O Governo Fernández anunciou que capacitará aposentados para que atuem no controle do programa de preços tabelados, o chamado “Precios Cuidados”, um acordo entre o governo central argentino e 20 cadeias de supermercados.

O treinamento "orientará os idosos a reconhecer os objetivos do programa e o uso do aplicativo", a fim de "orientar os centros de aposentadoria para acompanhamento e monitoramento dos Precios Cuidados nos pontos de venda que aderiram ao programa”, diz o comunicado.

"É muito importante voltarmos a gerar um processo de participação cidadã com um Estado presente que lhes dê ferramentas para que eles possam se defender", destacou Alejandro Vanoli, titular da Administración Nacional de la Seguridad Social (Anses). "Isso faz parte de um conjunto de ações de treinamento que realizaremos nos centros de aposentados e pensionistas", completou.

“Para garantir a eficácia do Precios Cuidados é fundamental a participação da cidadania. Temos que ir aos supermercados e fiscalizar os preços”, declarou a Secretária de Comércio Interior, Paula Español.

A iniciativa foi comunicada no último domingo (2) por insistência de Español, que aposta no poder de fiscalização dos aposentados e no impacto popular da narrativa: um governo preocupado com a inflação e o custo de vida.

Alguns sindicatos peronistas e grupos de piquetes saíram na semana passada para "participar do controle de preços", disse o taxista Omar Viviani ao Infobae Económico. "Agora é a hora dos aposentados".

O tabelamento de preços faz parte de uma estratégia para garantir o fornecimento a todos os setores da população, afirmou Paula Espanol, em comunicado.

No entendimento de um número de consumidores, o programa é falho.

Esta es la mentira mas grande. La yerba Rosamonte de medio a $100. Yo consigo La Hoja el kg x $140. El aceite Patito lo conseguia a $99, con sus Precios Cuidados lo llevaron a $124 a todos. El pollo en el Vea hoy $75, ud lo tienen en su listado a $113. @juditchenau·Feb 2
PreciosCuidados jaja es gracioso ver a los soldaditos kk's todos posteando lo mismo con lo de la app de precios cuidados que en realidad son mas caros que los otros que manga de boludos así está el país. @melissamedieval·Feb 2
La semana antes de #PreciosCuidados en Carrefour este producto estaba en oferta 2x1 y te costaba aprox. $80 cada pote. Ahora con #PreciosCuidados miren... @CordubensisX·Feb 2
La semana antes de #PreciosCuidados en Carrefour este producto estaba en oferta 2x1 y te costaba aprox. $80 cada pote. Ahora con #PreciosCuidados miren... @CordubensisX·Feb 2. Reprodução/Twitter
Se probó en Estados Unidos, se probó en Chile, se probó en Colombia, se probó en Brasil, se probó en Argentina, y hasta se probó en el Imperio Romano. 4000 años de historia nos demuestran que los controles de precios NO FUNCIONAN @GorilaGolpista·Feb 2.

O Precios Cuidados é uma marca específica de um produto. Um tipo de salsicha. Um tipo de desodorante. As outras marcas podem flutuar os preços. As empresas que têm produtos de Precios Cuidados geralmente têm outras marcas com preços livres. Também existem marcas mais baratas que as listadas no Precios Cuidados.

O governo peronista aposta na confusão entre comprar produto e comprar preço.

O Brasil passou por medidas semelhantes, como o tabelamento do preço de um determinado tipo de pão, com as padarias livres para precificar os demais. O resultado foi a oferta de um produto calculadamente de péssima qualidade, "o pão que o diabo amassou", avaliavam os consumidores forçados a comprar pães mais caros.

Entre os atuais 311 produtos tabelados na Argentina, estão quatro tipos de cortes de carne bovina.

O consumo de carne vermelha no país caiu para o nível mais baixo em um século.

O prato nacional é uma questão estratégica para o presidente Alberto Fernández, que está tentando controlar ainda mais o preço para tornar a carne acessível novamente. No Brasil, o efeito foi desabastecimento e a caça ao boi no pasto.

Para o Governo Sarney, os criadores estavam com os bois nos pastos em condições de abate, mas não concordavam em vendê-los pelo preço. Em outubro de 1986, o então presidente José Sarney anunciou uma de suas últimas cartadas para fazer vingar o fracassado Plano Cruzado: o confisco de gado de corte em Estados criadores. O governo chegou a promover uma carreata para o distinto público, um comboio de 14 caminhões carregando 247 bois confiscados por entidades federais.

Intervenção do Estado

A carne bovina tornou-se parte polêmica de uma estratégia econômica focada no consumidor quando Fernández serviu como chefe de gabinete do ex-presidente Nestor Kirchner.

Em 2006, Kirchner suspendeu todas as exportações de carne bovina para manter os preços locais sob controle.

Nos 12 anos em que os Kirchners ocuparam a presidência da Argentina, o consumo doméstico de carne bovina foi puxado por proibições periódicas de exportação e tabelamentos com preços máximos.

O resultado foi a saída de criadores do negócio, a diminuição dos rebanhos, a redução dos estoques, e o crescimento da dívida externa.

O impacto das medidas implementadas há mais de uma década ainda permanece hoje, de acordo com Miguel Schiariti, presidente do grupo industrial CICCRA.

"Doze anos depois, recuperamos apenas metade do gado que perdemos", analisou. "Como uma casa que você derruba com uma bola de demolição, os rebanhos são fáceis de destruir, mas difíceis de reconstruir."

A desregulamentação do antecessor de Fernández, Mauricio Macri, ajudou o setor a aumentar as exportações e recuperar os rebanhos.

Em 2019, a Argentina exportou 830 mil toneladas de carne bovina, ante 200 mil em 2015.

Agora, o Governo está discutindo a possibilidade de adicionar mais cortes de carne bovina ao Precios Cuidados, disse uma autoridade do Ministério da Produção na semana passada.

No momento, com preços tabelados para quatro cortes, os supermercados compensam cobrando mais por outros cortes, permitindo que os pecuaristas obtenham preços de mercado.

Oscar Maradei não vê recuperação em seu açougue. Suas vendas caíram 40 por cento no ano passado, a pior queda em 36 anos trabalhando com carne bovina.

"Não se trata de comer menos carne vermelha", apontou Maradei. "É um problema de perda de poder de compra, esse é o problema".

* Com dados e informações do Buenos Aires Times, Infobae Económico, Bloomberg, Twitter

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