No relatório Global Economic Prospects de junho, divulgado nesta terça-feira (7), o Banco Mundial prevê que o crescimento global caia de 5,7%, em 2021, para 2,9% este ano, "significativamente abaixo" dos 4,1% previstos em janeiro.

O banco alerta ainda para o "risco aumentado de estagflação, com as consequências potencialmente prejudiciais para as economias com rendimentos médios e baixos" em cenário de "desaceleração da economia global, que está entrando no que pode se tornar um período prolongado de crescimento fraco e inflação elevada".

Na avaliação do Presidente do Banco Mundial, David Malpass, o conflito na Ucrânia, os lockdowns na China, as interrupções nas cadeias produtivas e o risco de estagflação estão penalizando o crescimento.

O fato é que as sanções que estão sendo impostas à Rússia pelos EUA e a União Europeia estão tendo mais impacto na economia global do que o próprio conflito.

"Se dermos alguns passos para trás, começamos a ver quem realmente é culpado por nossos problemas inflacionários: nossos líderes, que acreditam que podem intervir desajeitadamente em nossas economias à vontade. Essa tendência começou com os lockdowns, onde tratavam a economia como um ventilador de mesa que poderia ser desligado. E nós vimos isso novamente após a invasão da Ucrânia, onde eles elaboraram pacotes de sanções arbitrárias enquanto ignoravam completamente seus efeitos potenciais", escreve Philip Pilkington em You can’t blame Russia for all the world’s problems.

"Se a guerra na Ucrânia não tivesse começado, nossos líderes poderiam ter avaliado as consequências de suas ações durante os lockdowns. Mas a guerra deu-lhes cobertura para se intrometer em nossas economias", acrescenta.

"No clássico 1984, de George Orwell, os personagens do romance acreditaram na narrativa do Partido e aceitaram que a escassez e a pobreza que vivenciavam eram resultado das ações do inimigo no exterior. Mas as pessoas em nossas sociedades sabem que nossos líderes são os culpados – a narrativa do Partido vai desmoronar muito em breve", conclui Pilkington.

Estagflação

A recuperação da estagflação da década de 70 exigiu significativos aumentos das taxas de juro nas principais economias desenvolvidas, que desempenharam papel fundamental no desencadear de uma série de crises financeiras nos mercados emergentes e nas economias em desenvolvimento.

"A conjuntura atual se assemelha à década de 1970 em três aspectos-chave: persistentes distúrbios do lado da oferta que alimentam a inflação, precedidas por um período prolongado de política monetária altamente acomodatícia nas principais economias avançadas; perspectivas de enfraquecimento do crescimento; e vulnerabilidades que os mercados emergentes e as economias em desenvolvimento enfrentam em relação ao aperto da política monetária que será necessário para controlar a inflação", enumera o Banco Mundial.
"No entanto, o episódio em curso também difere da década de 1970 em múltiplas dimensões: o dólar é forte, um contraste acentuado com sua grave fraqueza na década de 1970; os aumentos percentuais nos preços das commodities são menores; e os balanços das principais instituições financeiras são geralmente fortes. Mais importante, ao contrário da década de 1970, os bancos centrais em economias avançadas e muitas economias em desenvolvimento agora têm mandatos claros para a estabilidade dos preços e, nas últimas três décadas, estabeleceram um histórico crível de atingir suas metas de inflação", diz o relatório.

"As economias em desenvolvimento terão que equilibrar a necessidade de garantir a sustentabilidade fiscal com a necessidade de mitigar os efeitos das crises atuais sobrepostas sobre seus cidadãos mais pobres", disse Ayhan Kose, diretor do Grupo de Perspectivas do Banco Mundial. "Comunicar claramente as decisões de política monetária, aproveitar os quadros críveis da política monetária e proteger a independência do Banco Central pode efetivamente ancorar as expectativas de inflação e reduzir a quantidade de aperto de política necessário para alcançar os efeitos desejados sobre a inflação e a atividade".

O relatório observa que, se a inflação permanecer elevada, "uma repetição da resolução do episódio anterior da estagflação pode se traduzir em uma forte desaceleração global, juntamente com crises financeiras em alguns mercados emergentes e economias em desenvolvimento".

A publicação também destaca a necessidade de ações políticas globais e nacionais decisivas para evitar as piores consequências da crise da Ucrânia para a economia global, o que envolverá esforços globais para limitar os danos aos afetados pelo conflito; para amortecer o golpe do aumento dos preços do petróleo e dos alimentos; para acelerar o alívio da dívida; e para expandir as vacinas em países de baixa renda. Também envolverá respostas de oferta em nível nacional, mantendo os mercados globais de commodities funcionando bem.

O banco recomenda ainda que os formuladores de políticas devem abster-se de políticas distorcionárias, como controles de preços, subsídios e proibições de exportação, o que poderia piorar o recente aumento dos preços das commodities. No cenário desafiador de inflação mais alta, crescimento mais fraco, condições financeiras mais apertadas e espaço limitado de política fiscal, os governos precisarão priorizar os gastos em direção ao alívio direcionado para populações vulneráveis.

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