Atualização 04/09 - A porta-voz da Organização Mundial de Saúde (OMS), Margaret Harris, disse nesta sexta-feira (4) que nenhuma das candidatas a vacina que estão na fase III demonstrou, até agora, sinal claro de eficácia em um nível mínimo de 50% buscado pela OMS.

Os ensaios clínicos que começaram há mais tempo são da vacina da AstraZeneca. Existem 9 vacinas na fase III.
Atualização 08/09 - O estudo de Fase 3 da vacina Covid-19 da AstraZeneca foi suspenso em todos os países participantes devido a suspeita de reação adversa grave em um participante no Reino Unido.

O voluntário no estudo do Reino Unido recebeu um diagnóstico de mielite transversa, uma síndrome inflamatória que afeta a medula espinhal.

O mecanismo da mielite transversa em geral é desconhecido, mas alguns casos ocorrem após infecção viral ou vacinação, sugerindo uma reação autoimune. A inflamação tende a envolver a coluna vertebral difusamente em um ou mais níveis, afetando todas as funções da medula.

O momento do diagnóstico, e se está diretamente relacionado à vacina da AstraZeneca/Oxford, ainda é desconhecido.

Os ensaios clínicos da vacina experimental estão sendo realizados no Reino Unido, Brasil, África do Sul e Estados Unidos.

O Dr. Larry Corey, estrela da virologia global, dirige de Seattle o centro de operações da Rede de Prevenção Covid-19 (CoVPN), a colaboração nacional de pesquisadores acadêmicos e da indústria, criada com a tarefa de desenvolver múltiplas vacinas para ajudar a acabar com a pandemia do novo coronavírus.

Corey coordena os esforços de 72 locais de ensaios clínicos para várias vacinas candidatas.

Chamada de “Operação Warp Speed”, a busca por uma vacina Covid-19 é o projeto de desenvolvimento mais agressivo na história das vacinas, com um objetivo declarado de encontrar uma vacina eficaz até o início do próximo ano.

Corey observa que a velocidade não se aplica à parte científica do desenvolvimento de vacinas, que, sendo baseada na biologia, não pode ser apressada ou mesmo acelerada significativamente em relação ao seu ritmo normal.

Segundo Corey, um fator que favorece atingir o ambicioso objetivo, é o enorme investimento – que ele lançou e continua a supervisionar – na tentativa de desenvolver uma vacina contra a AIDS. “Pudemos simplesmente pivotar”, explica. “Temos uma infraestrutura incrível de laboratórios e clínicas muito sofisticadas, e é isso que todos fazemos o tempo todo para viver”.

Ele é o principal pesquisador do HIV Vaccine Trials Network, o maior esforço internacional dedicado ao desenvolvimento de uma vacina contra o HIV, com sede no Fred Hutchinson Cancer Research Center, em Seattle. Corey foi uma das primeiras pessoas contactadas por seu amigo de longa data e colaborador de pesquisa, Dr. Anthony Fauci, chefe do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, quando a necessidade de uma vacina Covid-19 disparou para o topo da agenda nacional de saúde.

Mutações

Corey considera o SARS-CoV-2, o vírus que causa a Covid-19, um oponente mais controlável do que o HIV.

“Sabemos que estamos alcançando o que não conseguimos no HIV: neutralizar anticorpos contra todas as cepas circulantes”, diz ele.

Os anticorpos são uma forma de o sistema imunológico combater as infecções e o corpo automaticamente os adapta ao patógeno invasor, tanto quanto pode. Às vezes, esses patógenos mudam ao longo do tempo de maneiras que fazem com que os anticorpos funcionem com menos eficácia ou nem funcionem, e é isso que cria diferentes "cepas".

Corey diz que as cepas do novo coronavírus parecem relativamente estáveis, e isso é uma boa notícia para o esforço da vacina. “O HIV sofre mutação em dois pares de bases por hora e o SARS-CoV-2 em dois pares de bases por mês”, diz, referindo-se às pequenas mudanças em um vírus que podem alterá-lo o suficiente para eventualmente tornar uma vacina ineficaz. “E sabemos que o sistema imunológico de algumas pessoas pode vencer o vírus, que é algo que você não vê no HIV”.

Múltiplas vacinas

As vacinas candidatas em ensaios clínicos têm abordagens ligeiramente diferentes para o problema, mas todas se concentram no que Corey chama de "trem de pouso" do SARS-CoV-2: os pontos que permitem que o vírus entre na célula. O objetivo das vacinas é treinar o sistema imunológico para produzir anticorpos que ataquem esses pontos. Corey observa que, uma vez que as vacinas experimentais selecionadas pelo projeto têm como alvo o exterior das partículas virais, não é possível as pessoas serem infectadas pelos medicamentos. Vacinas do tipo vírus inteiro inativado, em ensaio clínico no Brasil conduzido pelo Instituto Butantan, do Governo de São Paulo, não foram admitidas no Warp Speed.

Na Fase 3 – um ensaio com 30.000 voluntários para cada vacina candidata –, é observado o desempenho de cada uma em um número maior de pessoas, para descobrir quaisquer problemas de segurança que as fases anteriores não tenham detectado e para ver quais grupos respondem melhor para uma vacina específica. Esses estudos maiores devem capturar quaisquer variações com base na idade, sexo, grupo étnico, estado de saúde e outros fatores.

Harmonização

"É necessário ter várias vacinas. Não podemos fazer o suficiente de uma vacina para cobrir 4,4 bilhões de pessoas. Precisamos fazer um conjunto comum de perguntas e usar um conjunto comum de medidas. Vacinas diferentes têm perfis de efeitos colaterais diferentes e frequentemente têm diferenças e sutilezas com relação a como funcionam em diferentes populações de pacientes: crianças, adultos, idosos, mulheres grávidas. E as vacinas serão produzidas em horários diferentes, geralmente em locais diferentes. Em ensaios clínicos, você realmente saberá que esta vacina funcionou com 60% de eficácia, que a vacina funcionou com 65% e outra funcionou com isto ou aquilo", explica Corey.

"O sistema de que estamos falando está nos permitindo ter alguns pontos em comum, de modo que, quando terminarmos, haja a capacidade não apenas de comparar a vacina com o placebo, mas também de uma noção relativa de como uma vacina funciona em relação à outra. É uma forma de interpretar os dados para que você saiba se são todos muito semelhantes ou se um é um pouco melhor que o outro. Quais são as respostas imunológicas? Quais são os perfis de efeitos colaterais? Todas funcionaram para pessoas com 50 anos ou apenas uma funciona para aqueles com 70 anos ou mais?".

"Você precisa conduzir os testes de uma forma que os testes de anticorpos, os testes imunológicos sejam todos realizados no mesmo laboratório. Eles não são feitos no próprio laboratório de cada empresa farmacêutica, onde você não tem ideia do que é comparável", destaca Corey.

Corey não mostra favoritismo a uma vacina candidata em particular. “Queremos que todas funcionem”, diz. Embora não tenha expectativas específicas, ele gostaria de ver uma ou mais vacinas que são pelo menos 80% eficazes.

* Com informações do Fred Hutchinson Cancer Research Center, WTO

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