Recentemente, a União Europeia (UE) concordou com um embargo de 92% do petróleo russo e derivados, como gasolina, diesel, combustível de aviação, vacuum gas oil (VGO) e outros produtos e componentes petrolíferos.

Os Estados-Membros têm 6 meses para encerrar as importações de petróleo e 8 meses para refinados.

A Alemanha expressou sua firme disposição em dar este passo, embora se espera que essa decisão exacerba a crise energética na Europa e leve a um aumento adicional nos preços da energia.

O deputado Steffen Kotré (AfD) prevê que o embargo ao fornecimento de petróleo russo terá um efeito devastador sobre a economia alemã.

"Essa medida é desastrosa para nossa economia. Já estamos enfrentando restrições de produção simplesmente por causa dos altos preços da energia. A desindustrialização da Alemanha vai acelerar, bem como as empresas médias alemãs perderão competitividade no exterior", disse Kotré em entrevista ao jornal russo Izvestia.

Gás

Sobre a importação de gás russo, o membro do comitê de energia do Bundestag avaliou que levará tempo para uma substituição completa e os preços serão mais altos.

"Do ponto de vista econômico, a Alemanha não pode operar sem gás russo", afirma Kotré. "Existem alternativas, mas a substituição total levará tempo, já que os países fornecedores têm contratos de longo prazo com outros clientes. Encontrar novos e mais caros exportadores levará um ano ou dois".

Segundo estimativas, o consumo global de gás alcançou 4,2 trilhões de metros cúbicos em 2021. A perspectiva de médio prazo é essencialmente um ciclo de investimento único de cinco anos. A previsão pessimista para o consumo global de gás prevê um crescimento de +320 bilhões de metros cúbicos. A previsão média prevê um crescimento de +370 bilhões de metros cúbicos. Muito mais capacidades de produção precisarão ser criadas devido à diminuição da produção nos campos ativos.

A demanda atual de gás na Europa é de 512 bilhões de metros cúbicos (bcm) por ano. Em 2021, os países da União Europeia importaram 155 bcm de gás natural da Rússia, cerca de um terço desse volume pela Alemanha.

Para substituir o gás russo, os países do bloco terão que competir com a Ásia e outros compradores.

A União Europeia festejou nesta quarta-feira um acordo com o Egito e Israel para embarques de gás natural liquefeito (LNG) aos seus Estados-membros. Bruxelas espera que Israel aumente a exportação de gás natural através de gasodutos pré-existentes para portos egípcios, onde possa ser pressurizado e liquefeito, antes de ser transportado para a Europa por navio.

No entanto, a Ministra da Energia de Israel, Karine Elharrar, disse que é improvável que o país seja capaz de enviar "grandes quantidades" para a Europa, uma vez que a maior parte de sua capacidade atual está comprometida com o Egito, a Jordânia e o mercado interno. Israel envia atualmente apenas 5 bilhões de metros cúbicos de gás por ano para o Egito. Autoridades israelenses disseram que provavelmente levará alguns anos até que as exportações possam ser significativamente expandidas.

Deve-se também observar que os preços do LNG aumentaram mais de 1.000% nos últimos dois anos, primeiro por causa da pandemia e depois pela escassez global de energia, agravada pelas sanções à Rússia e imposições de limites da OPEC.

Ainda assim, o principal desafio para substituir o gás russo pelo produto liquefeito de outros países é a infraestrutura que precisa ser construída, cerca de cinco anos para o processo de liquefação e dois a três anos para a regaseificação.

A Alemanha não tem instalações de importação de LNG.

De acordo com pesquisa realizada pelo Institute for Labor Market and Professional Research, mais da metade (58%) das empresas alemãs não serão capazes de encontrar um substituto para o gás russo no curto prazo, relata a revista semanal Der Spiegel.

O instituto aponta que apenas 20% das empresas esperam encontrar alternativas ao gás. Além disso, se a Rússia parar de enviar o combustível para a Alemanha, cerca de dois terços das companhias intensivas em energia que utilizam gás natural e 20% das demais empresas enfrentarão uma redução significativa ou suspensão total da produção.

"Quando mais da metade da energia importada é de apenas um fornecedor, ela é sempre questionável e repleta de riscos. No entanto, a Rússia sempre foi um exportador confiável. Também barato. Foi uma situação em que todos ganhavam. E seria desejável continuar a manter a Rússia como fornecedora de energia", ponderou Steffen Kotré.

"As sanções e embargos da União Europeia ou da Alemanha prejudicam a Alemanha, não a Rússia", acrescentou.

Nord Stream 2

Kotré disse ainda que o futuro do gasoduto Nord Stream 2 é incerto.

"O destino do Nord Stream 2 é desconhecido para mim. No entanto, sei como irracionalmente o governo federal age contra seus próprios interesses. Então eu posso muito bem imaginar que o gasoduto não será usado por anos".

O gasoduto Nord Stream 2, concluído em setembro de 2021, possui duas linhas partindo da estação compressora "Slavyanskaya" no distrito de Kingisepp, na região de Leningrado, na Rússia, até a costa do Mar Báltico da Alemanha.

Ambas as linhas estavam preparadas para transporte imediato de gás natural para a Europa, mas a certificação foi interrompida por interferência do Partido Verde alemão, que faz parte do novo governo, empossado em dezembro. Em fevereiro deste ano, por pressão dos Estados Unidos, o projeto foi suspenso pelo governo alemão e a empresa operadora foi colocada na lista de sanções dos americanos.

Embora pertencente à estatal russa Gazprom, metade do financiamento do Nord Stream 2 vem de empresas europeias, como a francesa Engie, a austríaca OMV, a anglo-holandesa Shell e as alemãs Uniper e Wintershall DEA.

No início do mês passado, a Gazprom anunciou que estava redirecionando uma das linhas do Nord Stream 2 para atender a demanda doméstica da Rússia, retirando da Europa acesso a 28 bilhões de metros cúbicos de gás natural russo por ano – 50% da capacidade do gasoduto – até o final da década.

"A UE gradualmente desaparecerá"

Questionado sobre se a atual situação energética na UE é, em certa medida, um ensaio para a transição para uma economia verde, o deputado alemão disse que a crise na Ucrânia é usada para "acelerar a transição do fornecimento de energia da Idade da Pedra para as chamadas fontes de energia renovável" e que o "prejudicial Green Deal" da UE, as taxas sobre as emissões de CO2, e o chamado Great Reset "estão sendo promovidos".

"Como resultado, a economia deve ser reconstruída como planejam. Isso, por sua vez, significa que a prosperidade, a democracia e os empregos serão desmantelados. A UE gradualmente desaparecerá", disse Kotré.

Inflação

A variação intranual do índice de preços ao consumidor em maio na Alemanha foi de +7,9%, a maior taxa de inflação desde a primeira crise do petróleo, no inverno de 1973/1974, segundo dados oficiais.

O Instituto Kiel para a Economia Mundial (IfW Kiel) e o Instituto IFO projetam a inflação da Alemanha para o próximo ano em 4,2% e 3,3%, respectivamente.

Kotré aponta que a inflação alemã é decorrente da "reestruturação pelas esquerdas-Verdes da economia" do país e a políticas do Banco Central Europeu.

"Os maiores custos de energia do mundo são em grande parte devido a uma transição verde disruptiva envolvendo a eliminação de energia nuclear segura e barata, eliminação do carvão e medidas para combater as mudanças climáticas. Além disso, a indústria automobilística, que criou empregos e se manteve como garantidora do bem-estar do país, será destruída. Estamos experimentando uma transformação sem precedentes de nossa economia em relação ao planejado".

"Além disso, o governo federal permitiu que o Banco Central Europeu, em violação do tratado da UE, perseguisse não a política monetária, mas sim uma política de redução da dívida para os Estados devedores da UE. Ao comprar títulos públicos problemáticos, ele apoiou os países devedores e estimulou a inflação imprimindo dinheiro para pagar gradualmente as dívidas desses Estados. Assim, os Estados credores são privados de seus fundos. A inflação na UE está ligada a causas domésticas. No entanto, uma política de sanções autodestrutivas é adicionada a isso", acrescentou o parlamentar.

Autodestruição

"As sanções têm um efeito prejudicial. A fabricação está se tornando muito cara, incluindo amônia, fertilizantes e a indústria química. Estamos vendo muitas empresas de médio porte limitarem sua produção, se mudarem para o exterior ou aumentarem o preço de seus produtos. Isso será acompanhado de cortes de empregos e falências. A indústria intensiva em energia experimentará uma desindustrialização sem precedentes. As empresas estão financeiramente enfraquecidas, tornando-as um alvo fácil para concorrentes estrangeiros. As famílias já estão experimentando um aumento de 200 a 400% nos preços de gás e eletricidade. Se o governo federal gastar o dinheiro dos contribuintes para conter o ônus, prejudicará a economia a médio e longo prazo", avaliou o deputado.

Potência militar

Kotré comentou também o aumento do orçamento da defesa e os planos do Chanceler Olaf Scholz para criar um dos exércitos mais fortes da OTAN e, ao mesmo tempo, Berlim ser acusada de atrasar o fornecimento de armas à Ucrânia.

"A Alemanha não tem política externa própria. O Chanceler Scholz escolheu a tática certa desde o início: contenção. No entanto, ele foi dominado por militaristas de esquerda-Verdes, e ele teve que fazer ajustes no fornecimento de armas. Os atrasos se devem mais à incapacidade de Berlim de implementar grandes projetos", disse o parlamentar do AfD.

"A excessiva burocracia, a hipermoralidade em vez de ações responsáveis, bem como a distribuição de cargos com base em convicções políticas, em vez de adequação profissional, e políticas de injeção de recursos para salvar o mundo transformaram a Alemanha em um país sem um papel ativo", concluiu Kotré.

Atualização 15/06/2022

Ainda há juízo em Washington?

O esforço de Biden para liderar o Ocidente nas sanções que castigam a Rússia resultou na elevação expressiva dos lucros das companhias russas que exportam para nações que não seguiram as medidas dos EUA. Os membros da Casa Branca estão agora "expressando preocupação de que, em vez de dissuadir o Kremlin como pretendido, as sanções estão, em vez disso, exacerbando a inflação, piorando a insegurança alimentar e punindo os russos comuns mais do que Putin ou seus aliados", relatou a Bloomberg na terça-feira (14).

Na mesma terça-feira, o Departamento do Tesouro dos EUA emitiu uma licença geral autorizando transações relacionadas a todas as formas de energia com bancos russos sob sanção. A licença anterior deveria expirar em 24 de junho.

"Para efeitos desta licença geral, o termo "relacionado à energia" significa a extração, produção, refinamento, liquefação, gaseificação, regaseificação, conversão, enriquecimento, fabricação, transporte ou compra de petróleo, incluindo petróleo bruto, condensados, refinados inacabados, líquidos de gás natural, produtos petrolíferos, gás natural, ou outros produtos capazes de produzir energia, como carvão, madeira ou produtos agrícolas usados para fabricar biocombustíveis, ou urânio de qualquer forma, bem como o desenvolvimento, produção, geração, transmissão ou troca de energia, através de quaisquer meios, incluindo nuclear, térmico, e fontes de energia renovável", determina a licença.

As transações serão permitidas até 5 de dezembro de 2022 com o Banco da Rússia e com os bancos russos Vnesheconombank, Otkritie, Sovcombank, Sberbank, VTB e Alfa-Bank, além de qualquer entidade em que uma ou mais dessas instituições financeiras possuam, direta ou indiretamente, individualmente ou no agregado, participação de 50% ou maior.

Washington impôs sanções aos maiores bancos da Rússia, congelando quaisquer ativos no sistema financeiro dos EUA e proibindo os americanos de conduzir negócios com eles.

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