"Hoje, estou anunciando que os Estados Unidos estão mirando a principal artéria da economia russa – estamos proibindo todas as importações de petróleo e gás e energia russos", disse Biden, que explicou que a proibição significa que o petróleo russo "não será mais aceito nos portos dos EUA".

O anúncio foi uma reversão da posição anterior de Biden sobre a proibição do petróleo russo. Na semana passada, a Secretária de Imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, disse a repórteres que o governo não tinha “interesse estratégico em reduzir a oferta global de energia” porque aumentaria os preços para os consumidores americanos.

Ao anunciar a nova proibição, Biden avisou que haverá “um custo”.

“A decisão de hoje não é sem custo para sua casa – a guerra de Putin já está prejudicando as famílias americanas na bomba de gasolina. Desde que Putin começou sua escalada militar... o preço nos Estados Unidos subiu 75 centavos. E com essa ação, vai subir ainda mais”, disse.

“Defender a liberdade também vai nos custar”, acrescentou, embora tenha enfatizado que “Democratas e Republicanos” “deixaram claro” para ele que a proibição das importações de petróleo russo era algo que os Estados Unidos “deveriam” fazer.

Biden disse que a proibição permitirá ao povo americano "dar outro golpe poderoso" à "máquina de guerra" russa, acrescentando que a medida tem "forte apoio bipartidário" e apoio dos americanos, que "se reuniram para apoiar o povo ucraniano".

“Se não respondermos ao ataque de Putin à paz e estabilidade global hoje, o custo da liberdade para o povo americano será ainda maior amanhã”, disse.

Ainda assim, Biden disse que fará “tudo” que puder para minimizar o que chamou de “aumento de preço de Putin” aos consumidores americanos.

“Estamos tomando medidas para garantir o fornecimento confiável de energia global”, disse, acrescentando que “continuará trabalhando com todas as ferramentas à nossa disposição” para “proteger as famílias e empresas americanas”.

O presidente disse que a crise precipitada pelo conflito Rússia-Ucrânia é um “lembrete forte” da necessidade de independência energética dos EUA e motivação para o país “acelerar a transição para energia limpa”.

“Transformar nossa economia para funcionar com veículos elétricos movidos a energia limpa... significará que ninguém terá que se preocupar com o preço da bomba de gasolina no futuro”, disse. “Tiranos como Putin não serão capazes de usar combustíveis fósseis como armas contra outras nações, e isso fará dos Estados Unidos um líder mundial na exportação de tecnologias de energia limpa do futuro para países de todo o mundo”.

O presidente dos Estados Unidos disse ainda que a decisão foi tomada "em estreita consulta com nossos aliados e nossos parceiros em todo o mundo, particularmente na Europa", e reconheceu que muitos aliados que dependem das importações russas podem não ser capazes de se juntar aos americanos na proibição do petróleo russo em seus mercados.

Biden disse que seu governo teve “inúmeras conversas” com aliados dos EUA sobre a necessidade de “se livrar” dos produtos petrolíferos russos, embora o resultado dessas discussões tenha sido a percepção de que tal ação “não era sustentável”.

Ele também observou que o robusto setor de energia dos EUA, que “produz muito mais petróleo no mercado interno do que toda a Europa, todos os países europeus juntos”, está permitindo que os EUA cortem as importações russas.

“Somos um exportador líquido de energia, então podemos dar esse passo enquanto outros não, mas estamos trabalhando em estreita colaboração com a Europa e nossos parceiros para desenvolver uma estratégia de longo prazo para reduzir sua dependência da energia russa também”, disse.

O anúncio do presidente ocorre em meio a um clamor de políticos americanos que pressionaram Biden a proibir a importação de petróleo e derivados da Rússia, cortando uma fonte de renda para o governo do presidente russo, Vladimir Putin.

Cerca de 672.000 barris por dia (bpd) de petróleo e produtos refinados vieram da Rússia no ano passado, disse ao Wall Street Journal (WSJ) Andy Lipow, presidente da Lipow Oil Associates em Houston, representando 8% das importações dos EUA.

O petróleo, cerca de 200 mil bpd, representa 3% das compras americanas.

A Rússia produz mais de 11 milhões de barris de petróleo por dia.

Os EUA compram petróleo russo em parte para operar refinarias que precisam de diferentes graus de petróleo com maior teor de enxofre. As refinarias dos EUA foram projetadas décadas atrás para usar graus mais pesados de petróleo, muitas vezes com níveis mais altos de enxofre, quando os suprimentos domésticos eram mais baixos.

Nos últimos anos, o petróleo russo preencheu parte da lacuna criada pelas sanções à Venezuela e ao Irã, que prejudicaram o fluxo de tipos similares de petróleo desses países para refinarias na Costa do Golfo e de outras regiões americanas.

O presidente venezuelano Nicolás Maduro confirmou que seu governo manteve conversações com altas autoridades dos EUA, a primeira reunião de alto nível entre os países desde 2019, quando cortaram os laços diplomáticos. Conversações com o Irã também estão em andamento.

Cerca de metade do petróleo que os EUA importam da Rússia vai para a Costa Oeste, onde as refinarias recebem entregas do exterior em grande parte porque não estão conectadas por oleodutos à Permian Basin, a maior bacia petrolífera dos EUA. Refinarias da Costa Oeste recebem o petróleo despachado do terminal portuário russo de Kozmino, próximo da fronteira com a China e a Coreia do Norte, na costa do Mar do Japão.

Outro quarto desse petróleo, cerca de 50.000 barris por dia, vai para a Costa Leste, onde as refinarias também não estão conectadas por oleoduto às atuais fontes de produção de petróleo dos EUA. O quarto restante geralmente termina na Costa do Golfo, onde o grau de petróleo da Rússia, que tem um nível mais alto de enxofre do que a maioria do petróleo produzido nos EUA, é considerado lucrativo para uso em refinarias projetadas para processar o chamado petróleo azedo (sour).

Movimentos para dificultar o fluxo de petróleo russo poderão ser interpretados pelo mercado como mais um impacto em estoques globais já escassos, o que poderá elevar ainda mais os custos para os consumidores.

Atualização 09/03/2022

De acordo com a Bloomberg, o governo Biden está considerando impor sanções à empresa estatal russa de energia atômica Rosatom – um grande fornecedor de combustível e tecnologia para usinas nucleares em todo o mundo – embora nenhuma decisão final tenha sido tomada e a Casa Branca esteja consultando a indústria de energia nuclear sobre o impacto potencial.

Rosatom é descrita como "alvo delicado" porque a empresa e suas subsidiárias representam cerca de 35% do enriquecimento global de urânio e têm acordos para enviar o combustível nuclear para países em toda a Europa, o que significa que qualquer sanção corre o risco de mergulhar a Europa na escuridão. Assim, qualquer punição também teria que isentar o trabalho que a Rosatom faz com o Irã sob os termos do acordo que limita o programa nuclear do país, que Biden está buscando reviver. Se a Rosatom for sancionada, provavelmente significa que o acordo nuclear iraniano está morto, e os preços do petróleo subirão ainda mais.

A Rússia fornece atualmente 40%-45% do urânio enriquecido do mundo.

Também não está claro o que as sanções significariam para usinas nucleares dos EUA. A Rússia foi responsável por 16,5% do urânio importado para os EUA em 2020 e 23% do urânio enriquecido necessário para alimentar os reatores nucleares comerciais dos EUA, reabastecidos a cada 18 a 24 meses. As usinas normalmente compram combustível com anos de antecedência e mantêm estoques significativos.

"Não podemos nos dar ao luxo de não ter urânio e enriquecimento russos", disse Chris Gadomski, analista da indústria nuclear da Bloomberg NEF. "O urânio russo é mais barato e os EUA não produzem urânio".

Atualização 04/04/2022

Os Estados Unidos aumentaram suas compras de petróleo russo em 43% entre 19 e 25 de março, de acordo com dados da Administração de Informações sobre Energia (EIA). Apesar da proibição da Casa Branca de importações de energia da Rússia, os EUA continuam a comprar até 100.000 barris de petróleo russo por dia.

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