Milhares de bombeiros uniformizados de toda a França se reuniram em Paris nesta terça-feira (28) para uma manifestação reinvidicando melhores condições de trabalho e aumento de 28% no bônus de risco, congelado desde 1990.

O Governo Macron respondeu com canhões de água, granadas, e cassetetes.

O aparato policial não intimidou os manifestantes.

Jatos de água, explosões, labaredas, fumaça tóxica, gases letais, olhos ardendo, fraturas, queimaduras, escoriações, são o dia a dia da perigosa profissão. Alguns bombeiros chegaram a atear fogo em si próprios, prontamente apagado por colegas, para mostrar à população o risco que correm em um incêndio, mesmo usando trajes resistentes a chamas, e porque pediam o reajuste do bônus.

A tentativa de repressão violenta do governo foi um passeio em parque temático para os bombeiros. Alguns chegaram a se divertir com os jatos dos canhões d'água e outros retribuiram calorosamente a recepção.

A polícia descreveu os bombeiros como nervosos e raivosos.

Na versão do departamento de polícia de Paris, os bombeiros "pegaram fogo" e começaram a lutar contra os policiais. A tropa de choque teria entrado em ação depois que várias centenas de bombeiros se separaram da passeata, enquanto outros manifestantes tentaram quebrar as barreiras de segurança.  

As imagens registradas em vídeo pelos jornais britânicos The Guardian e Metro UK revelam outra perspectiva do conflito. A passeata seguia pacífica quando foi bloqueada por um grupo de policiais. Um deles atingiu a cabeça de um manifestante com um cassetete. Um dos poucos bombeiros sem estar usando capacete, o homem foi ao chão e foi amparado pelos companheiros, que pediam calma aos policiais. Enquanto os bombeiros tentavam estabelecer um diálogo, um policial atirou uma granada contra a multidão que participava da passeata.

Vídeos dos confrontos se tornaram virais nas mídias sociais em meio à crescente pressão do governo sobre as táticas policiais francesas de controle de multidões nas manifestações.

As granadas atiradas contra os bombeiros contêm 25g de TNT.

A França é o único país europeu em que a polícia de controle de multidões usa granadas tão poderosas, que produzem uma explosão ensurdecedora e impulsionam minusculas bolas de borracha que criam um efeito ardente e lançam uma carga adicional de gás lacrimogêneo.

À noite, os sindicatos disseram que o Ministério do Interior da França fez concessões, incluindo um aumento no pagamento de risco dos bombeiros.

"Somos o último elo nos serviços de emergência na França e somos sobrecarregados por chamadas e intervenções", disse Frédéric Perrin, presidente do sindicato SPASDIS-CFTC, à Agence France-Presse. "Precisamos de mais efetivo e os meios para responder a isso, mas também a garantia de que nos concentraremos principalmente em nossas missões, e não em servir como complemento para os serviços de saúde ausentes".

Cerca de 200 mil bombeiros franceses são voluntários, 25 mil são profissionais civis e 13 mil são militares, como as guarnições de Paris e de Marselha.

O protesto nesta terça-feira ocorre quando o índice de aprovação de Macron continua em queda. Na pesquisa da Europe Elects, com 2 mil pessoas, entre 16 e 25 de janeiro, mostrou que 70% do público desaprova o presidente.

Brutalidade policial

Os bombeiros franceses têm sido uma presença consistente em protestos nacionais, frequentemente marchando na frente da passeata para impedir agressões entre policiais da tropa de choque e manifestantes.

A França tem enfrentado distúrbios trabalhistas generalizados desde dezembro, com sindicatos se mobilizando contra os planos de Macron de reformar o sistema de aposentadorias.

Vários vídeos recentes mostrando o que parece ser uma violência policial injustificada em outras manifestações provocaram indignação nas mídias sociais. Depois de dezenas de feridos graves por armas policiais durante os protestos contra o governo dos coletes amarelos no ano passado, e as queixas de excesso de violência em protestos por aposentadorias, os advogados começaram a acusar o presidente francês de presidir a abordagem mais pesada a manifestações de rua na França desde os protestos de maio de 1968. Não foi diferente nesta terça-feira.

O ministro do Interior francês, Christophe Castaner, anunciou que a França deixará de usar um modelo específico de granada explosiva de gás lacrimogêneo usada pela polícia de choque, acusada de ferir numerosos manifestantes. Mas grupos e advogados de direitos humanos imediatamente criticaram o governo por se tratar de um factóide, dizendo que o modelo específico de granada já havia sido descontinuado pelo fabricante. Eles disseram que outras granadas equivalentes permanecem em uso pela polícia francesa com o mesmo efeito.

* Com informações do The Guardian, Agence France-Presse, Metro UK, Sputnik

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