A reativação das centrais a carvão, possibilitada pela aprovação no Parlamento da nova Lei das Centrais de Substituição, irá substituir entre 5 e 10 GW de eletricidade gerada por usinas a gás natural.

“Queremos poupar gás agora no verão para encher os nossos tanques para o inverno“, disse o ministro, que explicou em várias ocasiões que, para ter gás suficiente para satisfazer as necessidades das famílias e da indústria, é necessário reduzir a porcentagem utilizada para produzir eletricidade.

Segundo Habeck, as instalações de armazenamento de gás natural estão enchendo a uma taxa diária de 1,3% a 1,4% da capacidade total.

O regulamento, que entrará em vigor na quinta-feira (14), permitirá que 27 usinas a carvão que não estão em produção regressem ao mercado e forneçam eletricidade até 30 de abril de 2023.

Dezesseis centrais elétricas alimentadas a carvão que foram desligadas da rede mas faziam parte da reserva poderão voltar a funcionar, se os operadores assim o desejarem, uma vez que a reativação é voluntária. Outras 11 usinas a carvão, que deveriam ser fechadas em 2022 e 2023, devido ao processo de descarbonização, poderão estender as suas operações e tornar-se parte da reserva.

Embora autorizadas a retomar a produção, as usinas que decidirem regressar ao mercado não o farão imediatamente e possivelmente não em plena capacidade.

Segundo a imprensa alemã, o plano apresenta dificuldades, uma vez que as usinas fechadas não estão preparadas para gerar eletricidade a curto prazo e, entre as usinas que deveriam ser desligadas este ano, alguns operadores avisaram que não possuem reservas de carvão suficiente, e não podem reestocar carvão marrom (lignite) rapidamente devido a gargalos no setor de logística.

Também há falta de pessoal qualificado para garantir que as instalações possam funcionar em plena capacidade, especialmente nas usinas desativadas.

Energia nuclear

Os social-democratas do Chanceler Olaf Scholz (SPD) e os tradicionalmente anti-nucleares Verdes do Ministro Robert Habeck, se opõem a qualquer adiamento na desativação programada das três usinas nucleares restantes da Alemanha até o final do ano. No entanto, os Liberais Democratas Livres (FDP), que também estão na coalizão de Scholz, juntaram-se à oposição para pedir o adiamento.

Christian Dürr, chefe do FDP no parlamento, explicou em rede social tweet na terça-feira (12): "Putin permanece imprevisível. Devemos tomar precauções. Parar de gerar eletricidade a partir do gás, prolongar a vida útil das usinas nucleares e examinar a produção de gás no Mar do Norte".

"O fornecimento seguro é a prioridade máxima", acrescentou. "Temos que esgotar todas as possibilidades para isso. Quem fala sobre banhos frios e suéteres quentes nessas semanas não entende a gravidade da situação".

A menção de Dürr sobre banhos frios foi um golpe em Habeck, que tem preparado alemães para sacrifícios durante os próximos meses frios, recomendando que a população tome banhos mornos e curtos e aqueça menos os ambientes.

O chefe do partido de Dürr, o Ministro das Finanças Christian Lindner, vem argumentando há semanas que manter as usinas nucleares alemãs funcionando um pouco mais não deve ser "descartado categoricamente". Ele diz que a oposição dos Verdes à ideia é ideológica e deve ser descartada dada a nova realidade energética.

"Em vista da situação atual, devemos ter uma visão pragmática e não ideológica", concordou a parlamentar do FDP Marie-Agnes Strack-Zimmermann, uma voz proeminente sobre a guerra na Ucrânia. "Sabemos que as usinas [nucleares] não funcionarão para sempre, mas apenas neste momento, quando é uma questão de fornecer à população a energia que ela precisa, não devemos ser ideológicos".

A Alemanha fechou três de suas seis usinas nucleares remanescentes no ano passado, em meio a forte crise energética, e deve fechar as restantes em 2022.

Friedrich Merz, líder da oposição Democratas Cristãos (CDU) está explorando as rachaduras da política energética na coalizão. "Precisamos de energia! Alguns colegas do SPD e do FDP também veem dessa forma, mas a falha é por causa dos Verdes", disse na televisão na semana passada.

Alexander Dobrindt, líder parlamentar do partido União Social Cristã (CSU), juntou os Verdes com o presidente russo Vladimir Putin, acusando-os de colocar a prosperidade da Alemanha em risco. "Putin desliga o gás da Alemanha e os Verdes desligam a energia nuclear. Isso praticamente provoca um apagão no inverno", disse o legislador à imprensa alemã esta semana.

"Não devemos nos roubar da oportunidade de manter nossas usinas nucleares funcionando para economizar gás na geração de eletricidade", disse o líder da oposição Merz esta semana. "Eu digo: bite the bullet, caros Verdes... Façam isso pela Alemanha!".

Para Jens Südekum, professor de Economia na Universidade Heinrich Heine de Düsseldorf e consultor do ministério de Habeck, "isso parece um falso debate".

"Os números nos dizem que apenas 16% do gás foi usado até agora para a geração de eletricidade, enquanto o calor [usado na produção industrial] e o aquecimento representam mais de 80%, e é aí que o jogo é decidido", disse Südekum. "Usinas nucleares não nos ajudarão, porque você não pode aquecer com elas".

Habeck ecoou a avaliação do consultor na terça-feira: a Alemanha tem "um problema de aquecimento, não um problema de eletricidade", disse em Viena.

Potencial agitação social

A paciência da população da Alemanha está se esgotando à medida que o país se torna cada vez mais vulnerável a uma grave crise energética, representando um desafio direto ao governo Scholz.

Baixo custo de vida, alimentação e segurança energética – a maioria dos indicadores de estabilidade econômica faliu na Alemanha nos últimos meses.

As sanções contra a Rússia atingiram a Alemanha na sua economia. A inflação recorde de alimentos e energia expôs o país a uma potencial agitação social.

Especialistas estão agora expressando preocupação de que a Alemanha pode não ser capaz de preencher suas reservas de gás antes do inverno.

Isso poderá significar severas consequências políticas para o governo de coalizão em Berlim – muitos agora acreditam que há esforços em andamento para rever as sanções.

Um estudo publicado em junho pelo instituto de pesquisa econômica Prognos concluiu que, em caso de parada completa de fornecimento de gás russo, as reservas da Alemanha se esgotariam após quatro semanas.

* Com informações do Politico

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