À medida que a Europa e o mundo começam a examinar os destroços do lockdown, e as populações continuam sendo ordenadas por governantes a viver com medo de perder a vida, uma questão permanece pendente: a Suécia estava certa?

A Suécia não implementou leis para quarentena e isolamento social e as autoridades de saúde recomendam não usar máscara. Escolas, fábricas, lojas, shoppings, academias, salões, restaurantes, cafés, bares, teatros, boates, cinemas, clubes e parques suecos não fecharam. A sociedade permanece livre.

Dois cientistas, Johan Giesecke e Anders Tegnell, formularam uma política pública baseada em compreensão, cuidado e segurança com o próximo – uma forma de isolamento social baseado em cidadania – e obtiveram forte apoio e cooperação da população.

A economia sueca sofreu com a queda nas exportações, mas manteve-se aberta e funcionando, e o país não viu um aumento do número de “mortes em excesso por todas as causas” devido a um colapso em outras áreas de cuidados críticos de saúde.

Nos Estados Unidos, 35% das mortes em excesso não são explicadas pela Covid-19, mas pelos lockdowns.

Para Tegnell, o lockdown não tem base científica, bastando um certo grau de distanciamento social e evitar multidões. Giesecke, um virologista veterano da Organização Mundial da Saúde (OMS), diz que o vírus SARS-CoV-2  é "um tsunami que varre o mundo", mas observa que a Covid-19 ameaça sobretudo as pessoas idosas e que o país falhou em proteger os idosos e vulneráveis no início do surto, principalmente em instalações de cuidados de longo prazo.

Em entrevista à Freddie Sayer, editor do UnHerd, Tegnell destacou as enormes diferenças de número de doentes de Covid-19 entre as diferentes regiões da Suécia.

Tegnell explicou que as férias de primavera na Suécia estão espalhadas por quatro semanas diferentes, dependendo das diferentes regiões geográficas, e o período de férias de Estocolmo ocorreu justamente quando houve uma enorme disseminação do vírus na Europa.

"Muitos suecos que moravam na região de Estocolmo voltaram com a doença. E isso iniciou uma epidemia em um nível muito superior ao início da epidemia no sul da Suécia, na Finlândia ou na Noruega. Atualmente, essa é para mim a teoria mais provável – que, se você fizer uma introdução maciça, será uma doença muito, muito difícil de controlar", disse Tegnell.

Em outras palavras, Estocolmo foi mais como Londres ou New York do que Oslo ou Helsinque em termos de introdução do vírus.

A taxa de mortalidade, cerca de 550 por milhão de habitantes, sempre muito citada pelos críticos da estratégia sueca, está abaixo do Reino Unido e da Itália, e muito acima da Noruega e da Dinamarca, embora o sistema de contagem sueco de mortes seja mais preciso e abrangente do que em outros países. Na Noruega, por exemplo, apenas pacientes com a doença confirmada que falecem em hospitais são contados como vítimas da Covid-19. O próprio governo norueguês reconhece que a comparação é indevida.

O Dr. Tegnell ressalta que com suas maiores populações de migrantes e densas áreas urbanas, a Suécia é realmente mais semelhante à Holanda e ao Reino Unido do que a outros países escandinavos. Além disso, os países estão em diferentes pontos do ciclo epidêmico, portanto seria muito cedo para comparar os totais.

De fato, comparar taxa de mortalidade entre países é um exercício de futilidade e uma forma sombria de fazer política. A métrica "mortes em excesso", expressa em dias, que compara o total de mortes atual com a média histórica do país, mostra a Suécia com 15 dias enquanto o Reino Unido registra 45 dias, com perspectiva de 60 dias. Para o Brasil, Michael Levitt estimou que o indicador se situará em torno de 30 dias de "mortes em excesso" por Covid-19.

Casos

Atualmente, a propagação do coronavírus na Suécia é limitada. O número de novos casos está caindo rapidamente, há leitos livres em qualquer momento, os cuidados de saúde estão funcionando – não há aglomerações em hospitais.

O Dr. Tegnell acredita que a ênfase na disseminação do vírus é equivocada, pois o número de casos é cada vez menos relacionado ao número de mortes.

“As mortes não estão intimamente ligadas à quantidade de casos que você tem em um país. Existem muitos outros fatores que influenciam a quantidade de óbitos. Que parte da população é atingida? São os idosos? Quão bem você pode proteger as pessoas em suas instalações de longo prazo? Quão bem o seu sistema de saúde continua funcionando? Como podemos melhorar o tratamento nas UTIs? Todas essas coisas estão mudando bastante nos últimos meses ... Essas coisas influenciarão muito mais a mortalidade do que a propagação real do vírus”, afirma Anders Tegnell.

Lockdown

Questionado se a decretação de lockdown na Suécia teria feito diferença, Tegnell disse que não sabe, mas precisaria considerar também os efeitos negativos.

"Talvez tivesse feito alguma diferença, não sabemos. Mas, por outro lado, sabemos que os lockdowns têm grandes efeitos na saúde pública. Sabemos que o fechamento de escolas tem um grande efeito na saúde das crianças a curto e longo prazo. Sabemos que as pessoas que estão sem trabalho também geram muitos problemas na área de saúde pública. Por isso, também precisamos analisar quais são os efeitos negativos dos lockdowns, e isso ainda não foi feito muito até agora”.

"De certa forma, tivemos um lockdown muito rigoroso na Suécia. Reduzimos bastante o movimento na sociedade: comparamos o quanto viajamos nos países escandinavos e a diminuição das viagens é a mesma na Suécia e nos países vizinhos ... De muitas maneiras, as medidas voluntárias que adotamos na Suécia foram tão eficazes quanto lockdowns completos em outros países. Portanto, não acho que o lockdown total seja o caminho a seguir para todos os países ... os casos em rápido declínio que vemos na Suécia neste momento são outra indicação de que você pode reduzir bastante o número de casos em um país sem ter lockdown”.

Erradicação

Para Tegnell, a estratégia alternativa da erradicação – a abordagem de tolerância zero que está sendo considerada pelos EUA –  também não é uma opção viável.

"Não acho que seja uma doença que possamos erradicar – não com os métodos que temos atualmente. Pode ser uma doença que, a longo prazo, possamos erradicar com uma vacina, mas não tenho certeza disso. Se você observar doenças comparáveis, como gripe e outros vírus respiratórios, não estamos nem perto de erradicá-los, apesar de termos uma vacina. Pessoalmente, acredito que é uma doença com a qual teremos que aprender a conviver”.

Ken Frazier, Presidente e CEO da principal produtora de vacinas do mundo, a gigante farmacêutica Merck & Co., recentemente expressou entendimento semelhante.

"A realidade do mundo é que nesta época do próximo ano muito bem pode parecer com o que estamos experimentando agora", alertou o executivo.

Segunda onda

Freddie Sayer perguntou ao Dr. Tegnell se a Suécia estará em melhor posição para limitar futuros surtos do que países que tiveram níveis mínimos de infecção até agora.

"Acho que é provável que esse tipo de surto seja mais fácil de ser limitado na Suécia, porque há imunidade na população. Toda a nossa experiência com sarampo e outras doenças mostra que ... sabemos que, com grande imunidade na população, é muito mais fácil controlar os surtos do que se você não tiver imunidade na população", ponderou Anders Tegnell.

“Atualmente, existem vários países na Europa com um nível de propagação bastante baixo por um período muito longo, o que é incomum para uma doença que parece ser tão contagiosa e com pouca imunidade na população. Se essa é realmente uma maneira sustentável da doença existir, vamos esperar e ver – acho que o outono vai mostrar se é possível ou não”, disse o epidemiologista sueco.

"É melhor ter uma discussão mais completa sobre isso em 12 meses, depois do próximo verão, então acho que podemos julgar de maneira mais justa o que tem sido bom em alguns países e ruim em outros países", disse Tegnell.

Máscaras

Ao contrário de muitos outros países europeus, a Suécia não recomenda o uso de máscaras ao público em geral, mas não é um caso isolado. Nos países nórdicos, o uso de máscara pela população é inferior a 5% – na Suécia, 2%.

“Uma razão é que a base de evidências para o uso de máscaras na sociedade ainda é muito fraca. Mesmo agora com cada vez mais países impondo o uso de maneiras diferentes ... não vimos novas evidências científicas surgindo, o que é um pouco surpreendente. A outra razão é que tudo nos diz que manter distância social é uma maneira muito melhor de controlar essa doença do que colocar máscaras nas pessoas. Estamos preocupados com o fato de as pessoas colocarem máscaras e então acreditarem que podem andar pela sociedade próximas umas das outras, até mesmo sair de casa com sintomas. E isso, em nossa opinião, certamente produziria uma disseminação mais alta do que temos agora”, explicou Tegnell.

Surpreendentemente, as novas diretrizes das autoridades europeias (European Commission, EU Agency for Railways e European Centre for Disease Prevention and Control) seguem as advertências suecas em relação às máscaras, incluindo que elas precisam ser manuseadas e descartadas corretamente e que os usuários precisam estar cientes da falsa sensação de segurança e garantir que continuem seguindo outras medidas de saúde, higiene e segurança.

"O uso de máscaras faciais deve ser considerado apenas como uma medida complementar e não substituir as medidas preventivas adotadas, principalmente etiqueta respiratória, distanciamento físico, higiene meticulosa das mãos e evitar tocar o rosto, nariz, olhos e boca", orienta o relatório europeu.

O Professor Carl Heneghan, epidemiologista do Centro de Medicina Baseada em Evidências da Universidade de Oxford, Reino Unido, resumiu a questão:

“As pessoas podem usar máscaras, mas não podem dizer que é uma decisão baseada em evidências ... há uma separação real entre uma decisão baseada em evidências e o termo opaco de que 'estamos seguindo a ciência', o que não é uma evidência".

* Com informações do UnHerd

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