Nesta sexta-feira (28), Angela Merkel, em entrevista coletiva na Conferência Nacional de Imprensa (Bundespressekonferenz), expressou preocupação com os meses de outono e inverno, "quando voltarmos a passar bastante tempo no interior de nossas casas, nos locais de trabalho e nas escolas", e com o risco de o número de infecções aumentar.

“Ninguém sabe como será o inverno”, disse Merkel. "É de se esperar que algumas coisas serão ainda mais difíceis nos próximos meses do que no verão".

Angela Merkel pediu à população para não se descuidar na prevenção da propagação do vírus.

"É sério. Tão sério como sempre foi. E continuem levando a sério", disse a Chanceler. "Teremos que continuar vivendo com esse vírus".

Até agora, o governo alemão administrou a crise do coronavírus melhor do que muitos de seus pares europeus, introduzindo testes rigorosos que ajudaram a manter os casos e os óbitos relativamente baixos. Mas o número de novas infecções diárias no país voltou a aumentar, por vezes alcançando níveis de abril.

Merkel, que ficou em quarentena por duas semanas no início da pandemia, disse que entendia como as restrições na vida cotidiana eram para algumas pessoas.

“Sabemos como os pais levantam todos os dias e se preocupam se seus filhos estão com o nariz escorrendo”, disse ela. “Isso vai durar todo o inverno e, claro, isso é totalmente estressante. Temos que ver como mantemos o país funcionando, no entanto”.

Merkel disse que seu governo tomará medidas para proteger os grupos mais atingidos na sociedade alemã, especialmente crianças, que viram suas aulas interrompidas com o fechamento de escolas antes das férias de verão.

"A pandemia torna grupos inteiros da população particularmente vulneráveis", disse Merkel e deu como exemplo idosos e pessoas que necessitam de cuidados e seus parentes, famílias com crianças em condições precárias de moradia, estudantes que perderam seus empregos de meio período, desempregados, pequenos empresários e artistas.

"Temos que prestar atenção especial a todos eles. Mas também é importante fazer tudo o que pudermos para garantir que nossos filhos não sejam os perdedores da pandemia", disse Merkel, reiterando que a educação é o ponto mais importante e que escolas e creches não devem deixar ninguém para trás.

Merkel traçou três objetivos para as próximas semanas:

  • o funcionamento das creches e instituições de ensino deve ser garantido;
  • a economia deve ser mantida em funcionamento no nível máximo possível; e
  • a coesão social deve ser preservada, dentro das restrições vigentes.

Conhecida por fazer suas próprias compras no supermercado local, Merkel disse que achou a necessidade de distanciamento social particularmente difícil. “Acima de tudo, sinto falta dos encontros espontâneos com outras pessoas”.

"Não voltará a ser como antes enquanto não tivermos uma vacina ou um medicamento", disse. "A única esperança é que lidemos com a doença de uma forma que ela não coloque em perigo a nós e as pessoas de grupos de risco".

Na quinta-feira (27), Merkel e líderes regionais concordaram em manter as escolas da Alemanha abertas, proibir grandes eventos até pelo menos o final do ano e endurecer as regras de quarentena para viajantes que retornam de países de alto risco.

Solidariedade social

Merkel disse que esforços para manter a economia funcionando e preservar empregos serão feitos, acrescentando que um espírito de solidariedade social será promovido para amortecer os efeitos da pandemia em outros grupos, como idosos e famílias de baixa renda.

Para o Estado, o coronavírus representa também um desafio orçamentário.

A Chanceler defendeu as altas somas gastas por seu governo no combate às consequências negativas da pandemia. Embora ela tenha admitido que foi "um desafio sem precedentes para nossa capacidade financeira", a Alemanha conseguiu arcar com o dinheiro devido aos superávits orçamentários dos últimos anos.

Merkel disse que o governo se beneficiou do bom estado das finanças públicas e afirmou estar feliz por o governo não ter caído, em anos anteriores, na tentação de se endividar em tempos de bonança. Berlim pode arcar com todas as medidas e age com responsabilidade financeira, garantiu a Chanceler.

“Se circunstâncias extraordinárias não permitirem agir de maneira extraordinária, então você está fazendo algo errado politicamente”, disse Merkel, acrescentando que a pandemia desafiará a capacidade financeira da Alemanha devido à incerteza sobre quando terminará.

A dívida contraída para reduzir o impacto econômico das medidas decretadas somente será liquidada em 2058.

"Segunda Onda"

  • O número de casos relatados da Itália aumentou pelo terceiro dia consecutivo para 1.462, o máximo desde 2 de maio. Tendo descartado outro lockdown nacional, o Primeiro-Ministro Giuseppe Conte deverá reabrir as escolas italianas em 14 de setembro.
  • A Espanha contabilizou 3.829 novas infecções em dados publicados nesta sexta-feira (28), o maior número desde 23 de abril.
  • A França relatou 7.379 novos casos, o maior aumento diário desde 31 de março, porém o Presidente Emmanuel Macron expressou confiança de que o país pode evitar uma repetição do lockdown que implodiu a economia francesa.
Países europeus que adotaram a estratégia de lockdown enfrentam quedas históricas do PIB, como Espanha (-22%), Reino Unido (-22%), França (-19%), Itália (-17%) e Portugal (-16,5%), entre outros. A Suécia, que rejeitou a medida, também foi atingida economicamente pelos efeitos negativos da pandemia, mas o PIB caiu menos (-8%). Fonte/arte: © Eurostat
Países europeus que adotaram a estratégia de lockdown enfrentam quedas históricas do PIB, como Espanha (-22%), Reino Unido (-22%), França (-19%), Itália (-17%) e Portugal (-16,5%), entre outros. A Suécia, que rejeitou a medida, também foi atingida economicamente pelos efeitos negativos da pandemia, mas o PIB caiu menos (-8%). Fonte/arte: © Eurostat

Para Anders Tegnell, o formulador da bem sucedida estratégia da Suécia, o vírus não pode ser eliminado, como insistem movimentos como o ZeroCovid, na Inglaterra, que propõe lockdown extremo.

"Não acho que seja uma doença que possamos erradicar. Talvez, a longo prazo, possamos erradicar com uma vacina, mas não tenho certeza disso. Pessoalmente, acredito que é uma doença com a qual teremos que aprender a conviver”, disse.

O Dr. Tegnell acredita que a ênfase na disseminação do vírus também é equivocada, pois o número de casos é cada vez menos relacionado ao número de mortes.

“As mortes não estão intimamente ligadas à quantidade de casos que você tem em um país. Existem muitos outros fatores que influenciam a quantidade de óbitos. Que parte da população é atingida? São os idosos? Quão bem você pode proteger as pessoas em suas instalações de longo prazo? Quão bem o seu sistema de saúde continua funcionando? Como podemos melhorar o tratamento nas UTIs? Todas essas coisas estão mudando bastante nos últimos meses ... Essas coisas influenciarão muito mais a mortalidade do que a propagação real do vírus”, afirma Anders Tegnell.

Realidade

"Precisamos de políticos que tenham a vontade e a integridade para contar a verdade às pessoas, disse Ken Frazier, Presidente e CEO da principal produtora de vacinas do mundo, a gigante farmacêutica Merck & Co. "A realidade do mundo é que nesta época do próximo ano muito bem pode parecer com o que estamos experimentando agora".

Para Frazier, o anúncio que uma vacina está chegando leva políticos e população a reduzirem os cuidados com o vírus.

"É fundamental que as pessoas entendam que, enquanto esperamos pela vacina, a proteção imediata contra a propagação desse vírus é boa higiene, usar (a maldita) máscara, distanciamento social, etc", disse Ken Frasier.

* Com informações da Arbeitsgemeinschaft der öffentlich-rechtlichen Rundfunkanstalten der Bundesrepublik Deutschland (ARD), Bloomberg, NBC News, UnHerd

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