Entre abril e julho, em investigação sobre alegados crimes de guerra cometidos pela Rússia, a organização inspecionou locais de ataque, entrevistou sobreviventes, testemunhas e parentes de vítimas, e realizou análises de armas.

Ao longo dessas investigações, a Anistia Internacional encontrou evidências de forças ucranianas lançando ataques de dentro de áreas residenciais, bem como baseadas em edifícios civis em 19 cidades e vilas nas regiões de Kharkiv, Mikolayv e Donbass. O Laboratório de Evidências de Crise da organização analisou imagens de satélite para corroborar alguns desses incidentes, diz comunicado da ONG.

"A maioria das áreas residenciais onde os soldados se localizaram estava a quilômetros de distância das linhas de frente e alternativas viáveis estavam disponíveis que não colocariam em risco civis – como bases militares, áreas densamente arborizadas ou outras estruturas mais distantes de áreas residenciais".

"Nos casos documentados, a Anistia não está ciente de que os militares ucranianos pediram ou ajudaram civis a evacuar edifícios próximos – uma falha em tomar precauções viáveis para proteger os civis", acrescenta o documento.

O Direito Humanitário Internacional determina que todas as partes em um conflito evitem localizar, na medida do possível, objetivos militares dentro ou perto de áreas densamente povoadas. Outras obrigações para proteger os civis dos efeitos dos ataques incluem remover civis das proximidades de objetivos militares e dar um aviso efetivo de ataques que podem afetar a população civil.

As táticas da Ucrânia transformaram instalações civis e a população em alvos militares.

Pesquisadores da Anistia testemunharam as forças ucranianas usando hospitais como bases militares em cinco locais. Os militares ucranianos também criaram rotineiramente bases em escolas em cidades e vilas em Donbass e na área de Mykolaiv. Na maioria dos casos, os edifícios estavam localizados próximo de áreas povoadas.

Em 22 das 29 escolas visitadas, os pesquisadores da organização encontraram soldados usando o local ou evidências de atividade militar atual ou anterior. Em pelo menos três cidades, após o bombardeio russo das escolas, soldados ucranianos se mudaram para outras escolas próximas, colocando a vizinhança em risco de ataques semelhantes, relata o comunicado.

"Documentamos um padrão de forças ucranianas colocando civis em risco e violando as leis de guerra quando operam em áreas povoadas", afirmou a Secretária-Geral da Amnesty International, Agnès Callamard, no comunicado.

"Estar em uma posição defensiva não isenta os militares ucranianos de respeitar o Direito Humanitário Internacional", ressaltou.

A questão é por onde andou a Anistia Internacional nos 8 anos de guerra civil da Ucrânia após o governo Obama derrubar o presidente democraticamente eleito.

Atualização 06/08/2022

A representante da Anistia Internacional na Ucrânia, Oksana Pokaltchouk, anunciou este sábado em rede social a sua demissão, alegando que o relatório da organização acusando as forças armadas ucranianas de colocarem civis em perigo serviu de "propaganda russa".

A crítica irritou Kiev, tendo o chefe da diplomacia ucraniana, Dmytro Kuleba, afirmado "estar indignado" com as acusações "injustas" apontadas pela Anistia Internacional, enquanto o Presidente, Volodymyr Zelensky, disse que a organização está "tentando anistiar o Estado terrorista russo".

"Se não se vive num país invadido por ocupantes que o dividem, provavelmente não se entende o que é condenar um exército de defensores", argumentou Oksana Pokaltchouk.

A representante da ONG na Ucrânia disse ter tentado convencer a administração da Anistia Internacional de que o relatório era parcial e de que não levava em conta as opiniões do Ministério da Defesa ucraniano.

A Anistia "enviou perguntas ao Ministério da Defesa" da Ucrânia, mas "deu muito pouco tempo para uma resposta", disse.

Por isso, "a organização divulgou um relatório que parecia involuntariamente apoiar a versão russa. Num esforço para proteger os civis, este relatório tornou-se numa ferramenta de propaganda russa", lamentou.

Pokaltchouk afirmou que a Anistia ignorou os pedidos da sua equipe para não publicar o relatório, e que não será traduzido para o ucraniano.

Na sexta-feira (5), a Anistia disse à AFP que "mantém plenamente as nossas conclusões". Segundo o relatório, a Ucrânia põe em risco a vida de civis ao estabelecer instalações militares em escolas, hospitais e áreas residenciais e lança ataques de sistemas de foguetes e mísseis a partir de locais povoados contra as forças russas.

A Secretária-Geral da organização, Agnès Callamard, assegurou, na sexta-feira, que as conclusões do relatório são "baseadas em evidências recolhidas no final de extensas investigações que seguiram os mesmos padrões rigorosos e diligentes aos quais todo o trabalho da Anistia Internacional é realizado".

Callamard disse que este não é o momento de comentar as "imprecisões" na declaração de Pokalchuk, mas insistiu que o relatório passou por um "processo de revisão interna completo".

Antes da intervenção militar russa, relatórios publicados pelo Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH ) já conectavam forças ucranianas a crimes de guerra, como assassinatos de civis, saques em massa, detenção ilegal, violação sexual e tortura.

Cobertura da Ucrânia pela imprensa ocidental antes da intervenção russa
Cobertura da Ucrânia pela imprensa ocidental antes da intervenção russa

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