A pesquisa foi conduzida pelo YouGov usando um questionário online no final de janeiro/início de fevereiro. No Brasil foram consultadas 2.022 pessoas.

A 11º edição do Digital News Report, com base em dados de 46 mercados, que representam mais da metade da população mundial, documenta que a conexão entre o jornalismo e grande parte do público está desgastada.

"Encontramos interesse em declínio nas notícias, menor confiança, bem como um crescimento em evasão de notícias entre alguns grupos. Grande número de pessoas vêem a mídia como sujeita a influência política indevida, e apenas uma pequena minoria acredita que a maioria das organizações de notícias coloca o que é
melhor para a sociedade à frente de seu próprio interesse comercial", destacou o Prof. Rasmus Kleis Nielsen, Diretor do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo (RISJ).

O jornalismo profissional sempre foi o grande condutor das discussões da sociedade, mas pautas recorrentes e excesso de cobertura estão causando fadiga na audiência, levando um número crescente de pessoas a se afastar das notícias.

O consumo de veículos tradicionais, como TV e mídia impressa, diminuiu ainda mais no último ano em quase todos os mercados, mas o conteúdo online não
preencheu a lacuna, aponta o relatório do instituto. Enquanto a maioria dos consumidores de notícias permanece engajada, outros estão se afastando e, em alguns casos, desconectando-se das notícias completamente. O interesse por notícias caiu entre os mercados pesquisados de 63% em 2017 para 51% em 2022.

No Brasil, a proporção daqueles muito ou extremamente interessados em notícias caiu de 82% em 2015 para 57% em 2022.

A proporção dos entrevistados que dizem que evitam notícias dobrou tanto no Brasil (54%) quanto no Reino Unido (46%) nos últimos cinco anos.

© 2022 Reuters Institute for the Study of Journalism
© 2022 Reuters Institute for the Study of Journalism

Os evitadores de notícias dão uma variedade de razões para seu comportamento.

Em todos os mercados, 43% dos entrevistados dizem que evitam notícias pela agenda repetitiva e negativa – especialmente em torno de pandemia e política.

Cerca de 36% consideram que as notícias tem efeito negativo no humor e 29% dizem que muitas vezes se sentem desgastados pela quantidade.

Deve-se destacar que 29% dos respondentes acreditam que notícias não são confiáveis ou são tendenciosas. Parte dessa erosão de credibilidade talvez possa ser creditada ao expediente da participação constante dos mesmos "especialistas", chamados a opinar porque alinhados com o pensamento do veículo.

Embora o relatório reconheça o desgaste da conexão entre o jornalismo praticado atualmente e grande parte do público, o Instituto Reuters insiste na fórmula.

"Assuntos que os jornalistas consideram mais importantes, tais como crises políticas, conflitos internacionais, pandemias e catástrofes climáticas, parecem ser precisamente o que estão afastando as pessoas das notícias", diz a publicação.

"Muitas organizações estão adotando abordagens como soluções em torno de assuntos como a mudança climática, que visam dar às pessoas um senso de esperança. Outras estão procurando encontrar maneiras de ampliar a pauta para assuntos mais leves ou tornar as notícias mais relevantes em um nível pessoal", concede o texto.

"mas haverá um limite para o quão longe os jornalistas podem ir – ou devem ir – para fazer as notícias mais palatáveis", diz o relatório.

"Um outro ponto importante diz respeito à dificuldade que públicos mais jovens, e grupos menos educados, têm em entender o jornalismo praticado atualmente. Em países como Austrália, Estados Unidos e Brasil, cerca de 15% de evitadores mais jovens dizem que acham notícias difíceis de entender – uma proporção muito maior do que os consumidores de notícias mais velhos", acrescenta.

Credibilidade

O estudo informa que preocupações globais sobre informações falsas e enganosas permanecem estáveis este ano. Na maioria dos países, as pessoas dizem ter visto mais informações falsas sobre coronavírus do que sobre política.

No Brasil, a confiança geral nas notícias caiu -6%, para 48%, em meio a uma corrida presidencial antecipada e altamente polarizada. O País recuou sete posições no ranking e agora ocupa o 14º lugar entre os 46 mercados pesquisados.

Os noticiários das redes de televisão SBT, Record e Bandeirantes e os jornais impressos de abrangência local ou regional registraram o maior nível de credibilidade entre todos os veículos brasileiros, tradicionais e online, que foram incluídos no questionário da pesquisa. Os jornais impressos locais e regionais obtiveram a menor proporção de falta de confiança nas notícias que publicam.
Ranking de confiança entre veículos selecionados para a pesquisa
Ranking de confiança entre veículos selecionados para a pesquisa. © 2022 Reuters Institute for the Study of Journalism

Fontes de notícias

O acesso às notícias continua a ser mais distribuído no Brasil, exceto as audiências para a mídia tradicional, que diminuíram significativamente na última década.

As audiências para a mídia tradicional, como TV e impressa, diminuíram significativamente na última década.
As audiências para a mídia tradicional, como TV e impressa, diminuíram significativamente na última década. © 2022 Reuters Institute for the Study of Journalism

TV, rádio e mídia impressa

A TV continua dominante em termos de captação de investimentos em propaganda no Brasil, mas está perdendo terreno para a mídia online. As verbas de publicidade para a televisão aberta diminuiram de 51,9% (2020) para 45,4% (2021), de acordo com o Cenp-Meios. Em comparação, a participação publicitária das revistas caiu 35%.

A circulação diária média do dez jornais mais vendidos no Brasil somou 1,51 milhão de exemplares em 2021, queda de 3,5% em relação ao ano de 2020.

Acesso a notícias da TV, rádio e mídia impressa
Acesso a notícias da TV, rádio e mídia impressa. © 2022 Reuters Institute for the Study of Journalism

Sites de notícias

"Digital e redes sociais oferecem uma gama muito maior de histórias, mas este ambiente pode muitas vezes ser massivo e confuso. Enquanto muitas pessoas permanecem ativas e engajadas com notícias na Internet, a abundância de escolha em um contexto online pode estar levando outras a se envolver regularmente muito menos do que elas fizeram no passado", alerta o estudo.

Acesso a notícias online
Acesso a notícias online. © 2022 Reuters Institute for the Study of Journalism

Redes sociais e aplicativos de mensagem

Quase dois terços dos brasileiros (64%) agora obtém suas notícias das redes sociais. No estudo, o Facebook vem perdendo terreno e foi ultrapassado pelo YouTube como a destinação mais popular para consumo de notícias.

Houve também um forte aumento no uso de redes visuais mais novas como Instagram e TikTok para notícias, enquanto aplicativos de mensagens WhatsApp e Telegram permanecem importantes na discussão e compartilhamento de notícias.

© 2022 Reuters Institute for the Study of Journalism

* Com informações do Digital News Report