Em nota, a empresa aérea informou que tentou contato com os clientes, "mas em muitos casos não foi possível avisar os passageiros com antecedência".

Até mesmo malas foram despachadas pouco antes da paralisação das atividades.

A expectativa é que a crise e a suspensão das operações a uma semana do Natal vai gerar um caos na aviação nacional, com milhares de passageiros sem poder voar na alta temporada – os voos das outras companhias já estão praticamente lotados.

Rumores apontam que o braço de transporte aéreo do Grupo Itapemirim tem passagens vendidas para voos marcados até meados de 2022, pelo menos.

Comprovadamente, apenas nas próximas duas semanas, a ITA tinha mais de 5oo voos programados até 31 de dezembro.

O diretor comercial da empresa, Diógenes Toloni, disse ao portal Panrotas que havia pelo menos 20 mil passageiros a serem reacomodados.

Segundo estimativas do setor de turismo, 40 mil passageiros podem ser afetados pelos cancelamentos dos voos neste final de ano.

Em nota à imprensa, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) disse que foi informada sobre a decisão da companhia por volta das 18h desta sexta e que determinou à empresa que “preste imediatamente atendimento integral a todos os passageiros e comunique, individualmente, sobre cancelamento de voos e reacomodações, bem como garanta o reembolso das passagens aéreas comercializadas”.

Além da suspensão da licença para voar, a ITA foi proibida pela Agência de vender passagens aéreas e fazer propaganda, e obrigada a "comunicar a paralisação" em veículos de imprensa "de ampla divulgação".

Por sua vez, a Anac recomenda que os passageiros com voos previstos a partir deste sábado (18) não compareçam aos aeroportos antes de contactar a ITA.

A transportadora pede que os passageiros com viagens programadas para os próximos dias entrem em contato por e-mail, ou pelo chat disponível no site da companhia, e promete dedicar o máximo esforço para, em breve, retomar seus voos.

"A ITA lamenta os transtornos causados e afirma que irá continuar prestando toda assistência aos passageiros impactados, conforme prevê a resolução 400 da ANAC. A companhia orienta os passageiros com viagens programadas para os próximos dias que entrem em contato pelo e-mail falecomaita@voeita.com.br".

Em nota aos funcionários, o Grupo Itapemirim informou que suspendeu temporariamente as operações da companhia aérea para uma reestruturação, sem mencionar prazos ou detalhes, e ressaltou que a decisão não afeta a Viação Itapemirim, cujas operações seguem normalmente.

A ITA é um caso único de uma companhia aérea de porte se lançar no mercado em meio a maior crise da história da aviação comercial.

Fundada pelo empresário paranaense Sidnei Piva, dono de inúmeros negócios, entre eles, do Grupo Itapemirim, o qual preside, a empresa aérea entrou em operação em junho sob forte desconfiança do mercado, uma vez que o grupo estava saindo, por lei, de um processo de recuperação judicial iniciado em 2016, restando muitas questões que precisavam de aval da justiça para o pagamento gradativo dos credores.

Piva anunciou em junho que a nova companhia aérea, que não está envolvida no plano de recuperação acordado em assembléia do Grupo Itapemirim, iria oferecer serviços de bordo premium e intermodalidade com ônibus.

“Será algo visto apenas na Varig ou na Emirates”, acrescentou o empresário.

A proposta era conquistar 40% do mercado brasileiro com passagens baratas e fazer voos para a Europa. O foco seria no Airbus A320 ceo, com 162 assentos.

Em uma entrevista à Exame em junho, Piva revelou que parte dos investimentos na companhia aérea viriam do exterior.

“É dinheiro árabe. São dois fundos, que têm confidencialidade porque investem em outras companhias do mundo. E o dinheiro foi utilizado e será utilizado estamos muito sólidos no que diz respeito às finanças para futuro e para investimento. Mas não são só esses fundos. Devido à multimodalidade com rodovia, ferrovia e aviação, isso começou a ficar atrativo para o mercado. Fala de mobilidade e fala de infraestrutura. Então, acaba sendo modelo de investimento do mundo", disse o presidente do Grupo Itapemirim.

Piva dizia ter assegurado US$ 500 milhões com investidores que conheceu quando integrou uma comitiva de empresários que acompanhou autoridades do governo paulista em uma viagem a Dubai. O investimento arábe ainda não aconteceu.

A empresa aérea começou a vender passagens antes de obter a autorização formal da Anac, em maio, oferecendo bilhetes até 65% mais baratos quando comparados à concorrência, mas duas semanas antes do início da operação comercial, em 29 de junho, teve que promover uma alteração na malha de voos, provocando uma série de cancelamentos, devido a contratempos na importação das aeronaves.

A companhia começou a operar com 8 destinos, prometendo chegar a 35 cidades brasileiras ainda em 2021 e expandir a frota de 5 para 50 aviões até o fim de 2022.

A ITA emprega diretamente 462 pessoas. A frota atual é composta por sete aeronaves Airbus A320, com cinco aviões em operação e dois aguardando slots. Foto: © Grupo Itapemirim
A ITA emprega diretamente 462 pessoas. A frota atual é composta por sete aeronaves Airbus A320, com cinco aviões em operação e dois aguardando slots. Foto: © Grupo Itapemirim

Para conquistar mercado, a empresa vendeu passagens em setembro por R$ 135, com direito a bagagem. Até então, a ITA já havia consumido pelo menos R$ 40 milhões do caixa do Grupo Itapemirim, levantados com a venda de terrenos, que estavam destinados aos credores e à operação de transporte rodoviário.

Os críticos apontam que a frota da ITA, com uma média de 15 anos de uso, tem contratos de arrendamento relativamente baratos devido à baixa demanda na aviação, mas são aeronaves pouco eficientes e com custos de operação e manutenção altos.

Nas últimas semanas, a ITA vinha atrasando o pagamento de salários, diárias e planos de saúde dos funcionários. A empresa também estava inadimplente com FGTS e devendo para os mais diversos fornecedores, de agência de publicidade a empresas de manuseio de bagagem nos aeroportos.

Para o combustível, os fornecedores estavam exigindo pagamento à vista.

O CEO da ITA, Adalberto Bogsan, disse ao Panrotas que estava esperando um aporte de R$ 200 milhões de um banco brasileiro, mas algo travou na negociação e o dinheiro não foi liberado.

O Grupo Itapemirim tem mais de R$ 200 milhões em dívidas reconhecidas no plano de recuperação, e deve outros R$ 2 bilhões para o fisco.

Piva trava uma batalha judicial com a família Cola, do fundador do Grupo Itapemirim, cujo negócio ele adquiriu por R$ 1 dentro da recuperação judicial.

O empresário, que fez fortuna adquirindo empresas em recuperação, primeiro no setor de transporte ferroviário e depois rodoviário, afirma que irá quitar as dívidas do Grupo Itapemirim e emergir como um grande grupo de transportes, integrando modais rodoviário e aéreo e entrando em licitações de metrôs e aeroportos.

Atualização 18/12/2021

Em nota divulgada na tarde deste sábado (18), a Itapemirim Transportes Aéreos informou que está realocando passageiros em voos de outras companhias.

A prioridade é para viajantes que estão fora da cidade em que residem. Os demais clientes serão reembolsados na totalidade do valor pago.

Segundo a ITA, havia 30 voos programados apenas para este sábado.

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