A maior instalação de armazenamento de gás da Europa Ocidental está localizada a 2 quilômetros de profundidade na cidade de Rehden, no Estado da Lower Saxony, norte da Alemanha, e desempenha um papel central na segurança do abastecimento para a Alemanha e a Europa.

A Astora, subsidiária da gigante russa de energia Gazprom, possui mais de um terço de todas as instalações alemãs de armazenamento de gás natural.

As instalações tem algo em comum: estão todas quase vazias, com níveis de 10% ou menos da capacidade.

A reserva estratégica para o petróleo deve durar 90 dias na Alemanha, mas não há tal exigência para o gás e o carvão. As empresas decidem sobre suas reservas.

O Ministro dos Assuntos Econômicos e da Ação Climática, Robert Habeck, do Partido Verde alemão, diz que as instalações foram "sistematicamente esvaziadas" para elevar os preços do gás natural e para gerar pressão política.

Habeck esquece os múltiplos erros de política energética.

O ministério pretende agora promover mudanças legais estabelecendo que as instalações de armazenamento de gás devem operar com 80% da capacidade até outubro, 90% até dezembro, e pelo menos 40% até fevereiro de um determinado ano.

A lei deve ser introduzida no parlamento alemão, o Bundestag, em tempo hábil para que possa entrar em vigor em 1º de maio.

"Isso é necessário para garantir que tenhamos até o verão para encher os depósitos", diz comunicado do ministério.

Contudo, falta combinar com os russos. O país fornece 55% do gás natural, 50% do carvão e 30% do petróleo consumidos pela maior economia da Europa.

O que acontece se Moscou ordenar que o fornecimento de gás não seja ampliado, seja reduzido ou suspenso? Afinal, foi iniciativa da Alemanha encerrar os contratos de longo prazo com as petrolíferas russas e fazer compras no mercado spot.

Uma possibilidade pouco viável seria adiar o desligamento das últimas três usinas nucleares em operação na Alemanha, programadas para parada definitiva este ano. Outra medida mais realista, seria manter as termelétricas a carvão operando, depois das promessas de desativar gradualmente todas elas no máximo até 2038.

"Todas as opções devem estar sobre a mesa", cobrou Andreas Pinkwart, Ministro de Assuntos Econômicos e Energia da North Rhine-Westphalia (NRW), o estado mais populoso da Alemanha.

NRW tem 52 usinas e o maior número de usinas a carvão em toda a Alemanha. Também é um dos quatro estados alemães com grandes áreas de mineração de lignite, uma forma de carvão com menor poder calorífico. Os Primeiros-Ministros desses Estados questionam a eliminação acelerada do carvão da matriz energética alemã.

É trabalho de Habeck fazer da garantia do fornecimento de energia sua prioridade máxima, mas eliminar o carvão é uma questão central para seu Partido Verde, e o fim da energia nuclear no país tem sido parte da identidade política do partido desde sua fundação.

Habeck disse que não lutará contra uma extensão da energia nuclear "por razões ideológicas".

No entanto, os preparativos para o desligamento das restantes três usinas nucleares já estão tão avançados que a operação contínua não é possível por razões de segurança. De acordo com as empresas Eon, RWE e EnBW, é tecnicamente difícil adquirir rapidamente barras de combustível adequadas e há escassez de pessoal especializado.
Mesmo se for decidido que as usinas nucleares devem permanecer operacionais, levará um ano e meio até que os reatores possam produzir eletricidade novamente. Por razões técnicas, eles ainda teriam que ser desligados no final de 2022 e, em seguida, reiniciados para estar operacional novamente no inverno de 2023/2024.

"É difícil pensar em uma política mais autodestrutiva em termos econômicos, climáticos e geopolíticos", ponderou o Wall Street Journal (WSJ) em dezembro.

Más escolhas políticas levaram à escassez de fornecimento de energia, avaliou o jornal.

"As desativações eram esperadas há anos, mas manter os reatores operando durante o tempo de vida anteriormente planejado poderia ter ajudado a aliviar parte da dor que os alemães estão sentindo agora, à medida que a crescente demanda global aumenta o custo da energia", opinou o WSJ.

Em dezembro, o governo alemão ainda estava pressionando para manter a energia nuclear fora da lista da União Europeia de "atividades econômicas ambientalmente sustentáveis", uma designação que poderia reduzir o custo de financiamento de projetos nucleares.

"Já é ruim o suficiente que os alemães tenham minado sua própria segurança energética, mas eles não deveriam impor sua política autodestrutiva ao resto do continente", protestou o WSJ na época.

Segundo dados do jornal americano, o carvão foi a principal fonte de energia da Alemanha no primeiro semestre de 2021, gerando mais de um quarto da eletricidade do país. A energia eólica e a solar produziram 22% e 9%, respectivamente, enquanto a energia nuclear caiu para cerca de 12%.

"Berlim –  à mercê do sol e do vento – agora está aprofundando sua dependência do gás russo para manter as luzes acesas", criticou o WSJ.

Embargo à Rússia

Na quinta-feira (3), Habeck se manifestou contra a proibição das importações de energia da Rússia após a invasão da Ucrânia por Moscou.

"Eu não defenderia um embargo às importações russas de combustíveis fósseis. Eu até me oporia a isso", disse o ministro do Partido Verde depois de se encontrar com líderes empresariais alemães.

"Precisamos desses suprimentos de energia para manter a estabilidade dos preços e a segurança energética na Alemanha", justificou Habeck.

"O impacto das sanções e da guerra em todos os setores da economia é tão forte que podemos temer um grande impacto", disse Habeck.

O ministro disse que as esperanças de que a economia alemã voltasse aos níveis pós-pandemia ainda este ano foram frustradas.

"Esperávamos que experimentasse um aumento nesta primavera [europeia], uma fase de recuperação. Mas agora temos as consequências da guerra", disse.

A escassez de oferta pode ameaçar a coesão social na Alemanha, alertou.

Sem qualquer guerra, em outubro do ano passado as autoridades alemãs estavam ensinando a população a aquecer suas casas com velas e a se acostumar a “cozinhar sem eletricidade”, decorrente da crise energética provocada pelo planejamento falho da transição para a "energia verde".

Ainda assim, Habeck insiste que a Alemanha "deve se libertar" das importações de gás, carvão e petróleo da Rússia, quando, de fato, o Nord Stream 2 traria vantagem econômica e geopolítica à Alemanha como centro europeu de distribuição de gás natural.

O Partido Verde, ao comemorar mais uma sanção ao Nord Stream 2, talvez tenha imaginado que o gás continuará a ser enviado à Alemanha através da Ucrânia, mas a Gazprom anunciou um novo gasoduto na Mongólia para atender a China, com capacidade similar ao que seria entregue à Europa pelo Nord Stream 2, trazendo dúvidas sobre o volume de gás natural russo que será fornecido aos europeus.

Nord Stream 2

Em fevereiro, a Alemanha parou o controverso gasoduto de gás natural Nord Stream 2. Desde então, juntou-se a outras nações europeias para introduzir uma série de sanções contra a Rússia sobre a invasão da Ucrânia.

O primeiro Nord Stream, inaugurado em 2011, tem capacidade para transportar 55 bilhões de metros cúbicos (bcm) de gás por ano, volume que seria dobrado com o segundo duto, um projeto euro-russo de US$ 11 bilhões. Ambos ligam a Rússia diretamente à Alemanha pelo Mar Báltico e somam quase 2.500 km de transporte subaquático de gás natural. Trata-se do maior gasoduto desse tipo no mundo.

Os Verdes se opuseram abertamente ao novo gasoduto russo e, durante a recente campanha eleitoral, pediram a suspensão de sua construção. Fonte/Arte: © Geopolitical Intelligence Services
Os Verdes se opuseram abertamente ao novo gasoduto russo e, durante a recente campanha eleitoral, pediram a suspensão de sua construção. Fonte/Arte: © Geopolitical Intelligence Services

O Nord Stream 2 pertence à estatal russa Gazprom, mas metade de seu financiamento vem de empresas europeias, como a francesa Engie, a austríaca OMV, a anglo-holandesa Shell e as alemãs Uniper e Wintershall.

O destino do gasoduto está diretamente ligado à política, ainda que o compromisso de Angela Merkel durante a negociação para a sua construção tenha sido de tratá-lo como empreendimento privado sem qualquer interferência política.

Cerca de 40% do gás russo exportado para a Europa passa pelos gasodutos da antiga União Soviética na Ucrânia, que encontra nessa atividade sua principal fonte de renda
Cerca de 40% do gás russo exportado para a Europa passa pelos gasodutos da antiga União Soviética na Ucrânia, que encontra nessa atividade sua principal fonte de renda

O adicional de gás russo do Nord Stream 2 "certamente sobrecarregará o mercado europeu", avalia Connor McLean, analista de energia da BTU Analytics, acrescentando que provavelmente substituirá as fontes existentes de abastecimento, refreando a recuperação das exportações de Gás Natural Liquefeito (LNG) dos EUA.

LNG

Por volta de 2011, quando Joe Biden era vice-presidente, os Estados Unidos viram seus próprios interesses comerciais de energia ligados ao mercado europeu.

Por questões tecnológicas, grande parte do gás de xisto extraído nos EUA não pode ser aproveitado no país e precisa ser exportado sob a forma liquefeita. Os países europeus surgiram como potenciais consumidores e a Rússia cresceu no papel de rival.

As tentativas de Washington de impedir Berlim de comprar gás natural russo através do gasoduto Nord Stream 2 mostram total desdém pelos interesses alemães, disse em entrevista a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova. "A Alemanha precisa desse gás não porque eles gostam da Rússia ou querem nos agradar – eles precisam dele, é o que alimenta sua economia, é um recurso que o desenvolvimento industrial deles depende".

Em vez disso, Washington está tentando que a Alemanha compre gás natural liquefeito dos Estados Unidos. No entanto, o preço do LNG americano é muito mais alto, então os EUA disseram à Alemanha para tributar um pouco mais as pessoas e compensar a diferença através de subsídios, disse a porta-voz.

No início do ano passado, os EUA se tornaram brevemente o principal fornecedor europeu de LNG, mas o Qatar retomou a liderança.

Para substituir o fornecimento de energia russo no curto prazo, o Ministério dos Assuntos Econômicos e da Ação Climática está procurando comprar mais gás de outros países, incluindo no Oriente Médio. Também deverá importar LNG dos EUA.

O LNG americano é considerado um combustível "sujo" porque é produzido por fracking, altamente prejudicial ao meio-ambiente, mas os verdes alemães parecem não se importar com agressões à natureza quando são favorecidos.

Naturalmente, a Alemanha não tem instalações de armazenamento de LNG, mas o país agora estuda a construção de dois terminais em Brunsbüttel e Wilhelmshaven, na costa do Mar do Norte. Apenas os procedimentos de aprovação levariam de dois a cinco anos, mas com a "emergência energética" espera-se um prazo bem menor.

Atualização 07/03/2022

Em comunicado, a estatal russa Gazprom informou que continua a fornecer gás regularmente para a Europa via Ucrânia. Segundo a empresa, nesta segunda-feira (7) foram despachados 109,6 milhões de metros cúbicos dentro das obrigações contratuais para o trânsito de gás pela Ucrânia, que somam 40 bilhões de metros cúbicos por ano.

A Gaszprom também declarou não ter responsabilidade sobre a alta de preços do gás no mercado internacional. “A nossa empresa assegura e assegurará o cumprimento dos contratos de fornecimento de gás a longo prazo”.

O comunicado surge após o governo russo ameaçar interromper o fornecimento de gás através do gasoduto Nord Stream 1, em comentário do vice-primeiro-ministro Alexander Novak na televisão estatal.

"Nós temos o total direito [...] para impor um embargo", disse.

Atualização 08/03/2022

Embora o governo Biden tenha sinalizado no domingo (6) sua disposição de proibir as importações de gás e petróleo russos como parte das sanções internacionais a Moscou, Olaf Scholz, chanceler da Alemanha, rejeitou a ideia.

"A Europa isentou deliberadamente o fornecimento de energia da Rússia das sanções", disse Scholz em um comunicado nesta segunda-feira. "No momento, o fornecimento de energia da Europa para geração de calor, mobilidade, eletricidade e uso industrial não pode ser garantido de outra forma. Por isso, é de importância essencial para a prestação de serviços públicos e o cotidiano de nossos cidadãos".

A Alemanha não está sozinha na Europa na alta dependência de combustíveis fósseis russos.

A posição do país, que está sendo espelhada na União Europeia, marca uma divergência incomum após duas semanas de sincronização transatlântica sobre as sanções e reflete realidades políticas contrastantes em Washington e na Europa.

O Primeiro-Ministro da Holanda, Mark Rutte, alertou na segunda-feira para as "enormes ramificações" que decorreriam de uma proibição imediata dos combustíveis fósseis russos. "A dolorosa realidade é que ainda somos muito dependentes do petróleo e gás russos", reconheceu.

Os danos colaterais das rodadas de sanções existentes já são suficientes para levantar preocupações sobre a recuperação econômica da UE, com muitas capitais vendo argumentos para uma pausa, devendo considerar o impacto do atual pacote de sanções antes de contemplar um ataque contra algo tão sensível quanto as exportações russas de energia.

Scholz disse que seu governo e parceiros europeus têm "trabalhado duro por meses" para desenvolver alternativas ao fornecimento de energia russo, mas enfatizou que "isso não pode ser feito da noite para o dia".

"É por isso que é uma decisão consciente de nossa parte continuar as atividades das empresas na área de fornecimento de energia com a Rússia", acrescentou Scholz.

A intervenção do chanceler seguiu comentários do Secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, que disse no domingo que os Estados Unidos e a União Europeia estavam em "discussões muito ativas" para proibir as importações de petróleo russo. A imprensa japonesa informou que Tóquio se juntou a essas discussões.

A declaração de Blinken provocou elevação de 18% do preço do petróleo Brent, a referência internacional, para US$ 139 o barril.

Se a União Europeia e os Estados Unidos imporem barreiras simultâneas às importações russas de energia, o aumento de preços será formidável.

Apenas a ameaça de uma proibição do petróleo russo abalou Wall Street, levando o S&P 500 a cair quase -3% e o Nasdaq Composite, focado em tecnologia, caindo -3,6%. O Euro Stoxx 50 caiu mais de -1%, após Moscou alertar para "consequências catastróficas" para o bloqueio de seu petróleo.

O Brent subiu 1,6%, para US$ 125 o barril, negociado na Ásia nesta terça-feira (8), depois de terminar a sessão anterior em alta de mais de 4%. O West Texas Intermediate (WTI), o marcador dos EUA, subiu 1,3%, a US$ 121.

Os preços europeus do gás natural subiram cerca de 5%, a € 215,50 por megawatt-hora, depois de saltarem 40% na segunda-feira.

Bloquear as exportações russas de energia empurraria o Brent para cerca de US$ 160 o barril e "os preços da energia permaneceriam mais altos por mais tempo", disse ao FT Caroline Bain, economista-chefe de commodities da consultoria Capital Economics.

A Comissão Europeia publica hoje um plano para reduzir as exportações russas de gás para a UE em dois terços em um ano, escreve Andy Bounds em Bruxelas.

Frans Timmermans, comissário do Green Deal, argumenta que aumentar a energia renovável e reduzir o consumo é o caminho mais rápido para alcançar esses fins.

Venezuela e Irã

O governo Biden está sob intensa pressão no Congresso por um bloqueio de petróleo, um movimento que as pesquisas de opinião sugerem que encontraria apoio popular, apesar de trazer mais aumentos para os combustíveis.

O presidente venezuelano Nicolás Maduro confirmou que seu governo manteve conversações com altas autoridades dos EUA, a primeira reunião de alto nível entre os países desde 2019, quando cortaram os laços diplomáticos. Conversações com o Irã também estão em andamento. Biden busca fornecedores alternativos de energia antes dos EUA e seus aliados ampliarem as sanções impostas à Rússia.

Os EUA compram petróleo russo em parte para alimentar refinarias que precisam de diferentes graus de petróleo com maior teor de enxofre. As refinarias dos EUA foram projetadas décadas atrás para usar graus mais pesados de petróleo, muitas vezes com níveis mais altos de enxofre, quando os suprimentos domésticos eram mais baixos.

Nos últimos anos, o petróleo russo preencheu parte da lacuna criada pelas sanções à Venezuela e ao Irã, que prejudicaram o fluxo de tipos similares de petróleo desses países para refinarias na Costa do Golfo e de outras regiões americanas.

Atualização 08/03/2022

Goldman Sachs: A União Europeia em breve anunciará sua nova estratégia de energia, mudando seu foco de curto prazo da descarbonização para a segurança energética, com aumento da geração de energia a carvão, nuclear e gás, permitindo maior emissão de carbono.

Em 2 dias, Putin acabou com 2 anos de pandemia e décadas de aquecimento global.

Atualização 04/04/2022

Os Estados Unidos aumentaram suas compras de petróleo russo em 43% entre 19 e 25 de março, de acordo com dados da Administração de Informações sobre Energia (EIA). Apesar da proibição da Casa Branca de importações de energia da Rússia, os EUA continuam a comprar até 100.000 barris de petróleo russo por dia.

* Com informações do Deutsche Welle, Financial Times

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