Paulo Guedes defendeu sua visão sobre a crescente ameaça da inflação e o efeito duradouro sobre o Ocidente na videoconferência Perspectivas Econômicas Globais, promovida pelo Fórum Econômico Mundial (WEF) nesta sexta-feira.

O moderador do painel, Geoff Cutmore, jornalista financeiro inglês da CNBC Europe em Londres, se surpreendeu com a posição clara de Guedes, oposta à narrativa das autoridades monetárias dos Estados Unidos e da União Europeia.

"Acho interessante ver que nem todo mundo está na mesma página nessa questão de saber se a inflação será transitória", disse o apresentador há 33 anos do Squawk Box Europe, após a análise de Paulo Guedes do cenário econômico mundial.

Além do ministro brasileiro, participaram do painel a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva; a presidente do Banco Central Europeu (ECB), Christine Lagarde; o governador do Banco do Japão, Haruhiko Kuroda; e a ministra das Finanças da Indonésia, Sri Mulyani Indrawati.

Na avaliação de Kristalina Georgieva, é fundamental entender que a inflação está mais alta e persistente em alguns países, e que este é “um problema específico a cada país”. Segundo ela, essas especificidades marcarão o ano de 2022.

“Não será possível manter todas as políticas em todas as partes, o que fará o combate mais complicado em alguns países”, antevê Georgieva.

"O ano de 2022 vai ser correr por uma pista de obstáculos. Do lado positivo, prevemos que a recuperação vai continuar, mas uma parte do impulso está se perdendo".

"Se olharmos para a inflação, a pressão dos preços vem dos alimentos, das cadeias produtivas, por causa dos efeitos da pandemia. E temos um fenômeno relacionado à pandemia, que é o mercado de trabalho estar mudando", disse a diretora do FMI.

Christine Lagarde concordou com Georgieva e acrescentou que a autoridade monetária precisa estar atenta “às cifras apresentadas em cada país”, e que em muitos casos a superação e a conservação de empregos foi subestimada, ao defender maior atenção a problemas relativos ao mercado de trabalho.

“Na França vemos indicadores específicos, como negociações coletivas de salários, na qual empregadores e sindicatos levam em conta os índices de inflação. No entanto, em outros países não estamos vendo essas negociações avançarem”, disse a presidente do ECB.

“Estávamos acostumados a níveis baixos de inflação. E agora temos de ver quanto isso vai durar, e vai durar”, acrescentou Lagarde.

Direção perigosa

O Ministro Paulo Guedes afirmou que a inflação será um grande problema para o Ocidente.

"Quero lembrar a todos vocês que por 30 ou 40 anos nós aproveitamos a globalização" para "silenciar a inflação", disse o ministro.

"Bilhões de eurasianos saíram da pobreza saltando para os mercados de trabalho globais. Havia um desconforto enorme e crescente no mundo ocidental porque os salários não podiam subir. A inflação mais alta foi silenciada".

Foram "3,7 bilhões de pessoas na Índia e Indonésia, na Rússia, Vietnã do Sul e Coreia do Sul saindo da pobreza. O que o Japão fez nos anos 50 e 60, toda a Ásia vem praticando nos últimos 30 a 40 anos".

"Nós do lado ocidental não tivemos inflação, mas meu medo agora é que a besta esteja fora da garrafa. Não acredito que a inflação seja transitória. Penso que os choques adversos de oferta desaparecerão gradualmente, mas não há mais arbitragem a ser explorada pelo lado ocidental e os bancos centrais estão dormindo ao volante – eles deveriam estar atentos. Penso que a inflação será um problema, um problema real, muito em breve para o mundo ocidental".

"O Brasil, porque tivemos experiências anteriores trágicas com a inflação, nós movemos mais rápido”, ponderou o ministro.

Perspectivas

Referindo-se ao comentário de Lagarde sobre o mercado de trabalho, Guedes lembrou que, em 2019, o mundo estava, segundo diversas autoridades monetárias, em uma “desaceleração sincronizada”.

“Fomos então afetados pela covid-19 e respondemos [no Brasil] de forma a evitar uma grande depressão. Agora estamos de volta à situação de desaceleração sincronizada e avanço de economias. Mas agora a inflação está aí. A questão é saber o quão transitórios são esses fatores”, disse o ministro.

Guedes afirmou ainda que o Brasil é provavelmente o único país que retirou as políticas expansionistas assim que a economia retomou.

O Ministro disse que o Brasil estava decolando antes da crise sanitária, precisou ampliar os gastos para ajudar os mais vulneráveis, e já voltou ao patamar pré-pandemia de despesas em proporção do PIB.

"Nosso banco central está agora com juros reais de três ou quatro por cento. No lado fiscal, estávamos gastando 19% do PIB em despesas públicas em relação ao PIB do governo federal. Fomos para 26,5% em 2020 como resposta à crise e terminamos 2021 com 19% novamente. Todas as nossas despesas foram para a saúde. Não deixamos que as despesas temporárias com o problema de saúde se tornassem despesas permanentes com a máquina pública", explicou.

O ministro destacou  que o País já vacinou “95% da população adulta” contra complicações graves da covid-19 e concordou plenamente que "é muito importante manter nossos olhos nas especificidades de cada país a partir de agora".

"As vacinas comuns estão lá mas as respostas foram diferentes e temos situações assimétricas. Vacinamos 95% da nossa população adulta com duas doses, ou 70% de toda a nossa população. Estamos praticando agora um retorno seguro ao trabalho".

Segundo Guedes, há espaço fiscal para reagir a uma terceira ou quarta onda de covid-19 –  os programas de 2020 e 2021 foram bem sucedidos e estão prontos para serem repetidos caso a pandemia se agrave, disse.

"É claro que a Ômicron ainda está por perto, infectando pessoas. Parece um pouco menos grave, mas estamos prontos com o protocolo. Caso a crise da saúde agravar, estamos prontos para reativar novamente todos os nossos programas. Eles foram muito bem sucedidos na preservação do emprego formal, os programas de crédito, as transferências diretas de renda, e estamos prontos para vacinar em massa com uma terceira dose. Nós estaremos produzindo aqui no Brasil também. Já temos acordos com os britânicos (AstraZeneca) e os americanos (Pfizer) para produzir localmente. Vamos estar produzindo localmente e exportando para nossos vizinhos", disse Guedes.

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