possui importantes ramificações sociais, refletidas em sua tradução como “poder, autoridade, comando”.

Os demandantes na ação judicial, representados pela Thomas More Society, alegaram que o Conselho de Educação da Califórnia (CDE) estava de fato introduzindo orações no currículo, violando a constituição estadual, forçando os alunos a cantar para divindades.

As escolas públicas californianas estão proibidas de conduzir orações cristãs.

“As orações astecas em questão – que buscam bênçãos e a intercessão dessas forças demoníacas – não estavam sendo ensinadas como poesia ou história”, disse o advogado Paul Jonna, sócio da LiMandri & Jonna LLP e Thomas More Society Special Counsel, em um comunicado.

Jonna destacou que os astecas realizavam “atos horríveis” a fim de apaziguar os deuses entoando os cânticos que o currículo escolar promovia.

“O sacrifício humano, cortar corações, esfolar vítimas e usar a pele delas são uma questão de registro histórico, juntamente com sacrifícios de prisioneiros de guerra e outros atos e cerimônias repulsivas que os astecas faziam para honrar suas divindades”, lembrou o advogado.

A Thomas More Society entrou com a ação em setembro de 2021, representando pais em nome da Californians for Equal Rights.

O conselho escolar rejeitou a alegação de que seu curso modelo tinha aspectos religiosos e disse que visava ajudar as escolas a ter “discussões locais sobre a expansão das ofertas de estudos étnicos”. O programa foi apresentado como abrindo caminho para “confrontar e, finalmente, transformar o racismo em nossa sociedade e em nosso Estado”. O currículo apresenta a educação não como um meio de alcançar a competência, mas como uma “ferramenta de transformação, mudança social, econômica e política e libertação”.

O co-presidente do currículo, R. Tolteka Cuauhtin, desenvolveu grande parte do material sugerindo a ideia de que cristãos, especificamente os de ascendência europeia, são vistos como a fonte do mal a ser resistida e derrubada.

Em seu livro Rethinking Ethnic Studies, que é citado em todo o currículo, Cuauhtin argumenta que os Estados Unidos foram fundados em uma sociedade “eurocêntrica, supremacista branca (racista, anti-negra, anti-indígena), capitalista (classista), patriarcal (sexista e paradigma misógino), heteropatriarcal (homofóbica) e antropocêntrica trazida da Europa”.

Na narrativa religiosa, Cuauhtin desenvolveu uma “mandala” relacionada, alegando que os cristãos brancos cometeram “teocídio” contra tribos indígenas, matando seus deuses e substituindo-os pelo cristianismo. Os colonos brancos estabeleceram, assim, um regime de “colonialidade, desumanização e genocídio”, caracterizado pelo “apagamento explícito e substituição da indigeneidade e humanidade holísticas”.

A solução, segundo o currículo modelo para o sistema de ensino fundamental e médio californiano, que consiste em 10.000 escolas públicas que atendem a um total de 6 milhões de alunos, é “nomear, falar, resistir e transformar a condição neocolonial eurocêntrica hegemônica” em uma postura de “resistência transformacional”. O objetivo final é “descolonizar” a sociedade americana e estabelecer um novo regime de “contragenocídio” e “contra-hegemonia”, que deslocará a cultura cristã branca e levará à “regeneração da futuridade epistêmica e cultural indígena”.

Em termos teóricos, o currículo é baseado na “pedagogia do oprimido”, desenvolvida pelo teórico marxista brasileiro Paulo Freire, que defendia que os alunos devem ser educados sobre sua opressão para atingir a “consciência crítica” e, consequentemente, desenvolver a capacidade de derrubar seus opressores.

Seguindo essa dialética, o currículo modelo instrui os professores a ajudar os alunos a “desafiar crenças racistas, preconceituosas, discriminatórias, imperialistas/coloniais” e criticar “supremacia branca, racismo e outras formas de poder e opressão”. Essa abordagem, por sua vez, permite que os professores inspirem seus alunos a participar de “movimentos sociais que lutam por justiça social” e “construam novas possibilidades para uma sociedade pós-racista e pós-racismo sistêmico”.

O objetivo final, segundo Cuauhtin, é arquitetar um “contragenocídio” contra os brancos, escreveu o jornalista investigativo Christopher Rufo sobre o assunto no City-Journal em março do ano passado.

Rufo celebrou o acordo em rede social, acrescentando que justificava sua reportagem e envergonhava aqueles que a consideravam falsa.

"Parabéns ao advogado @PaulJonna, que representou os pais e obrigou o Estado da Califórnia a abandonar o currículo controverso, que violava o direito de consciência dos alunos. Quando os pais defendem seus filhos, eles vencem", escreveu Rufo.

"Quase me esqueci: Snopes certa vez chamou minha reportagem sobre o canto asteca de 'falsa'. Eles estavam errados na época; mas, dado que a Califórnia o removeu, eles estão duplamente errados agora. Repito: checagem de fatos é a forma mais baixa de jornalismo", acrescentou Rufo.

Sob os termos do acordo judicial com o Estado da Califórnia, os cânticos controversos devem ser excluídos do currículo modelo. As autoridades educacionais não comentaram o resultado do litígio. Um dos demandantes, José Velázquez, disse que o acordo foi um alívio para as famílias e observou que “foi necessária uma coalizão multirracial de indivíduos com diferentes origens e crenças para mover uma montanha para desafiar o aparato educacional estatal”.