No momento, talvez um dos fatores mais importantes para o preço dos ativos seja a dificuldade de controlar o vírus, com os maiores especialistas em doenças infecciosas dos EUA unanimemente alertando que o pior ainda está por vir.

O Federal Reserve (Fed) reduziu as taxas de juros para quase zero em sua segunda ação de emergência neste mês, lançou um massivo programa de flexibilização quantitativa (QE), destinando US$ 700 bilhões à compras de ativos (US$ 500 bilhões em compras de títulos e US$ 200 bilhões em hipotecas), e reduziu a zero a taxa de depósitos compulsórios para estimular o crédito privado, sob a justificativa que a epidemia está tendo um impacto "profundo" na economia.

"A questão para os investidores é que o impacto econômico do vírus ainda não é conhecido – se este é um evento de um mês ou um ano, e quão profundo será o corte nos gastos dos consumidores", disse Rick Meckler, sócio da Cherry Lane Investments em New Vernon, Nova Jersey.

Nesta segunda-feira, os contratos futuros dos índices S&P 500, Nasdaq 100 e Dow Jones Industrial Average despencaram quase 5%, acionando os circuit breakers.

O principal fundo de índice (ETF) de ações brasileiras negociado em Nova York, o EWZ, desabava 15% no pré-mercado nesta segunda-feira, um prenúncio do que pode acontecer hoje na B3.

Para muitos analistas do mercado financeiro, as ações dramáticas do Fed sinalizaram a gravidade da situação nos Estados Unidos, com uma epidemia cujo impacto crescente na atividade econômica não pode ser resolvido apenas pela política monetária e que pode levar o país à recessão.

"Isso é uma indicação de que o Fed está muito assustado com o ambiente em que vivemos", disse Michael O'Rourke, estrategista-chefe de mercado da JonesTrading em Stamford, Connecticut. "A resposta política é tão forte que é provável que assuste os investidores".

Já os analistas da TD Securities, ficaram surpresos com a falta de medidas para apoiar o mercado de commercial papers, usado pelas empresas para empréstimos de curto prazo.

Na opinião de David Kotok, diretor de investimentos da Cumberland Advisors, os mercados estariam percebendo uma repetição das ações do Fed tomadas entre 2007 e 2009, e assumindo que uma repetição da crise global está próxima.

Os últimos dados econômicos da China, mostrando a maior queda da produção industrial em 30 anos, também reforçaram os temores de uma recessão global, com a pandemia quebrando cadeias de suprimentos e adiando decisões de investimentos nos negócios.

"Especialmente após este fim de semana, onde a maioria das pessoas viu quanta atividade parou, haverá preocupações de que possa haver uma profunda recessão por causa disso. Pode ser curta, mas pode ser bem profunda". disse Rick Meckler, sócio da Cherry Lane Investments em New Vernon, Nova Jersey.

Ásia Pacífico e Austrália

Após os bancos centrais entrarem no "modo crise", as ações das bolsas asiáticas despencaram ainda mais nesta segunda-feira, registrando novos mínimos.

Os formuladores de políticas e reguladores de todo o mundo estão relaxando demandas e provendo estímulos para garantir que as instituições financeiras continuem a fornecer crédito, pois a disseminação do vírus causa estragos nas economias e, consequentemente, nas carteiras de empréstimos dos bancos.

O Banco do Japão informou que comprará mais ativos, incluindo fundos negociados em bolsa e títulos corporativos, mantendo a taxa de juros estável.

O Banco da Coréia reduziu sua taxa básica de juros para um nível recorde de 0,75% em uma ação de emergência, enquanto a autoridade monetária de Hong Kong reduziu sua taxa básica de desconto overnight para 0,86%.

Com os corretores lutando para vender ativos mais arriscados, os índices de referência caíram em toda a região, com o MSCI Asia Pacific Index caindo até 4% para um nível de 2016.

Enquanto o índice S&P/ASX200 da Austrália teve seu pior dia na história com uma queda de quase 10%, as medidas de emergência do Banco do Japão desapontaram os investidores e as ações da bolsa de Tóquio voltaram a sofrer fortes quedas. Tailândia e Filipinas registraram declínios de mais de 5%.

Na China, nesta segunda-feira o Banco Popular da China injetou US$ 93 bilhões no sistema financeiro, oferecendo empréstimos de médio prazo aos bancos e reduzindo o depósito compulsório. Porém, a decisão de manter inalteradas as taxas de juros dos empréstimos desapontou os investidores e mesmo ações que haviam resistido às baixas anteriores registraram perdas.

A queda de 3,4% no Shanghai Composite Index sinalizou que o momento de baixa (bear market) está se consolidando.

Os investidores na China vêm comprando ações com a crença de que medidas de estímulo de Pequim seriam suficientes para apoiar os mercados e a economia do país. Essa teoria está sendo prejudicada pela dependência da China no comércio com o resto do mundo, com as economias da Europa e dos EUA cada vez mais vulneráveis ao surto do coronavírus SARS-CoV-2, o causador da covid-19.

"Se o vírus desencadear uma reação em cadeia das economias ao redor do mundo, causando recessão global, a China sentirá o impacto da demanda reduzida", disse Ge Shoujing, analista sênior do Reality Institute of Advanced Finance em Pequim.

"A perspectiva para as ações da China depende das decisões de outras nações de controlar o vírus", disse Tom Wang, gerente de portfólio da Shenzhen Qianhai You Cap Management.

A economia da China deve encolher 6% neste trimestre em comparação com o ano anterior, segundo o Macquarie Group Ltd.

* Com dados e informações do Investing.com, Bloomberg

Veja também: