Na reunião que decorreu nesta quinta-feira (7 ), o comitê de política monetária (MPC) votou favoravelmente (7x2) à manutenção da taxa de juros em 0,10% a.a. e do programa adicional de compra de dívida (quantitative easing), na ordem de 240 bilhões de euros –  o montante total do programa de compras de ativos alcança 740 bilhões de euros.

O governador da autoridade monetária britânica, Andrew Bailey, disse à Bloomberg Television que a instituição "poderia fazer mais no quantitative easing" na próxima reunião de junho e que "ia deixar todas as opções em aberto".

Apesar de antever uma queda robusta no Produto Interno Bruto para este ano, o Banco prevê que a economia consiga recuperar de forma ágil desta crise atual. Assim, aponta para uma expansão econômica já no segundo trimestre de 2021, regressando aos valores pré-Covid do PIB, e crescimento de 3% em 2022.

Os dados mais recentes das empresas britânicas mostram queda acentuada na produção, enquanto os gastos dos consumidores caíram para mínimos históricos. Contudo, o BoE entende que essa "interrupção será temporária".

Em comunicado à imprensa, a instituição enfatizou que o sistema bancário "está numa posição mais forte devido às reformas regulatórias implementadas após a crise financeira de 2008", com capital suficiente para absorver perdas, e apoio extra do Estado introduzido durante a pandemia para ajudar os mutuários e a economia.

Pressões adicionais

“Apesar dos números fortes divulgados hoje pelo Banco da Inglaterra, é provável que haja uma pressão adicional na economia. É provável que algumas medidas de distanciamento social permaneçam em vigor até que tenhamos uma vacina ou um tratamento eficaz para o vírus, com as pessoas também relutantes em socializar e gastar. Isso significa que é improvável que a recuperação comece antes do próximo ano", comentou Yael Selfin, Economista-Chefe da KPMG UK.

“Olhando para o médio prazo, além do impacto da redução de investimentos, outras forças poderiam estar em jogo, diminuindo a produtividade futura. É provável que as cadeias de suprimentos sejam reconfiguradas à luz dessa crise, aumentando potencialmente a diversificação geográfica e reduzindo a eficiência, a fim de aumentar a resiliência. As operações just in time também são uma coisa do passado, corroendo ainda mais a produtividade. Por outro lado, pudemos ver uma consolidação significativa entre as PME, elevando a produtividade na cauda longa de negócios com baixo desempenho", ponderou o economista.

"O Brexit é outro risco negativo significativo para as perspectivas deste ano, com a probabilidade de uma transição suave para um amplo acordo de livre comércio com a UE em janeiro, relativamente pequena, adicionando mais incerteza às empresas e a perspectiva de maiores atritos comerciais no próximo ano", concluiu Yael Selfin.

Stay Home, Save Lives

O Banco da Inglaterra prevê o Reino Unido crescer 15% em 2021, com a inflação permanecendo bem abaixo da meta de 2% neste ano (0,6%) e no próximo (0,5%). A queda do PIB de 14% é mais severa do que a queda de 6,5% prevista pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em sua perspectiva econômica mais recente.

O BoE observa enfaticamente que “muitos outros cenários para a economia são possíveis”. O que acontecerá com a economia britânica depende da força da recuperação da economia mundial e do ritmo da estratégia de saída de lockdown que será escolhida pelo governo Boris Johnson.

Duas semanas das atuais medidas de isolamento custam cerca de 1,25% do PIB anual em um trimestre, estima o Banco, e o comportamento das famílias e das empresas continua sendo uma grande incógnita: “Cuidado contínuo” reduzirá os gastos dos consumidores e os investimentos, atrasando a recuperação.

Como o Banco observa em seu relatório, a pandemia criou "desafios únicos" para a política monetária, porque "não pode impedir as perdas de receita e renda que empresas e famílias sofrem" durante um período de perturbação econômica e financeira forçada.

Quando Boris Johnson estabelecer planos no domingo (10) para o Reino Unido emergir gradualmente das restrições, estará falando dias após o país se tornar o segundo com mais vítimas fatais da Covid-19 no mundo depois dos EUA.

Depois de decidir pelo lockdown, o governo foi rigoroso em fazer cumprir as regras e seguir diretivas, martelando o slogan “Stay at home, protect the NHS, save lives”, que obteve sucesso além das expectativas.

No entanto, enquanto muitos querem mais liberdade, as pesquisas mostram que os britânicos estão atrás dos EUA, França, Alemanha, Áustria, Itália e Japão, na propensão de acreditar que o país deve ser aberto se a pandemia não estiver totalmente contida.

Mudar essa mentalidade significará apenas o fim do começo de uma luta contra o vírus e o medo que ele criou, que durará muito mais tempo do que parecia quando as medidas de isolamento e as campanhas publicitárias foram ordenadas pelo governo.

* Com dados e informações do Bank of England, Barron's, Barclays, Jornal de Negócios, KPMG, The Financial Times, Bloomberg

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