O setor de aviação aérea comercial sofre crise sem precedentes com a pandemia de coronavírus (SARS-CoV-2) e está alertando que deve realizar demissões e precisa do apoio do Estado.

Empresas de aviação de todo o planeta suspenderam operações da maior parte de suas frotas e estão adotando medidas na tentativa de preservar o dinheiro em caixa.

As restrições impostas por governos se somam à queda na demanda, provocada pelo temor dos clientes, cancelamento de eventos e congressos, e fechamento de atrações turísticas em todo o mundo.

Nos países em que as frotas não estão paralisadas, “as restrições de distanciamento social podem tornar os voos impraticáveis, para todos os fins, se não impossíveis”, disse Michael O’Leary, Presidente-Executivo da Ryanair, a maior companhia de aviação de baixo custo da Europa.

Na terça-feira (10), Scott Kirby, Presidente da United Airlines Holdings Inc., descreveu um "cenário terrível" em que as vendas mensais mergulhariam 70% até o início de junho, depois 60% naquele mês e 40% em julho e agosto.

A expectativa era cortar a capacidade doméstica em 10% e a internacional em 20%.

O cenário era demasiado otimista, como ficou claro no dia seguinte.

Em pronunciamento na noite de quarta-feira, Trump afirmou que iria suspender por 30 dias, a partir da sexta-feira, as viagens com destino aos Estados Unidos partindo da Área Schengen, que reúne 26 países europeus, como medida contra a pandemia.

No sábado (14), o governo americano acrescentou o Reino Unido e a Irlanda na lista de suspensão de voos.

Na segunda-feira (16), companhias aéreas e sindicatos pediram US$ 58 bilhões em ajuda dos Estados Unidos para enfrentar uma tempestade que superou os ataques terroristas de 2001 em termos de impacto nos negócios.

"Essa crise atingiu na velocidade da luz um setor anteriormente robusto e saudável", disse a Airlines for America em comunicado. A organização esboçou uma proposta de US$ 50 bilhões para companhias aéreas de passageiros e US$ 8 bilhões para transportadoras de carga.

Nas últimas 24 horas, a United Airlines, a IAG —controladora da British Airways, Aer Lingus e Iberia—, a AirFrance-KLM, e a easyJet, Finnair, Air New  Zealand e Aeroflot anunciaram medidas drásticas de corte de custos depois que diversos países, entre os quais Alemanha e Espanha, fecharam suas fronteiras.

A United planeja reduzir sua capacidade à metade em abril e maio, e alertou seus quase 100 mil funcionários de cortes “dolorosos” na folha salarial.

"O tempo para agir é agora", disse a Airlines UK, uma associação de empresas de aviação com operações no Reino Unido, cujos membros incluem British Airways, Virgin Atlantic, Norwegian e Ryanair.

A Virgin Atlantic Airways solicitou ao Reino Unido um pacote de bilhões de dólares para o setor de transporte aéreo.

Na Austrália, onde a Qantas Airways cancelou quase todos os serviços internacionais, o governo disse que está considerando os desafios do setor.

A Air France-KLM disse ter recebido sinais dos governos francês e holandês de que medidas de apoio ao grupo estão sendo estudadas, após ter anunciado que estava reduzindo sua capacidade entre 70% e 90%, e que tinha uma “trajetória financeira severamente deteriorada”.

As companhias aéreas de todo o mundo estão fazendo pedidos semelhantes de ajuda à medida que as reservas evaporam.

As três alianças globais de companhias de aviação — Star Alliance, Oneworld e SkyTeam, que representam cerca de 60 companhias de aviação e metade da capacidade mundial de transporte aéreo — apelaram a governos, aeroportos, credores e outras partes interessadas para que ajudem o setor durante a crise.

“Muitas companhias de aviação já estão tecnicamente em concordata, a esta altura, ou no mínimo estão violando severamente os termos de pagamento de suas dívidas”, afirmou a empresa de consultoria CAPA em relatório. “Pelo final de maio de 2020, a maioria das companhias de aviação do planeta estará em concordata. Ação coordenada dos governos e do setor é necessária –já– se queremos evitar uma catástrofe”.

Mas o pedido de assistência do contribuinte por meio de empréstimos, doações e benefícios fiscais vem após uma década de consolidação maciça – e bilhões em lucros – que colocam o setor em uma condição muito mais robusta do que antes.

Além disso, de 2010 a 2019, as companhias aéreas dos EUA gastaram 96% de seu fluxo de caixa livre, cerca de US$ 45 bilhões, para recomprar suas ações, de acordo com dados compilados pela Bloomberg –  o American Airlines Group Inc gastou US$ 12,5 bilhões.

Os programas de recompra visam aumentar os preços das ações. Essa utilização do capital, em detrimento da formação de reservas, deve ganhar atenção à medida que a questão da ajuda com dinheiro do contribuinte é debatida.

American Airlines

Em meio ao maior apagão aéreo da história, a American Airlines anunciou no domingo (15) que vai cancelar 75% dos seus voos internacionais de longa distância, incluindo aqueles das rotas entre Miami, New York, Los Angeles e Dallas e destinos no Brasil. Os clientes poderão pedir reembolso ou remarcar os voos, a maioria com retorno previsto para o dia 6 de maio. Na rota Dallas-São Paulo, a suspensão vale até o dia 3 de junho, e a retomada da operação da rota LA-São Paulo será apenas em 24 de outubro.

Segundo a companhia, entre os voos internacionais de longa distância serão mantidos apenas um voo diário de Dallas para Londres, um voo diário de Miami para Londres, e três voos semanais de Dallas para Tóquio. Voos internacionais mais curtos, para Canadá, México, Caribe, América Central e alguns países do norte da América do Sul serão mantidos.

A American Airlines também anunciou a readequação da malha doméstica, com a redução da capacidade em 20% no mês de abril e de 30% em maio, em comparação com o ano passado.

Delta Air Lines

A Delta Air Lines anunciou corte de 40% de sua capacidade, a maior redução na história da terceira maior empresa aérea do mundo, atrás apenas da United e da American Airlines em tamanho de frota e número de passageiros transportados.

A Delta voa para 57 países e nos 5 continentes.

"Cerca de 300 aviões serão retirados de serviço", informou o Diretor-Executivo, Ed Bastian, aos funcionários. "A redução da capacidade requer uma frota substancialmente menor”.

Latam Airlines

Na segunda-feira, a companhia aérea Latam Airlines anunciou o cancelamento de 90% das viagens internacionais e 40% dos voos domésticos devido ao fechamento de fronteiras em vários países e queda brusca na demanda. Os clientes que tiverem seus voos cancelados poderão remarcar as passagens até 31 de dezembro.

"Tomamos essa decisão difícil após o fechamento de fronteiras que impossibilitaram a operação em grande parte de nossa rede", disse o Presidente da Latam, Roberto Alvo. "Se essas restrições de viagens sem precedentes forem estendidas nos próximos dias, não podemos descartar novas reduções em nossa operação".

Azul

A Azul Linhas Aéreas Brasileiras anunciou na segunda-feira a redução de sua capacidade consolidada de 20% a 25% no mês de março, e entre 35% e 50% em abril e meses seguintes, até que a situação se normalize.

A companhia aérea também comunicou que todos os voos internacionais, exceto os que partem de Campinas (SP), serão suspensos.

"Embora nossa principal prioridade continue sendo a saúde e a segurança de nossos tripulantes e clientes, continuamos focados no ajuste da capacidade de acordo com a variação na demanda e na preservação de nossa posição de caixa durante esse período desafiador", disse John Rodgerson, CEO da Azul.

A empresa decidiu pelo estacionamento de aviões e a suspensão de entrega de novas aeronaves.

Gol Linhas Inteligentes

A companhia aérea Gol anunciou nesta terça-feira (17) que vai cancelar a partir de 23 de março todas as suas operações internacionais até o fim de junho, incluindo destinos de América do Sul, Estados Unidos e México.

A maior empresa aérea do Brasil citou necessidade de "se adequar ao novo cenário de demanda por transporte aéreo, dado o advento do coronavírus em nível global".

A companhia também mencionou restrições de viagens tomadas por autoridades nos países onde opera.

Para a Argentina, os últimos voos serão entre Rio de Janeiro e Córdoba e Rosário, em 22 de março. Para os Estados Unidos, os últimos de Brasília e Fortaleza para Orlando, saem dia 20, mesmo dia da última operação para o México.

* Com dados e informações da Agência Brasil, Bloomberg, Folha de S.Paulo

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