No talk show político Maybrit Illner na quinta-feira (31), Siegfried Russwurm, presidente da BDI – Bundesverband der Deutschen Industrie (Federação das Indústrias Alemãs), foi a voz discordante do programa, com os demais convidados pedindo o corte imediato do gás russo no país.

Russwurm apontou que, se tal embargo fosse introduzido, as implicações seriam imensas, indo muito além de um "limite de velocidade" nas rodovias e "recessão e desemprego", como sugeriu o apresentador do programa.

Sem o gás russo, acontecerá uma "quebra de nossas redes industriais".

"Estamos falando de um tipo completamente diferente de colapso da nossa indústria", argumentou o chefe do BDI, acrescentando que a Alemanha poderá assistir a desintegração da própria indústria.

O presidente da BDI também questionou o apelo de um ativista do "Fridays for Future" para se afastar completamente do gás, e abraçar energias renováveis em vez de se tornar "dependente de algum outro autocrata, que não há falta em todo o mundo".

Segundo Russwurm, o gás é uma "fonte de energia extremamente eficiente, inclusive em termos de clima". O chefe da Federação das Indústrias Alemãs ressaltou que a Alemanha já havia aprovado um plano para eliminar gradualmente o carvão com a suposição de que o país estaria recebendo gás natural suficiente.

Enquanto alguns dos outros convidados do programa afirmavam que era simplesmente imoral financiar a "guerra de Putin" na Ucrânia, Russwurm, em contraste, opinou que, comprando gás russo, a Alemanha estava apenas financiando o regime na Rússia, mas não diretamente sua campanha militar.

Russwurm enfatizou que Berlim deveria se preparar para qualquer eventualidade, incluindo Moscou "desligar o gás", mas questionou se a Alemanha precipitar esse corte seria uma boa ideia.

Uma das potências industriais da Europa, a Alemanha é um grande importador de gás natural russo, com 34% do combustível consumido no país no ano passado vindo da Rússia. Berlim também compra quantidades consideráveis de petróleo russo.

Perda de prosperidade

Os alemães já estão pagando um preço pela campanha militar da Rússia na Ucrânia, reconheceu o Ministro das Finanças da Alemanha.

Falando ao jornal Bild, Christian Lindner disse que "a guerra da Ucrânia está nos tornando todos mais pobres, por exemplo, porque temos que pagar mais pela energia importada".

Em uma entrevista publicada neste domingo (3), o ministro alemão admitiu que o governo "não pode compensar essa perda de prosperidade".

O atual estado de coisas na economia nacional está dando a Lindner "sérias preocupações". O ministro assegurou aos jornalistas que o governo está fazendo todo o possível para "evitar a ameaça da chamada estagflação".

Entre as medidas que Berlim está tomando estão o alívio para a classe média, o apoio aos estratos economicamente vulneráveis da sociedade e as empresas em risco, disse Lindner, ressaltando que esses programas são temporários.

A longo prazo, a Alemanha terá que "estabelecer novas bases de prosperidade", alertou Lindner, acrescentando que deve ser dada ênfase especial aos aspectos sociais e ecológicos.

Quando perguntado por que a Alemanha ainda estava "financiando Putin com nossas importações de gás e petróleo", o ministro argumentou que o fim do fornecimento de hidrocarbonetos russos "teria efeitos dramáticos em nosso país".

Lindner esclareceu que as repercussões potenciais iriam além do dinheiro, afetando a "disponibilidade física de energia" para os alemães.

Ele também saudou as sanções recentemente impostas a Moscou como "incomparáveis", enfatizando ao mesmo tempo que as medidas punitivas "não devem comprometer a estabilidade da Alemanha".

Lindner indicou que o país poderá considerar o uso de "reservas de petróleo e gás no Mar do Norte, a extração da qual até agora tinha sido considerada muito cara".

Além disso, a Alemanha terá que desembolsar quantias consideráveis para acabar com o que Lindner descreveu como a "negligência" dos militares do país.

Apesar dos problemas econômicos e dos gastos maciços planejados no orçamento alemão, não haverá aumento de impostos no país este ano, prometeu Lindner.

Atualização 04/04/2022

Os Estados Unidos aumentaram suas compras de petróleo russo em 43% entre 19 e 25 de março, de acordo com dados da Administração de Informações sobre Energia (EIA). Apesar da proibição da Casa Branca de importações de energia da Rússia, os EUA continuam a comprar até 100.000 barris de petróleo russo por dia.

Atualização 09/04/2022

Na sexta-feira (8), o chanceler alemão Olaf Scholz prometeu acabar com a dependência de seu país do gás russo, e afirmou que acontecerá em breve.

O embargo do fornecimento de gás russo pode prejudicar as empresas alemãs de energia intensiva, especialmente fabricantes de vidro, relatou o canal de TV alemão Das Erste.

A produção de vidro envolve matérias-primas mantidas a 1.600 graus Celsius 24 horas por dia para evitar que o vidro endureça. O processo exige uma quantidade significativa de energia, a maior parte produzida por gás natural de origem russa.

A Associação Federal da Indústria do Vidro (Bundesverband Glasindustrie e.V. – BV Glas) afirmou que uma eliminação completa do fornecimento de gás natural para a indústria de vidro resultaria não apenas em uma perda de produção, mas também em danos permanentes aos equipamentos, que levariam meses ou até anos para serem recuperados. Segundo a BV Glas, os danos podem levar a gargalos no fornecimento de vidro e colocar em risco as cadeias de fornecimento em muitas outras áreas, como as indústrias de alimentos, bebidas, produtos farmacêuticos, automotivos e de construção.

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